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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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“Ofensas, ofensas, provérbios à parte”, por Hália Santos

Muitos de nós crescemos a ouvir provérbios. Fomos educados com provérbios. Em casa ouvi vezes sem conta que ‘quem boa cama fizer nela se há de deitar’. Que é como quem diz: a tua vida será aquilo que dela fizeres. Era uma lição de responsabilidade. Na escola primária ouvia todos os dias que ‘água mole em pedra dura tanto bate até que fura’. Que é como quem diz: vale sempre a pena insistir mesmo nas missões que parecem impossíveis. Era uma lição de esperança. E estes dois provérbios estiveram sempre presentes, pela vida fora.

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Por acaso, não eram provérbios que incluíssem animais. Mas aqueles que incluíam nunca tiveram subjacente a ideia de estimular os maus tratos a animais. Nem sequer o tão falado ‘pegar o boi pelos cornos’. Quem usa este provérbio não pode ser conotado como alguém que desrespeita os animais. Como quem usa a expressão ‘matar dois coelhos de uma só cajadada’ certamente que nunca pensou em defender a morte violenta dos ternurentos roedores. Sejamos realistas, não é assim que se mudam mentalidades.

As mensagens veiculadas ao longo do tempo e, sobretudo, o exemplo que damos aos mais novos é que nos fazem evoluir. Basta pensar na consciência ecológica para percebermos o tempo que é preciso para as pessoas mudarem os seus hábitos. A defesa dos direitos dos animais tem que fazer também o seu caminho, com serenidade, com argumentos válidos, com mensagens bem trabalhadas. Não é à força que se transformam comportamentos.

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Pelo menos, o deputado do PAN não se lembrou de fazer uma proposta de lei para acabar com os provérbios que chocam os defensores dos direitos dos animais. Porque, então, teríamos seriamente que pensar noutros provérbios que teriam que ser banidos. Desde logo, aquele que nos tentou ensinar que ‘entre marido e mulher ninguém mete a colher’.

Aliás, um dia destes já nem é preciso chamar a atenção para falta de razão deste provérbio. Porque o trabalho de alerta para os casos de violência doméstica tem sido (e bem) tão intenso que, certamente, de forma natural, já muitos poucos o usarão.

Mas há mais. Por exemplo, ‘a mulher quer-se pequenina como a sardinha’. Ai é? Porquê? Não estamos a discriminar as mulheres grandes? Pois estamos. Mas, se calhar, também estamos a discriminar as sardinhas grandes. Tudo por causa da cultura popular, a mesma que nos leva a chamar tolo a quem não fica com a melhor parte quando parte e reparte.

Cada um sabe de si! E se dissermos que em terra de cego quem tem olho é rei, se calhar também estamos a ofender alguém. Bom, não sejamos mais papistas do que o Papa para não ofendermos os católicos. Entre uma coisa e outra, venha o diabo e escolha. O melhor é deixarmos isto para os especialistas e não meter a foice em seara alheia.

E, entretanto, talvez tenhamos que deixar de chamar palhaço a alguém que é parvo e deixar de chamar bipolar a quem num dia diz uma coisa e noutro dia diz outra. Isso, sim, é ofensivo.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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