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Obituário: A despedida de José Amaral ao amigo Eurico Consciência

O Dr. Consciência pregou-nos esta partida: deixou-nos. Não se estava à espera…

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Foram 40 anos de convivência, de proximidade, de camaradagem, de amizade e de solidariedade.

Nos primeiros tempos, sendo eu ainda então estudante, até éramos vizinhos, enquanto ele e a Família viveram no andar por cima daquele onde viviam os meus Pais.

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Mas foi só depois, quando comecei o meu estágio de Advocacia, com o Dr. Orlando Pereira, e depois, como Advogado, que se desenvolveu a relação de camaradagem profissional e de amizade pessoal que me leva a experimentar agora um sentimento estranho: ter de me adaptar a um Mundo em que não existe o Dr. Consciência.

Já não está ali, a 100 metros, ou do outro lado do telefone… Não é fácil!

Posso dizer, porque é verdade, que estivemos um com o outro, nos melhores e nos piores momento na vida de um e do outro.

E ele passou, diversas vezes, por  momentos muito difíceis, enfrentando sempre a adversidade com uma coragem, com uma dignidade e com uma perseverança e tenacidade verdadeiramente invulgares, com a garra e a fibra do grande lutador que foi.

Para além disso, que nem toda a gente sabe, ele foi, como toda a gente sabe, um grande Advogado, que amava a sua profissão, dele se podendo dizer que nasceu para ser Advogado!

No exercício profissional, era denodado, esforçado, um trabalhador incansável, empenhado até ao fim na defesa dos seus clientes, mas pragmático, na procura dos melhores meios, dos melhores caminhos, das melhores soluções.

Na Ordem dos Advogados, depois de ter sido Presidente da Delegação de Abrantes , foi o primeiro Presidente do Conselho de Deontologia de Évora, quando foi criado, sendo depois eleito Vice-Presidente do Conselho Superior.

Duma probidade insuperável, como pessoa, como profissional e como cidadão, manteve uma colaboração regular na imprensa local e regional, ao longo, praticamente, dos últimos 50 anos, começando por ser Director do semanário Correio de Abrantes, que deu brado, no princípio dos anos 70 do século XX, antes do 25 de Abril.

Já na Política foi um desastre!

Além de não ter feitio para aquele jogo de cintura que qualquer político tem de ser capaz de fazer, ao contrário do  pragmatismo, do realismo, que era seu timbre na abordagem dos assuntos profissionais, na política, norteava-se por ideais puros, que defendia encarniçadamente, mas sem ser capaz de alcançar aquele equilíbrio que,  sem  sacrificar o essencial desses mesmos ideais,  tem de haver entre eles e a espantosa realidade das coisas!

Para a sua integridade moral, no plano cívico e político, qualquer transigência via-a sempre com a marca da traição.

Recordo o profissional, o Colega, mas sinto é a falta do Amigo!

Aqui há uns tempos, tivemos um desaguisado sério, e andámos “esquerdos” durante uns dois ou três meses… Passou entretanto o Verão, e, numa bela tarde de Setembro, encontrámos-nos, inesperadamente, de chofre. E foi como se nada tivesse havido!

Cruzámos-nos, pela última vez, na antevéspera da data fatídica. Eu tinha-lhe mandado a minuta duma acção contra uma seguradora que não quer pagar o rombo que uma condutora desastrada fez no Renault 16 que herdei do meu Pai, e que é dos muito poucos, senão o único, que ainda regularmente, aqui na zona, a pretexto de que o carro, que é uma relíquia, não vale a reparação… O costume!

A acção que preparei, para lhe poupar trabalho, porque ele era o meu Advogado, e eu era o Advogado dele, estava feita em termos jocosos, que censurou…

Mas a verdade é que, aqui há 40 anso, o Tribunal de Abrantes, ás vezes, parava, para lerem as nossas trocas de galhardetes, nos processos, que ele, num estilo de Advocacia mais vivo, à moda do Norte, onde se iniciara na profissão, nesses tempos idos muitas vezes provocava.

Vinha de almoçar, viu-me, parou o caro, e conversámos ali um minuto ou dois.

– Então, não gostou das minhas graçolas…

– Pois, oh Zé, evite isso, evite isso…

– E com quem é que eu aprendi?

E assim nos despedimos… Para sempre!

José Amaral, advogado

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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