- Publicidade -
Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
- Publicidade -

“Oferecem-se mocas com pregos a esposas traídas”, por Hália Santos

Hoje apetecia-me só falar com as mulheres de todos os homens que eu sei que cometeram adultério…

- Publicidade -

Agora vais meter-te na vida dos outros?

Não, mas apetecia-me. São certas vontades que tenho de vez em quando, como se pudesse sentar-me na cadeira de um juiz e decidir o que fazer aos homens que ‘dão umas escapadelas’.

- Publicidade -

Essa vontade tem origem no que decidiu o senhor juiz bíblico, certo?

Claro! Aliás, a minha primeira reação, completamente instintiva, foi a de escrever um post no Facebook com o seguinte conteúdo: “Encomendei a produção de mocas com pregos com garantia de efeitos visíveis e irreversíveis quando aplicadas no corpo humano. Só funcionam quando utilizadas por mulheres em homens traidores. Ofereço a esposas de homens traidores. Não preciso de comprovativos da traição para oferecer o requintado instrumento. As esposas dos homens que eu sei que já as traíram receberão mensagem privada com detalhes sobre como proceder ao levantamento da moca.”

Estás a gozar?!

Não, não estou. Só não o fiz porque depois da primeira reação a quente, percebi que estas coisas são demasiado sérias para determinadas abordagens.

Isso faz-me lembrar a noção dos limites do humor. Até onde é que podemos ir para chamar a atenção para um assunto levando-o ao exagero.

Uma coisa é fazer humor com temas fraturantes, mas com a intenção de fazer as pessoas refletirem sobre esses temas. Outra coisa é fazer humor com situações concretas e demasiado graves. Até pode funcionar num caso como este, mas não serei eu a fazê-lo.

De qualquer das formas, seja um peça humorística ou um comentário no Facebook, a verdade é que vai influenciar as pessoas.

Verdade. Assim, como um artigo de opinião ou uma crónica. O que se pretende é sempre influenciar, independentemente do formato e do estilo. Neste caso, nem me parece que seja preciso argumentar muito. O absurdo é tão evidente que até os Católicos se indignam quanto à forma como a Bíblia foi ‘usada’ para atenuar a pena de violência sobre a mulher adúltera.

Claro, porque a utilização da Bíblia foi claramente abusiva. Como foi abusivo distinguir as mulheres honestas das mulheres adúlteras…

Eu adorei essa parte! As ‘mulheres honestas’… Devem ser as que calçam as pantufas aos homens quando eles chegam cansados a casa, mesmo que elas estejam mais cansadas do que eles.

Pensava que já não havia sobreviventes dessa espécie!

Eu queria acreditar que não havia sobreviventes dessa espécie. Talvez a senhora que casou com o senhor juiz (partindo do princípio de que alguém casou com ele e que casada se mantém, claro) seja uma das sobreviventes da espécie.

Olha que, se calhar, há mais do que tu imaginas…

Espero bem que não! Como espero que o senhor juiz bíblico não tenha filhas. Já agora, nem filhos, para se matar o mal pela raiz. Imagina só o que é o perpetuar da ideia de que bater numa mulher adúltera é qualquer coisa sem importância…

Eu não consigo imaginar, mas quando vejo, na televisão, deputados europeus a dizer que o Parlamento Europeu talvez tenha coisas mais importantes para discutir do que o assédio sexual, fico sem saber o que pensar. E quando vejo outro a dizer que a discussão só surgiu porque Bush foi acusado de assédio, isto leva-me a pensar que talvez tenhamos que pensar muito bem no que andamos a fazer.

Eu tenho muito pouca paciência para opiniões exageradas e extremistas. Em todas as situações há sempre muitas atenuantes e muitas vezes, nestes casos mais polémicos, pronunciamo-nos sem termos todos os dados. Mas há uma coisa que eu sei: se perdemos a confiança nos órgãos que nos devem dar garantias de justiça e igualdade, caminhamos a passos largos para que os espertos e os brutos se sintam com força para pôr em ação a sua esperteza e a sua brutalidade. E eu não quero nada disso, nem para mim, nem para ninguém.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome