“O senhor Artur das bombas”, por Vera Dias António

O Sr. Artur deixou-nos esta semana. Quando falei com ele, há cerca de quatro meses, já tinha muitas dores. Apareceu-lhe um quisto na cara, foi operado, nunca mais ficou bem, as dores… Faleceu esta semana. Fica a nossa conversa em sua memória.

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Não sei se já vos aconteceu, mas tem sido uma constante quando converso e conheço melhor os outros, aquela sensação de que não sabemos nada de ninguém, vamos fazendo uns quadros abstratos sobre os outros nas nossas cabeças e depois não têm sentido nenhum pois efetivamente “só quem está no convento é que sabe o que está lá dentro”.

Ora bem, nas minhas memórias pessoais, desde miúda, lembro-me do Sr. Artur das Bombas, sempre assim, o Sr. Artur das Bombas porque era dali que o conhecia, de quando as bombas de gasolina ainda eram no cimo da Vila e trabalhavam lá o Sr. Artur e o Sr. Américo.

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Isto para dizer que o Sr. Artur, aos meus olhos, tinha vivido sempre em Mação, mas não. Nada disso, havia toda uma outra vida que desconhecia.

Artur nasceu na Rua Nova, eram 9 irmãos mas 1 morreu ainda bebé. Estão 4 vivos, 4 faleceram entretanto. Fez a 4.ª classe e refere que foram todos à escola. O pai de Artur era da zona de Alcanena e veio trabalhar para Mação na Fábrica das Peles junto à Ponte no fundo da Vila, do Sr. Clemente Aleixo.

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Com 14 anos Artur foi dar serventia na construção das casas da Fábrica Mirrado, aquelas casas na Rua das Fábricas onde ficavam depois a morar os funcionários da Fábrica que vinham de fora, muitos da zona da Covilhã. Ainda me lembro de algumas famílias que aí moraram, nas casas que Artur ajudou a construir com 14 anos, onde hoje já não mora ninguém.

Abriu entretanto a Fábrica do Álvaro Catarino e Artur esperou-o e pediu-lhe trabalho mas não disse nada em casa pois os pais eram muito amigos do Sr. Mirrado e não iriam aceitar. Que foi exatamente o que aconteceu. Logo no primeiro dia de trabalho quando chegou a casa foi recebido pelo pai e pelo cacete com que lhe prometia uma sova, “mas só prometia”, refere, e levou um valente ralhete que não tinha nada que sair da Mirrado.

Continuou no novo emprego onde faziam as Cintas de Mação, que eram faixas compridas pretas e vermelhas para colocar à volta da cintura e segurar as calças, em vez de um cinto. Faziam também belas mantas, “muito quentes”, refere. A sua primeira função era apanhar os fios que se partiam e voltavam a liga-los, para tecer. Depois ainda foi tecer.

A fuga

Artur não gostava muito das obrigações e da vida que levava cá, sentia-se pássaro preso em gaiola, parece-me, um pai autoritário, uma vida pobre, horizontes curtos.

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Com 17 anos, em 1947, Artur fugiu. Mas quando diz que fugiu, foi mesmo fugir, pela calada, de saco às costas, sem prestar contas a ninguém, a não ser à sua Peta, que namoriscava, mas o namoro continuou à distância.

Foi ter a casa de uma tia a Lisboa, os pais só souberam dele depois de já lá estar e começou a trabalhar na Companhia do Gás e Eletricidade.

Saiu da Companhia para cumprir o serviço militar, em Lisboa, entre 1951 e 1953. Quando saiu da tropa foi trabalhar com um Sr. Óscar, que não esquece e, um ano depois, quando resolveu partir para Angola, foi o Sr. Óscar que lhe recomendou que usasse sempre um capacete na cabeça pois tinha lá estado e explicou-lhe que havia as cobras cuspideiras e as cobras voadoras, que saltavam e picavam a cabeça das pessoas.

Esteve em Angola de 1953 a 1974. Primeiro foi para casa de uma irmã e do cunhado, que já lá estavam e ficou a trabalhar com eles. Depois foi trabalhar para uma Pescaria onde descarregava 11 barcos por dia.

Entretanto a sua Peta, de Mação, conseguiu arranjar-lhe um trabalho no Estado, lá, pois foi falar ao Sr. João Heitor Moreira Mirrado, que era da Rua Nova, mas tinha estado em Angola como Diretor dos Serviços de Agricultura e Florestas e ele lá falou com os seus contactos.

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Artur foi trabalhar, então, como Capataz Geral dos Serviços de Agricultura. Era responsável de um armazém e fazia a distribuição de sementes para o povo semear e acompanhava, depois, as plantações, cada Capataz tinha uma área de trabalho.

Uma noite apareceram no armazém de que tomava conta 3 camionetas cheias de homens que iam para a África do Sul. Deram-lhe guarida e comida e os homens chamaram Artur para ir com eles, começar outra vida que ali havia algo de pouco bom no ar. Artur não foi, não podia ir e deixar a família desprotegida nem deixava as suas obrigações dessa forma. Não foi. Diz que se calhar devia ter ido, mas não foi.

O regresso

Em 1974 veio nova fuga. Desta vez involuntária, por obrigação. Desta saiu de onde não esperava sair nunca mais.

Preparou-se o regresso a Portugal. Em Luanda, quando foram para apanhar o avião viram que era um avião russo e ninguém lá pôs pé. Tudo se recusou a voltar num avião russo até que lá chamaram um da TAP e Artur diz que “não sei como é que o avião não caiu com tanto peso, de tanto que lá enfiaram… e tanto que lá ficou”, remata.

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Artur esteve 20 anos em Angola, sendo que a D. Peta foi entretanto lá ter e formaram a sua família. Tiveram dois filhos. Hoje tem só a filha, que apesar de viver em França com o marido e o filho, seu único neto, é o seu grande pilar e apoio. Refere a atenção da filha como única, num enorme gesto de agradecimento, que só um pai consegue sentir, que talvez ninguém saiba explicar, é algo do sangue, do ser.

Quando voltou a Portugal e a Mação foi dar serventia, cavar à jorna, apanhar azeitona, o que aparecia. Depois lá arranjou o trabalho nas Bombas, no cimo da Vila, onde ficou 11 anos até se reformar, há 20 anos. Partiu há uma semana para o eterno descanso.

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Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos quatro filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas.

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