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Domingo, Agosto 1, 2021

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“O sangue de uns é mais perigoso do que o sangue de outros?”, por Hália Santos

Tenho andado a pensar em palavras como ‘dar’, ‘dádiva’ e ‘doação’. Mas não de bens materiais. Ando a pensar nisto em associação com outras ideias: generosidade, solidariedade, partilha…

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E a que propósito vem isso?

A propósito dos dadores de sangue. Sempre achei que este era um dos atos mais bonitos que os seres humanos podem ter. Porque, na verdade, é dar uma parte de si que é essencial para os outros. E a coisa que mais me emociona é que se trata de uma dádiva no escuro.

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O que é que isso quer dizer?

Quer dizer que quem dá não está minimamente preocupado em saber quem vai receber. Dá porque sim. Porque sabe que alguém vai beneficiar com isso. Não importa quem. Sobretudo por isso, quem se disponibiliza a ser dador de sangue deveria ser tratado de forma especial. E não estou a falar de descontos nas contas dos hospitais públicos. Estou a falar do próprio momento da dádiva.

Pelo que sei, os processos de recolha até correm bem, com pessoal profissional, com todos os cuidados e atenções para com os dadores.

É também essa a opinião que tenho. Mas a minha questão não tem rigorosamente nada a ver com o pessoal. O que me tem levado a pensar é o processo, aquela folhinha que os dadores e as dadoras têm que preencher sempre que se disponibilizam para um momento de colheita de sangue. As perguntas sobre a vida íntima das pessoas parecem-me desadequadas. Quem se disponibiliza a fazer tal dádiva certamente que é alguém responsável! Portanto, não me parece que quem o faz precise de passar por uma ‘prova’ de ‘bom comportamento sexual’, perante desconhecidos.

De facto, é um pouco estranho que alguém que quer dar o seu sangue tenha que passar por um questionário que tem a ver com a sua vida privada. Mas, por outro lado, temos que reconhecer que o sistema de saúde tem que proteger as pessoas que vão receber esse sangue. Tem que ter garantias de que não correm riscos ao recebê-lo. Se fosse eu também gostava de saber que o sangue que pudesse receber tinha sido devidamente verificado.

Pois a questão é mesmo essa! A verificação deveria ser ao próprio sangue, deveria ser feita uma análise e validar, ou não, as condições de cada doação.

Mas isso é feito! A questão é prévia: quando se pede aos dadores que confirmem que não tiveram comportamentos considerados de risco, no fundo está a evitar-se custos nas análises em sangue que terá a probabilidade de ter algum tipo de problema.

Certo, só que isso é tão falível… Uma pessoa que teve dois parceiros ou três parceiros nos últimos seis meses não é necessariamente um condenado a uma doença contaminável. Até porque o pode ter feito com juízo. E alguém que só tenha tido relacionamentos com uma única pessoa ao longo de dez anos pode ser contaminado por via dessa única pessoa. É tudo tão relativo!

No fundo, o documento é uma garantia de que se corre o mínimo de riscos, mas não os elimina.

Claro que não! Até por outra razão: os dadores podem mentir. Tão simples quanto isso. Não consigo perceber como é que se confia na palavra das pessoas, mas não se trata as pessoas todas da mesma forma. Não consigo perceber como é que um homossexual ainda é considerado como uma pessoa de maior risco do que um heterossexual. Conheço tanto heterossexual que muda de parceiro conforme o vento e que não segue os conselhos que dá aos jovens…

Tudo isto vem a propósito dos homossexuais e bissexuais já poderem dar sangue?

Sim, vem! E essa é uma excelente notícia. O contrário era discriminação pura. Apesar de a nova norma – que ainda está em consulta pública – ser um claro avanço, o que me parece é que os homossexuais, os bissexuais e os heterossexuais deveriam todos ser tratados da mesma forma. Porque ninguém me convence que há gente mais promíscua num grupo do que no outro. Desculpem, mas não consigo acreditar. Sabes, conheço muita gente…

Agora dei comigo a pensar noutra coisa, que tem a ver com o início da nossa conversa. Um dador ou uma dadora de sangue não está com preocupações em saber para quem vai o seu sangue. Imagina se cada uma destas pessoas tivesse o direito – legítimo, diria eu – de o saber. Imagina que o José precisava mesmo do sangue do Manuel. Mas o Manuel, informado de que o José era de uma orientação sexual diferente, de uma cor diferente, de uma religião diferente ou de um clube diferente, decidia que ele não era merecedor do seu sangue. E não fazia a dádiva. Isto faz algum sentido?

Não! É tão absurdo como tratar os dadores de forma diferente.

Valha-nos a quantidade de pessoas, com as diferentes orientações sexuais, que ainda sentem o verdadeiro apelo da dávida!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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