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Sexta-feira, Maio 14, 2021

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“O sossego de estar quase incontactável”, por Hália Santos

Por circunstâncias que agora e aqui não interessam nada, tenho andado a reviver experiências que pensava nunca voltar a ter… Coisas tão simples quanto chegar a casa às nove da noite e perceber que já perdi o noticiário.

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Mas já ninguém perde meia hora de noticiário. Podes sempre voltar atrás!

Quando tens serviços de televisão que o permitem! Por isso é que dei por mim a pensar nesta ideia que às vezes me assalta: partimos do princípio de que todas as pessoas têm acesso ao tudo o que nós também temos. Achamos estranho que haja pessoas que não têm televisão por cabo ou que alguém ainda ande a carregar botijas de gás. Mas, sem muito esforço, rapidamente percebemos que ainda existe muito gente a viver exatamente da mesma maneira que se vivia há 20 anos ou mais.

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É verdade. Muitas vezes nem nos passa pela cabeça que a forma como a vida de muitos de nós mudou enquanto a vida dos outros estagnou.

Não sei bem se se trata de estagnar. Sabes, fiquei sem telemóvel há quase uma semana. Ainda não consegui arranjar o aparelho e o cartão não dá para outros telemóveis. A minha primeira preocupação foi de apreensão. E agora? Como é que as pessoas vão falar comigo? Ainda por cima numa altura em que algumas pessoas precisam mesmo de me ligar para saber novidades sobre um certo assunto.

Arranjaste logo outro telefone, não?

Por acaso até tinha outro, que raramente usava. Passei a usá-lo, mas não dei o número a ninguém fora do meu círculo muitíssimo restrito de pessoas. Comecei a gostar desta ideia de não estar contactável. O sossego é tal que só quem ainda se lembra do tempo em que dependíamos exclusivamente do telefone fixo é que consegue apreciar. Acredita: está a saber-me tão bem…

Mas aposto que continuas a usar o mail e o facebook…

Por acaso continuo, mas da mesma forma que fazia até ficar incontactável por telefone. E com menos frequência, porque o telemóvel que tenho agora não tem acesso à internet.

E assim se comprova que não temos que estar sempre contactáveis para toda a gente, a toda a hora. Quando tem que ser, as novidades chegam de qualquer forma. Como chegavam antes.

Ainda me lembro do dia em que o meu pai teve que fazer cerca de 60 quilómetros (e outros tantos para regressar), esperar por mim à porta da escola, para me dizer que a minha avó tinha morrido. Ainda me lembro de viajar para outros continentes e de dizer que só telefonava quando chegasse. Não havia esta ansiedade por saber dos outros. Vivia-se, nesse aspeto, com mais tranquilidade.

Achas que, de vez em quando, deveríamos fazer uns retrocessos? Voltar atrás, para viver de forma diferente, apreciando outras coisas? Fazendo outras opções? Hierarquizando as coisas de acordo com novas (ou antigas) perspetivas?

Sim, claro! Mas neste meu caso concreto, trata-se apenas de uma fase em que, por circunstâncias que não são para aqui chamadas, tenho uma televisão com os quatro canais generalistas e um telefone pré-histórico com um número que só dei a seis pessoas.

São coincidências que me fizeram voltar a respirar de forma diferente. Até podia ver televisão na internet e mandar sms online. Mas agora não me apetece. Estou tão bem assim. Amanhã pode passar, mas agora estou a gostar de estar assim, mesmo que a programação não me agrade e que pressinta que pode haver alguém preocupado comigo por ter o telefone sempre desligado.

Assim sendo, aproveita!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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