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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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“O Triunfo das máquinas de café em cápsulas e o fim da Europa”, por Nelson Carvalho

Confesso que não tenho uma máquina de café em cápsulas.

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Um dia destes um amigo ofereceu-me um café tirado de uma máquina de tirar café em cápsulas. Este é melhor, mais cremoso, mais… e era. Ah, e eles oferecem a máquina, depois a gente só lhes compra as cápsulas. Ok. O negócio não é vender máquinas de café em cápsulas, é vender as cápsulas de café.

Mas não tenho uma máquina dessas. Para mim, desde jovem, o café não vale o valor do café. O café é um pretexto. Um pretexto para sair de casa, ir ao café, estar, conversar e debater os temas do dia, discutir os destinos do mundo, essas pequenas coisas da convivencialidade.

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Também não encaixo a ideia de ter cerveja em casa. Sobretudo imperial. Bem sei, hoje é corrente. Não sendo da tribo da cerveja, vou bebendo um par de imperiais no verão. Mas beber uma imperial é, para mim, uma coisa que se faz na esplanada do café, com este e aquele, a ver em que param as modas e a discutir o futebol, as miúdas que passam, a política e a situação no médio oriente, a política local e as últimas da tecnologia.

Mas volto ao café. As pessoas têm máquinas de café de cápsulas de café em casa e não vão ao café tomar café.

Faz-me lembrar um livrito (uma conferência) de Georges Steiner: “A Ideia da Europa”. No século XX aconteceram uma data de coisas más. Uma delas, com o nazismo, a tentativa de liquidar os judeus. Uma parte decisiva da tradição, da cultura, da inteligência, do pensamento  europeus. Hitler entendeu isso e quis liquidá-los em nome do arianismo e do novo povo “eleito”. Uma parte da Europa morreu aí. Depois matámos os cafés das nossas capitais, os cafés de Paris, Viena, Lisboa… morreram e nós deixámos. Indo a Paris, a Viena ou a Lisboa ainda podemos visitar o café onde Sartre ou os do Círculo de Viena ou Pessoa tomavam café, se sentavam, escreviam, pensavam, discutiam. Fervilhantes de criatividade, reflexão, pensamento, ideias, lógicas, linguagens… essas coisas que faziam uma cultura viva e da Europa um projeto cultural.

No século XX a Europa matou os Judeus e acabou com os cafés.  O fim da Europa começou aí.

Claro: tomamos café tirado nas nossas maravilhosas máquinas de café em cápsulas e participamos e discutimos nas redes sociais, no facebook. Pois. Matámos o “espaço público”, aquela coisa onde o que é “comum”, o que é “de todos”, o que é “desígnio” ou “projeto social” se elaboram quando liquidámos a convivencialidade e a substituimos pela exposição no Face. Privatizámos a vida quando nos retiramos da esplanada, quando matámos os nossos cafés.

Fui ao Chave, dois dedos de conversa, as pessoas não saem, tomam café em casa, cada um tem a sua máquina da café em cápsulas, e agora também já há máquinas caseiras de tirar imperial, acabei de chegar, dei um salto ao Facebook, vi a exposição que por lá vai, expus-me também um pouco, e lembrei-me de Pessoa e de Sartre e do Círculo de Viena e dos seus cafés, mortos, em cuja morte a Europa como cultura começou a morrer.

Isto é só para explicar a razão de não ter uma máquina de café em cápsulas.

Ex-presidente da Câmara Municipal de Abrantes e ex-presidente da Assembleia Municipal de Abrantes, é o atual presidente da direção do Centro de Recuperação e Integração de Abrantes (CRIA).
Escreve no mediotejo.net às sextas-feiras

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2 COMENTÁRIOS

  1. A resposta está em inovar, já existem respostas a isso, como por exemplo traga a sua cápsula que temos a(s) máquina(s), aproveite, prove e acompanhe com um doce tradicional, ou o croquete de laranja e gengibre da tia Alice. Temos internet livre e ao comentário mais sugestivo no portal do nosso café, tem um prémio, etc.
    Temos de reagir e aproveitar o que o mercado das tecnologias actualmente nos oferece, não podemos parar.

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