Segunda-feira, Dezembro 6, 2021

“O sentir da razão”, por Joana Ramos

Há uns dias, em conversa com o meu pai, pessoa ponderada em várias matérias, dizia-me ele que não entendia como é que eu, e outros tantos professores contratados há mais de vinte anos, ainda nos encontrávamos nessa situação.

- Publicidade -

Justifiquei eu, sem grande convicção, que é assim há tantos anos e que nos sentimos tão gratos por ter trabalho, que já nem pensamos muito nisso. Ainda falámos sobre luta sindical (ele, que foi patrão anos a fio até se reformar) e sobre marcar posições, mas há muito que acho que as greves e manifestações não servem senão os governos, que encaixam alguns milhares de euros e cuja avaliação da perda é muito relativa, sobretudo quando as greves se marcam para sextas-feiras.

Os governos vão pensando (e bem): “Isto só piora a perceção social dos funcionários públicos, em especial dos professores.” Por isso o balanço acaba por ser negativo para nós. Apesar do dia extra de fim de semana, o dinheiro é mais curto no final do mês e nem dá para o almoço fora com a família, no fim de semana prolongado.

- Publicidade -

Feita a introdução, vamos à história.

Dia de greve. Chego à escola com intenção de trabalhar normalmente. Deixo uma frase na sala de professores, em conversa casual, sobre como os professores não ganham nada com greves à sexta-feira. Tudo acena com a cabeça que sim, mas alguns olham-me pelo canto do olho, com ar reprovador. Estamos ali todos, aparentemente, para trabalhar.

Não tenho nem metade dos alunos nas turmas, o que pressupõe um dia curricular perdido (não vale a pena inventar, o que lecionasse hoje teria de repetir para os que não estão) e chego mesmo a entrar na sala de aulas com a primeira turma, convencida que greves, só na escola, mas sem dar aulas.

Converso com eles sobre o sentido e a utilidade das greves, sobre a mensagem que se deve passar com a greve. Conversamos um pouco mais sobre outras coisas, sobre alterações climáticas, sobre maus tratos a animais, sobre as coisas deles. Coisas que não temos tempo de falar nos outros dias, tal é o corre-corre dos papéis e demais invenções que meia dúzia de iluminados “cozinham” nos gabinetes, muitos já há anos sem entrar numa escola.

Reflito. Termino a aula sem escrever o sumário no programa informático e vou informar a Secretaria que estou de greve. Dirijo-me à sala de professores e sento-me ao computador a trabalhar… para a escola. Isso garante-me que vou ter o fim de semana só para mim.

Sei que uma boa parte dos professores que fizeram greve e estão em casa, também estão a trabalhar para a escola. Mas não estão na escola. Ninguém sabe o que eles pensam. Ninguém sabe o que eu penso, mesmo aqui na escola a trabalhar. Os sindicatos também não sabem o que eu penso.

Sabem que estamos longe de casa e que estamos contratados há mais de vinte anos. E que somos muitos. Não sei se sabem que somos os que têm a experiência aliada à maturidade. Os que ainda têm a paciência ligada à assertividade. Os que, apesar das inovações, transformações e desafios dos últimos tempos, ainda sentem entusiasmo na maioria dos dias.

A greve na escola que decidi fazer hoje, por via de toda a reflexão que fiz em alguns minutos, não vai dar frutos. Eu estou apenas a engrossar a lista dos aderentes à greve sem ser sindicalizada. Alguns chamar-me-ão lírica, outros burra por ter perdido um dia de salário e me ter deslocado à escola. Mas no fim do dia fico bem com a minha consciência. Isso vale para mim e para mais ninguém.

Minto. Acho que também valeu aos meus alunos. Acabei por vir cá fora comunicar-lhes a minha decisão e decidi dar um passeio pelo exterior da escola com eles. Mostraram-me o canil do cão, os sítios onde brincam, a estufa que fizeram no ano passado, o local onde descontraem, as árvores que plantaram e o sítio onde os mais velhos “dão beijos”.

Nunca teria dado esta oportunidade a mim mesma, com esta informalidade, de outra maneira. Iria apenas fazer o que tinha planeado para as aulas. Não teria ganho tanto.

A escola onde estou este ano é tão gira, tão oldschool, com árvores grandes, muitas folhas no chão, cantos e recantos verdes. Sem aquele aspeto assético que as escolas modernas hoje todas têm. Que parecem hospitais ou fundações.

Nunca vou esquecer este passeio tão bonito com os meus alunos em que conversámos sobre coisas diferentes e nos olhámos de outra maneira.

Não sei onde vou dar aulas para o ano. Este ano estou aqui e hoje foi um dia especial. Aproximei-me dos meus alunos de uma forma mais significativa. Vou colher disso frutos.

Da greve não sei se vou colher frutos. Mas fi-la em consciência. E em coerência com quem eu sou hoje.

Joana Ramos

Professora de matemática, mãe de dois adolescentes, deputada municipal e intermunicipal, com o bichinho da rádio e da escrita (embora adormecidos). Vivo no sardoal mas sou beirã e já corri o país. Reflexiva, emotiva e idealista. Vou perdendo as ilusões mas mantenho os princípios.

- Publicidade -
- Publicidade -

1 COMENTÁRIO

  1. Boa, Joana. Sempre, que oportuno, gosto de ler as tuas prosas. Delicio me com as tuas palavras e, mais ainda, com os temas que debates. Gostei, uma vez mais,deste tema, tao em moda e muito recurrente na vida profissional portuguesa. Parabens e tenho muito orgulho em ti, como cidadao portugues e mais ainda por ser teu tio.

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome