“O Síndrome de Perséfona”, por Aurélio Lopes

A condição feminina, nestes últimos mil e quinhentos anos que decorrem da cristianização do Ocidente Peninsular, constitui, inegavelmente, a consequência mais gravosa da implantação coerciva do novo culto. Assente em pressupostos doutrinários patriarcais, o Cristianismo vai forçar a desvalorização da mulher, o que há de levar à sua menorização e estigmatização e erradicá-la, entre outras coisas, das funções institucionais com o sagrado relacionadas.

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É evidente que estamos já longe dos primeiros séculos do cristianismo em que, os assim chamados “padres da Igreja” (Jerónimo, Cipriano, Gregório de Nisse, Tertuliano, Gregório Magno, Justino Mártir, Agostinho o próprio Paulo de Tarso) abominarão a mulher e a maternidade.

Em que Jerónimo chegará a dizer que a maternidade dá à mulher um “aspeto repugnante”. E Gregório de Nisse pretende divinizar as virgens e proclama: “felizes as estéreis”. Em que Gregório Magno defenderá, liminarmente, a negação da comunhão às mulheres parturientes.  E Cipriano chega a aconselhar às mulheres que se “unam entre si”! Em que Orígenes, num gesto incontido de rejeição dos malfadados prazeres da carne, se castrará a si próprio! Foi um longo caminho.

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A relevância feminina que se percebe nos cultos e divindades indígenas da Proto-História (no território que é hoje português) irá ser bruscamente coartada e interditada. E, embora essencial à procriação, a mulher irá ser submetida a imperativos legais que a veem como alguém leviano, lascivo, falso e, portanto, pouco fiável, justificando, assim, todos e mais alguns controlos e disciplinações a cargo do homem e da Sociedade e que se manterão por inumeráveis séculos.

No que ao transcendental diz respeito, à mulher restar-lhe-á, portanto, (dentro daquilo a que podemos chamar a sua especial propensão para o sagrado) o natural predomínio na sacralidade popular: não só do ciclo de vida (nascimento, saúde e morte), como na relação direta com a esfera do divino; nas promessas, “ensalmos” e sortilégios e no uso de fórmulas mágicas e rituais míticos. Que manteve até hoje.

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Na religião propriamente dita, a mesma há de sustentar uma relevância oficiosa que se exprime por um caráter pragmático e operativo no respetivo processo devocional e dos quais resultará com o tempo um irresistível incremento das divindades femininas, especialmente Maria, levando-a (em consonância ou em oposição clerical) a ascender até ao nível atual em que constitui, sem qualquer dúvida, a divindade mais importante do cristianismo.

Sobre este processo milenar, causas e razões, incide a investigação que ultimamente venho desenvolvendo. Trabalho de algum fôlego, que a pandemia tem feito adiar um pouco, mas se encontra, agora, em fase final.  O percurso daquilo a que podemos chamar a condição social feminina. E da sua valência transcendental, diacrónica e abrangente, numa perspetiva histórico-antropológica. Sem preconceitos mas também sem militâncias desagravatórias, apenas resultante da aplicação de uma análise metodológica a uma realidade marcadamente misógina e injusta; ainda hoje existente, embora transformada.

Mas da qual, paradoxalmente, hão de resultar imperativos de género que estão a transfigurar, por força dos números, uma cultualidade doutrinária na sua origem fortemente patriarcal, de que o marianismo constitui paradigma cultual e, Fátima, expressão hierofânica focal e modelar.

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