“O Saramago das pequenas memórias”, por Adelino Correia-Pires

"Saramago", pintura de Ana Paula Lopes, óleo s/tela | Foto: Adelino Correia-Pires

Gosto dele. Quando me dizem que não o lêem ou que o não suportam, pergunto-lhes se falam do homem ou do escritor. Alguns, apenas me dizem, por cortesia para comigo, que não para com ele, que sim, que já tentaram mas não conseguiram passar dali, da quarta ou quinta página. Que o homem amarrotou a gramática, engolindo as vírgulas e a pontuação, tornando-lhe a digestão difícil, causando-lhe assomos de desassombro. Outros, sem papas na língua, que ele também as não teve, empurram-no liminarmente para o índex, vade-retro satanás.

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Vou ouvindo calmamente. E, quando insisto em saber o que conhecem dele, sobre ele ou sobre o que escreveu, a indiferença instala-se e o incómodo acentua-se. Saberão talvez que resolveu partir por razões estranhas, que é estranha a forma como escreve e que, talvez, estranhamente, tenha sido Nobel, num país onde Um a mais, incomoda sempre mais, que um a menos.

E lá vou dizendo, quando me pedem para falar sobre Saramago, que nunca começo por falar do prémio nem de Lanzarote, muito menos do seu (mau) génio, por vezes genial. Começo sim pelo princípio, que será sempre uma boa forma de começar uma boa história. Pouco original é certo, mas envolvente e de arregalar olhos e aguçar ouvidos. E esta é simples e dará que pensar.

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É, também por isso, que eu gosto dele. Do Saramago das pequenas memórias. Do neto da Josefa e do Jerónimo, plantado algures entre o Tejo e o Almonda, no tempo das velhas oliveiras antes dos milharais, dos restolhos do trigo já ceifado, do punhado de azeitonas e figos secos no alforge.

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Gosto do Saramago da lezíria, cavaleiro de um cavalo de pau, numa feira de carrosséis no Sameiro, que apesar de nascido por ali, no meio da terra deles, nunca conseguiu que o deixassem subir para um a sério e dessa desfeita nunca se desfez. Gosto do Saramago, filho do ‘567’, polícia de esquadra ou de rua naquela Lisboa de então, para onde emigrou a família, partilhando casas e amuos, que as posses para mais não dariam. E que meio escondido, fugia para as águas furtadas do vizinho Chaves, artista e pintor na Viúva Lamego, que para engrossar o pecúlio, pintava de noite o que sobrava de dia, trazendo louça para casa, onde a vestia de arabescos, volutas e encordoados.

Gosto dele, do rapaz que vivia e coabitava espaços, onde “A Toutinegra do Moinho” – o único livro da biblioteca lá de casa, mais um jornal que o seu pai ia levando dia a dia, todos os dias debaixo do braço, sujando-lhe a manga da farda, foram a sua cartilha de juntar as letras.

Foi assim, por esses trilhos, pé descalço nas terras da lezíria e já de botas calçadas nas calçadas da Mouraria, com um livro, um jornal, algumas escolas e bibliotecas, serralharias e tertúlias várias, que entre o torno e a caneta, se foi levantando do chão, engolindo cada vírgula e erguendo memoriais, entre a lucidez e a cegueira.

Quando quiserem falar de Saramago, comecem então pelo princípio. Não falem apenas do seu prémio, nem de Lanzarote, nem lhe apontem só aquele seu mau génio, ainda que genial. Falem sobretudo, da causa das coisas. E depois leiam-no. E tentem perceber a genialidade do menino que caiu dum cavalo sem que nunca nele o tivessem deixado subir.

“… Hoje tenho imagens desses animais por toda a casa. Quem pela primeira vez me visita pergunta-me quase sempre se sou cavaleiro, quando a única verdade é andar eu ainda a sofrer dos efeitos da queda de um cavalo que nunca montei. Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos…”, José Saramago em “As Pequena Memórias”.

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