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Sábado, Setembro 18, 2021

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“O sofá da discriminação”, por Helena Pinto

É conhecida a situação que sentou Ursula Von der Leyen num sofá, deixando as cadeiras institucionais para o presidente do Conselho Europeu Charles Michel e para o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

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Tratava-se de uma reunião que reunia 3 partes: o presidente da Turquia, o presidente do Conselho Europeu e a presidente da Comissão Europeia. Uma parte não foi tratada como igual. Essa parte é protagonizada por uma mulher, que foi subalternizada, colocada ao “lado”.

Ursula é lapidar quando questionada sobre o que teria acontecido caso fosse um homem: “o que teria acontecido se usasse fato e gravata? Pelas fotos de anteriores reuniões no palácio presidencial de Ancara, nunca se notou falta de cadeiras. Mas também não vi mulheres nessas fotografias, acrescentou.”

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Há quem lhe chame um “incidente diplomático”. Eu acho que é muito mais do que isso. Incidente diplomático tinha sido caso o presidente do Conselho Europeu se tivesse levantado e sentado no sofá. Isso sim, mais do que incidente diplomático era uma lição a Erdogan e uma afirmação dos princípios que a União Europeia tanto diz defender, neste caso a igualdade de género.

Aliás, considero as justificações dadas por Charles Michel absolutamente deploráveis – não fez nada para não causar um “incidente político que seria ainda mais grave”. Pois é, é sempre assim, há sempre alguma coisa mais importante, mais grave, mais prioritária,…. Também estamos habituadas a estas desculpas esfarrapadas que apenas mantém as situações de discriminação, aliás, são cúmplices delas.

Ursula Von der Leyen, esteve bem ao reagir, ao falar sobre esta situação, ao assumir que foi discriminada e ao dizer que ela ainda pode falar, mas há milhares, milhões de mulheres condenadas ao silêncio.

“Senti-me sozinha”, a crítica tem destinatário directo. Mas, como ela reconhece, não está sozinha na discriminação. A lição é também a velha frase: “pode acontecer a qualquer uma”.

Enquanto se permitir atitudes como a do presidente da Turquia bem podemos ter inscrito nos princípios as mais bonitas frases anti-discriminatórias mas o que é verdade é que não estamos a mudar nada, nem as mentalidades, nem as práticas.

Este triste episódio passado ao mais alto nível na política evidencia que há muita coisa ainda escondida e mostra como ainda há tanto caminho para andar, tanta coisa para mudar e se justifica, todos os dias, a afirmação do feminismo, aquela “ideia radical de que as mulheres são gente”.

Neste mesmo período ficámos a saber que a Turquia se vai retirar da Convenção de Istambul (para a prevenção e combate à violência contra as mulheres e crianças), que assinala este ano a sua primeira década e constitui um compromisso e documento fundamentais para a qualidade e eficácia das políticas nos países que a subscrevem.

Ursula Von der Leyen confirma que há estados membros da União Europeia que ainda não assinaram a Convenção e outros que estão a pensar abandoná-la. Este dado é extremamente preocupante e junta-se aos outros sinais de racismo, xenofobia, homofobia e apologia do fascismo que vemos em vários pontos da Europa e do Mundo.

Quem não entender que é preciso travar este retrocesso e, por omissão o permite, presta um péssimo serviço à democracia. Veja-se, por exemplo, a atitude de PS e PSD de Torres Novas que se recusam a assumir uma posição condenatória da perseguição e do ódio que são vítimas as pessoas LGBTQI na Europa, não se juntando à tomada de posição do Parlamento Europeu, Assembleia da República e cada vez mais Municípios.

Agora foi a Presidente da Comissão Europeia, ontem e anteontem foram muitas, milhões, anónimas. Hoje e amanhã vão-se repetir as discriminações. Há sempre alguma coisa que se pode fazer. No mínimo quebrar o silêncio.

Que nenhuma fique sozinha!

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Tem 58 anos e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda de 2005 a 2015. É atualmente Vereadora na Câmara de Torres Novas.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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