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“O sítio onde mora a felicidade”, por Berta Silva Lopes

Este ano não há Feira dos Santos, foi anunciado há dias. Para quem nunca lá foi pode ser nota de pouca monta, mas para todos aqueles que cresceram com a tradição de ir à vila em Dia de Todos os Santos, mesmo quando o feriado lhes foi roubado, a notícia é triste. A Feira dos Santos é o Natal de Mação: a casa enche-se de gente, barulho e vida, cheira a broas de mel e nozes, fazem-se as primeiras filhoses e doce de abóbora, percorrem-se as adegas dos amigos, enchem-se os copos de jeropiga, espreitam-se as oliveiras, em calhando acende-se o fogo na lareira e improvisa-se um magusto.

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Quem vive longe regressa sempre, encurtam-se todas as lonjuras, põe-se as vidas em dia e arrumam-se as saudades. As conversas não têm pressa, nem as histórias, certas de que todas terão a sua vez. Não se temem as filas nem os ajuntamentos, tão pouco os beijos e os abraços. A Feira dos Santos é o Natal dos maçanicos; só que este ano, raça da pandemia, está o mundo do avesso. 

A bicentenária Feira dos Santos de Mação não se realizará em 2020, devido à pandemia de covid-19. Fotografia: mediotjo.net

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Um dia haverá, talvez, em que tudo possa voltar a ser como antes, menos nós, porque não seremos já as mesmas pessoas, seremos antes a soma dos dias passados e dos sonhos adiados, a conta feita à margem do tempo e da liberdade.

Um dia haverá, acredito eu, em que lamentaremos, mais do que esta suspensão do mundo, os afetos roubados, e irremediavelmente perdidos, os abraços protelados, a míngua de ternura. E é isso, afinal, que nos vai matando já aos poucos, sorrateiramente, espoliando-nos o amor.

Espoliar: tirar ilegitimamente.

Como aceitar a ausência dos avós, dos filhos, dos netos, a privação do encontro e da partilha, a falta do sorriso e do cafuné, tudo em nome do medo, se é o amor que nos salva? O amor é vida, deve ser vivido sem reservas, sem medos, não mata. Não que esta pandemia não nos mereça respeito, pelo contrário, vivemos tempos que exigem coragem e resiliência, mas, vá lá, é preciso não hipotecar a felicidade. 

Hipotecar: confiscar. 

É urgente a ternura. É urgente mimar o coração. Nem que seja apenas uma fração de segundo. É urgente o carinho, o cuidado. É urgente não abandonar. Entre mortos, feridos, infetados, deprimidos e resmungões (eu), alguém se há-de salvar. É urgente resistir. 

O medo atiça e seduz o pânico. O medo intimida a esperança. O medo é um ladrão de abraços que cativa a felicidade, um sacana que transformou estes dias em algo diferente de tudo o que já vivemos, um filho da mãe miserável e infeliz a quem não se pode dar confiança. O medo paralisa-nos.

Pensava nisso ainda ontem, acabada de chegar do Norte, justamente da região mais afetada pela pandemia neste momento, onde passei vários dias a acompanhar o jornalista e escritor Mário Zambujal. Fui em trabalho, para uma justa e merecidíssima homenagem à vida e obra do eterno bom malandro. 

Não pensem que perdi o fio à meada, não é o caso. Além do privilégio enorme que foi acompanhá-lo, o festival literário Escritaria demonstrou que é possível fazer acontecer, dar (e receber) em segurança. Para o autor, com 84 anos e mais um bocadinho, não ir nunca foi uma hipótese. Que lição de vida, e tanta razão: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. É aí que vive a felicidade.

PS – Não perdes pela demora, Feira dos Santos de Mação 2021.

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Berta Silva Lopes
Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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