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Sábado, Julho 31, 2021

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“O ‘voto estratégico’ e a defesa do bem comum”, por Hália Santos

Vamos lá falar sobre política!

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Tens mesmo a certeza de que queres falar sobre política?

Por que não? Não estou a propor falar de política caseira, digamos assim, mas tenho andado a pensar em alguns fenómenos a que estamos a assistir. Por exemplo, o que se está a passar em França. Os politólogos dizem que é normal os franceses estarem “de cabeça à roda”, depois de candidatos previsíveis terem ficado de fora e depois de ascensões imprevisíveis.

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É verdade! A poucos dias das eleições presidenciais francesas, ninguém arrisca cenários e as sondagens não parecem grande ajuda.

O interessante desta questão é que os cenários possíveis nesta primeira volta são tantos que é normal que as pessoas se baralhem. Porque uma coisa é votares no candidato que consideras melhor para o teu país, outra coisa é fazer-se uma leitura do panorama geral e tentar antecipar o que poderá acontecer, votando em função disso.

Em Portugal fala-se muitas vezes do ‘voto útil’. Tu estás a falar, de certa forma, de um ‘voto estratégico’.

Sim, podes ver as coisas assim. Até porque o que está em causa são sobretudo pessoas e as ideias que elas representam, muito mais do que o poder de captação de voto das grandes máquinas partidárias. De alguma forma, há vantagens nesta situação, mas ela também implica muita incerteza.

Havendo, como há, quatro candidatos com possibilidade de passar à segunda volta, os cenários que se colocam são imensos.

Pois, por isso é normal que as pessoas, sobretudo as que votam em consciência, estejam preocupadas com o seu voto. Talvez o ideal fosse que as pessoas votassem no seu candidato ou candidata preferido e ponto final. Mas a quantidade de informação constantemente disponibilizada torna este tipo de voto quase impossível.

Isso será uma espécie de literacia política e isso parece-me bom! Os eleitores começam a perceber a importância do seu voto e a utilizá-lo de forma pensada. Mas não sei se me agrada muito as pessoas utilizaram esta capacidade tão preciosa de uma forma calculada ou mesmo calculista. Pelo caminho podem ficar candidatos que seriam os mais desejados.

O jogo político tem destas coisas. São riscos que têm que se correr.

Mas os resultados são imprevisíveis.

Faz parte da vida. Ao longo das nossas vidas tomamos imensas decisões e temos que viver com elas. Jamais saberemos como seria se tivéssemos decidido num outro sentido.

No meio deste processo todo, o que me parece interessante é que as pessoas, incluindo nós, olhemos para estes fenómenos com muita atenção. Parece-me sobretudo importante que as pessoas percebam que o seu voto é mesmo importante. Se votam em quem realmente gostariam de ver eleito ou se votam de acordo com uma estratégia do mal menor, isso fica com cada um. Essa é também a riqueza da Democracia.

Pena é que ainda haja muita gente que não valorize a riqueza do voto…

Também tenho pensado muito nisso e não consigo perceber muito bem o que fazer em relação a isso. O passa palavra ainda é muito importante. Essa chamada de atenção deveria ser feita logo em casa de pois na escola, desde muito cedo.

Eu lembro-me bem a ansiedade que tinha em fazer 18, por duas grandes razões: para tirar a carta de condução e para poder votar. Votar era qualquer coisa que fazia parte da minha geração. Não digo que todos quiséssemos muito votar, mas havia uma consciência mais generalizada entre a juventude de há 20 anos sobre a importância de fazermos parte das grandes decisões do país.

Talvez o alheamento da generalidade das pessoas em relação à política tenha sobretudo a ver com a política partidária…

Também me parece. Aliás, o Festival Política que está a decorrer em Lisboa assenta precisamente na ideia de que tudo é política e de que a intervenção cívica deve ser cada vez mais estimulada. Tem que se trabalhar o envolvimento das pessoas na defesa da coisa pública.

Concordo, mas não resisto a fazer um paralelismo que talvez não seja bem conseguido, mas que ilustra bem o nosso grau de preocupação com as coisas: a participação das pessoas nas reuniões de condomínio. Nem para tratar das suas próprias coisas as pessoas vão, quanto mais mexer uma palha para o bem comum!

Vês?! Esse é que é o problema. O pensamento não pode ser esse. Assim não vamos a lado nenhum…

Infelizmente, eu acho que as pessoas só reagem quando lhes mexem no bolso. Gosto muito de pensar que tudo se deve fazer pela positiva, mas nem sempre é fácil.

Lembras-te de uma proposta recente de alguém sobre a recolha do lixo? Qualquer coisa como redução de taxas para quem fizer separação? Eu gostaria muito de ver o país inteiro a funcionar assim. Por exemplo, redução de impostos para quem votar.

Pronto, lá anda a nossa conversa às voltas! Isso era premiar quem exerce aquilo que é um direito, mas também uma obrigação. Não faz sentido. Faz sentido é que as pessoas pensem bem no caminho que se fez até chegarmos a este ponto em que podem decidir votar ou não votar… Se é com festivais de política, se é com campanhas publicitárias, se é com um plano nacional de política, como o plano nacional de leitura, não sei. Mas que qualquer coisa tem que ser feita, ai isso tem!

Talvez o resultado das eleições franceses chame a atenção dos portugueses para a importância do voto. Às vezes, só lá vamos com abanões.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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