“O Telégrafo da Barquinha (Atalaya)”, por Fernando Freire

O Telégrafo da Barquinha (Atalaya)

Com a introdução de uma tecnologia de comunicações própria que permitia comunicar em rede e à distância deixamos para trás, no início do Sex. XIX, os meios medievais de comunicação. A rede telegráfica, então criada, tinha uma enorme vantagem estratégica e permitiu, ao tempo, a ligação a localidades decisivas para a defesa do Reino de Portugal. O telegrafista da estação de Lisboa recebia certa mensagem em números e transmitia-a através do telégrafo, para a estação subsequente, e assim seguidamente, de estação para estação até chegar ao local de destino. O destinatário era o único detentor da chave de descodificação da mensagem.

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O telégrafo, no contexto bélico que vivíamos, ao tempo das invasões francesas, era um sistema de comunicação rápido à distância e foi um elemento fundamental para a estratégia e para as operações de guerra pois quem dominasse a informação, tal como hoje, tinha meio caminho andando para a vitória.

Em Junho de 1810 dá-se a terceira invasão Francesa. O invasor empregava o Telégrafo de Chappe e o aliado inglês empregava o Telégrafo de Balões ou Telégrafo de Bolas, usado entre as fortificações das Linhas de Torres e os seus flancos laterais. O português Francisco António Ciera, Diretor dos Telégrafos, inspirado nos sistemas que viu e/ou estudou, inventou o Telégrafo Óptico Português, de menor alcance mas mais económico, mais eficaz e que dava maior celeridade às comunicações.

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Começavam, nesse ano de 1810, as primeiras “obras telegráficas” na nossa região. O marechal de campo José Lopes de Sousa, a partir de Abrantes, comunica a Dom Miguel de Forjaz, Secretário de Estado da Guerra, o seguinte: “Tenho a honra de informar V. Exª., que se tem trabalhado na obra do Telégrafo (de Abrantes), e que posto senão ache completa toda a obra pelo que respeita a barraca e sua escada; o Telégrafo já poderia trabalhar; a corresponder-se com o da Barquinha cazo que aquelle de achasse pronto, mas não se avista ainda no lugar em que se pode collocar […] Abrantes, 23 de Junho de 1810”.

Guerra peninsular

No dia seguinte, a 24 de Junho de 1810, o mesmo marechal de campo informa: “Hontem participei a V. Exª que não se avistava ainda daqui o trabalhar-se na colocação do Telégrafo no lugar da Barquinha, mas na mesma tarde já se divizava este trabalho, e o que hoje mais se verifica. Deos Guarde V. Exª. Abrantes, 24 de Junho de 1810”.

Assim, temos por certa a data da construção do telégrafo da Barquinha (Atalaya), o dia 24 de Junho de 1810 (2).

Matriz predial

No boletim do telégrafo central de Lisboa do dia 13 de Abril de 1812 (3), consta que pelas 9 horas e ½ da manhã, é comunicado do posto da Barquinha (Atalaya): “ Hontem de tarde chegaram aqui 2 Companhias de Brigada da Cavalaria Inglesa”.

No mesmo boletim há uma mensagem enviada às 6 horas da tarde, agora do telégrafo de Abrantes: “Participar a Marechal Beresford, q. no dia 11 do corrente vierão huns 5000 homens de Cavallaria Inimiga a Alpedrinha, Sobreira Formosa, Fundão saquear […] Governador”.

Pelos conteúdos das mensagens podemos perceber a importância do posto da Barquinha na Guerra Peninsular, essencialmente o seu interesse estratégico. Por aqui passavam todas as informações da Nação resultantes da ligação à linha telegráfica das Beiras: Lisboa, Atalaya, Abrantes, C.Branco, Elvas, e da ligação à linha telegráfica: Lisboa, Atalaya, Tomar, Ceiras, Zambujal, Vendas D.Maria, S.Sens, Almalaguer e Coimbra.

O telégrafo da Barquinha (Atalaya) ainda estava a funcionar em 1832 e era parte da rede: Castelo de S. Jorge, Penha França, Monte Serves, Monte Gordo, Boavista, Santarém, Alviela, Golegã, Atalaya, Tomar, Ceiros, Alvaiázere, Monte Ver, Volta Monte, Coimbra, Agrello, Buçaco, Boialvo, Montedo, Vila Nova Juzos, A. Branco, S.º Estêvão, Morado, S.º Ovídeo e Porto (4).

Para disputa do trono em Portugal digladiaram os irmãos D. Pedro e D. Miguel. Um com uma visão liberal de governação e o outro determinado em manter os direitos absolutos da monarquia, razões para cada um reunir um conjunto de seguidores prontos a dirimir argumentos recorrendo ao uso de armas.

Na sequência das Guerras Liberais, ocorridas entre 1828 e 1834, verifica-se a destruição do telégrafo da Barquinha. Tal tarefa coube à guerrilha constitucional, comandada pelo coronel do exército espanhol, D. Manuel Martini.

As revoltas militares mantinham o país num estado de guerra permanente, guerrilheiros organizados e comandados por D. Manuel Martinini saem da Vila de Punhete (Constância), local onde morava, e atacam Tomar na noite de 24 para 25 de junho de 1833.

No seu relatório de 13 de agosto de 1834 conta que “No dia 24 de Junho de 1833, dei o grito da Liberdade, acclamei o Governo Legitimo, fiz nomear outras Authoridades, soltei os prezos políticos, desarmei a Guerrilha do Corregedor, e hum forte Destacamento de Realistas de Abrantes, amparei-me de 400 armas; e de tarde … marchei para a Barquinha; ao passar destrui o Thelegrafo da Barquinha (Atalaya); na madrugada de 26 aprizionei hum barco que de Lisboa hia para Abrantes com 500 fardamentos completos, armamento, correame, 5 cornetas, e 20 praças da sua escolta.” (5).

O Telégrafo da Barquinha (Atalaya) foi construído em 24 de Junho de 1810 e destruído em 24 de Junho de 1833, precisamente 23 anos depois. Todavia, ainda no ano de 2020 os registos matriciais o mantêm vivo !

(1) Almeida, João (General), Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses, Vol II, Edição do Autor, 1946.

(2) Telégrafo da Barquinha concluído – Arquivo Histórico Militar (AHM)-DIV-1-14-269-50.

(3) Boletim do Telégrafo Central com referências às comunicações do Telégrafo de Abrantes – AHM-DIV-1-14-180-25.

(4) AHM/DIV 3-32-5-24.

(5) Ventura, António: As guerras liberais em Portalegre: Junho-Julho de 1833, Portalegre, Assembleia Distrital, 1982.

 

AGRADECIMENTO, a José Manuel d’Oliveira Vieira, colaborador do Jornal de Alferrarede, que me cedeu algumas fontes sobre o telégrafo da Barquinha (Atalaya).

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