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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022
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“O sofá da discriminação”, por Helena Pinto

É conhecida a situação que sentou Ursula Von der Leyen num sofá, deixando as cadeiras institucionais para o presidente do Conselho Europeu Charles Michel e para o Presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

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Tratava-se de uma reunião que reunia 3 partes: o presidente da Turquia, o presidente do Conselho Europeu e a presidente da Comissão Europeia. Uma parte não foi tratada como igual. Essa parte é protagonizada por uma mulher, que foi subalternizada, colocada ao “lado”.

Ursula é lapidar quando questionada sobre o que teria acontecido caso fosse um homem: “o que teria acontecido se usasse fato e gravata? Pelas fotos de anteriores reuniões no palácio presidencial de Ancara, nunca se notou falta de cadeiras. Mas também não vi mulheres nessas fotografias, acrescentou.”

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Há quem lhe chame um “incidente diplomático”. Eu acho que é muito mais do que isso. Incidente diplomático tinha sido caso o presidente do Conselho Europeu se tivesse levantado e sentado no sofá. Isso sim, mais do que incidente diplomático era uma lição a Erdogan e uma afirmação dos princípios que a União Europeia tanto diz defender, neste caso a igualdade de género.

Aliás, considero as justificações dadas por Charles Michel absolutamente deploráveis – não fez nada para não causar um “incidente político que seria ainda mais grave”. Pois é, é sempre assim, há sempre alguma coisa mais importante, mais grave, mais prioritária,…. Também estamos habituadas a estas desculpas esfarrapadas que apenas mantém as situações de discriminação, aliás, são cúmplices delas.

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Ursula Von der Leyen, esteve bem ao reagir, ao falar sobre esta situação, ao assumir que foi discriminada e ao dizer que ela ainda pode falar, mas há milhares, milhões de mulheres condenadas ao silêncio.

“Senti-me sozinha”, a crítica tem destinatário directo. Mas, como ela reconhece, não está sozinha na discriminação. A lição é também a velha frase: “pode acontecer a qualquer uma”.

Enquanto se permitir atitudes como a do presidente da Turquia bem podemos ter inscrito nos princípios as mais bonitas frases anti-discriminatórias mas o que é verdade é que não estamos a mudar nada, nem as mentalidades, nem as práticas.

Este triste episódio passado ao mais alto nível na política evidencia que há muita coisa ainda escondida e mostra como ainda há tanto caminho para andar, tanta coisa para mudar e se justifica, todos os dias, a afirmação do feminismo, aquela “ideia radical de que as mulheres são gente”.

Neste mesmo período ficámos a saber que a Turquia se vai retirar da Convenção de Istambul (para a prevenção e combate à violência contra as mulheres e crianças), que assinala este ano a sua primeira década e constitui um compromisso e documento fundamentais para a qualidade e eficácia das políticas nos países que a subscrevem.

Ursula Von der Leyen confirma que há estados membros da União Europeia que ainda não assinaram a Convenção e outros que estão a pensar abandoná-la. Este dado é extremamente preocupante e junta-se aos outros sinais de racismo, xenofobia, homofobia e apologia do fascismo que vemos em vários pontos da Europa e do Mundo.

Quem não entender que é preciso travar este retrocesso e, por omissão o permite, presta um péssimo serviço à democracia. Veja-se, por exemplo, a atitude de PS e PSD de Torres Novas que se recusam a assumir uma posição condenatória da perseguição e do ódio que são vítimas as pessoas LGBTQI na Europa, não se juntando à tomada de posição do Parlamento Europeu, Assembleia da República e cada vez mais Municípios.

Agora foi a Presidente da Comissão Europeia, ontem e anteontem foram muitas, milhões, anónimas. Hoje e amanhã vão-se repetir as discriminações. Há sempre alguma coisa que se pode fazer. No mínimo quebrar o silêncio.

Que nenhuma fique sozinha!

Helena Pinto, vive na Meia Via, concelho de Torres Novas. Nasceu em 1959 e é Animadora Social. Foi deputada à Assembleia da República, pelo Bloco de Esquerda, de 2005 a 2015. Foi vereadora na Câmara de Torres Novas entre 2013 e 2021. Integrou a Comissão Independente para a Descentralização (2018-2019) criada pela Lei 58/2018 e nomeada pelo Presidente da Assembleia da República. Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação Feministas em Movimento.
Escreve no mediotejo.net às quartas-feiras.

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