O que está a acontecer ao Santuário da Ladeira do Pinheiro?

Foi local de culto para multidões, que procuravam ver de perto uma Santa terrena que falava diretamente com as entidades divinas e curava doenças. O Santuário de Nossa Senhora das Graças, na Ladeira do Pinheiro, freguesia de Meia Via, Torres Novas, não está no GPS. Encontra-se até hoje ao fundo de uma estrada de terra batida, que passa quase despercebida a quem desconhece a sua localização. Não há tabuletas a indicar a sua presença, tendo-se tornado um espaço dedicado ao culto ortodoxo. Na viragem do século reconverteu-se, perdendo a sua identidade histórica. Não seria o que “Mãe Maria” desejava, mas foi o que restou da sua passagem por este mundo.

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Santaladeira
A Santa da Ladeira morreu em 2003 mas ainda há fiéis a frequentar o seu templo

Natural de Riachos, Torres Novas, Maria da Conceição Mendes Horta tinha 39 anos quando, internada no Hospital da Misericórdia, na Golegã, com uma leucemia, viu uma imagem do Senhor dos Passos a mexer-se. Terá ficado curada, afirmando desde então que tinha visões e falava com os Santos, reunindo ao seu redor um grupo de fiéis que chegou a trazer à Ladeira do Pinheiro pessoas do outro lado do Atlântico. Morreria em 2003, aos 72 anos, poucas semanas depois de ter sido excomungada por um ramo da Igreja Ortodoxa polaca, a única que apoiou o culto.

Ladeira ortodoxa
Inaugurada em 2000, a Catedral da Ladeira do Pinheiro reúne hoje apenas o culto ortodoxo

É uma história feita de vários episódios e uma certa mística de mártir que sempre rodeou Maria da Conceição, conhecida entre os fiéis por “Mãe Maria” ou “Santa da Ladeira” e pelos céticos como “bruxa da Meia Via”. Casada por duas vezes, tendo ficado viúva do primeiro marido, teve as suas primeiras visões nos anos 60, procurando desde então que o seu culto fosse aceite pela Igreja Católica. Não só nunca foi aceite como Maria da Conceição entrou em litígio com o pároco local.

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A sua casa foi fechada pela GNR em 1972 e só depois do 25 de Abril, e com o fim do Estado Novo, a Igreja Católica Ortodoxa de Portugal deu o seu apoio a Maria da Conceição, criando-se o início da institucionalização do culto.

Esta relação foi-se mantendo pacífica até à viragem do século, enquanto Maria da Conceição e o bispo ortodoxo João Miguel foram vivos. Entretanto construiu-se a Catedral, um edifício imponente que se diz ter custado vários milhões de euros, no qual foi erguido, ao lado do altar ortodoxo, um altar católico, na esperança de ali se conseguirem unir todas as religiões da cristandade. Mais tarde mandaria construir uma Igreja Católica ao lado.

Com a morte de Maria da Conceição em 2003, por paragem respiratória, e o afastamento da Igreja Católica Ortodoxa, o culto passou a ser dirigido pelo Bispo Estevão Costa, da Igreja Ortodoxa alternativa búlgara. Os fiéis começaram a dispersar e ao longo dos dez anos seguintes a Ladeira foi palco de várias tensões entre os fiéis de Maria da Conceição e os dirigentes da Igreja Ortodoxa remanescente.

As primeiras polémicas surgiram em 2004, com religiosas dissidentes a fazerem queixa na Polícia Judiciária por alegados abusos sexuais e maus tratos a menores no Lar da Fundação Maria da Conceição e Humberto Horta, criado pela Santa da Ladeira. O Lar só tinha alvará para receber idosos mas viviam ali várias crianças, pelo que viria a ser encerrado. Do resto do caso não há mais notícias, sendo que hoje a Fundação tem junto ao Santuário um edifício moderno, destinado apenas ao apoio à terceira idade.

Depois deste caso iniciaram-se os afastamentos, inclusive da Teresinha, a filha adotiva de Maria da Conceição que estaria destinada a ser a sua sucessora, e de vários membros do seu Exército Branco. Um notícia de 2011 da Lusa constatava a tensão que existia aquando as cerimónias na Ladeira, com os fiéis de Maria da Conceição a preferirem rezar junto à Igreja Católica encerrada.

Morre culto popular, cresce culto ortodoxo

O fenómeno da Ladeira teve vários estudos, o mais recente do antropólogo Aurélio Lopes, publicado em livro pelas Edições Cosmos. O investigador traçou o perfil da vidente, uma pessoa “tosca, quase analfabeta, mas com uma personalidade forte e carismática que atraía e impressionava quem lá ia”, comentou ao mediotejo.net. “Facilmente passava a mensagem que o Céu estava ali perto da Ladeira. Um fenómeno destes, que faz com que o divino se torne uma relação direta, e não pela Igreja, é muito atrativo”.

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O local chamou multidões e na memória torrejana ainda estão bem presentes as longas filas de autocarros que se perfilavam pela Ladeira do Pinheiro. Com o afastamento da Teresinha, a morte do marido de Maria da Conceição e várias outros episódios numa longa história, o culto ortodoxo foi-se impondo, institucionalizando-se a Igreja fora do culto popular. Os seguidores da Santa da Ladeira “ainda hoje lá vão, mas ficam cá fora ou entram quando não há ofício”, sintetiza Aurélio Lopes. Os fiéis que ficaram “não têm força para continuar”, comenta.

Isto porque Maria da Conceição sempre foi católica, apesar de ter procurado o ecumenismo no seu Santuário. “O culto popular, se não desapareceu, vai desaparecer”, prevê Aurélio Lopes. “Os ortodoxos vêm Maria da Conceição como profeta e é esse padrão que vai permanecer. As pessoas que a conheceram vão morrendo. Olhando a esta distância, não deixa de mostrar alguma pena. O que ela queria era que a sua figura de mística na terra fosse reconhecida. O que aconteceu, mas por uma Igreja pequena. Enquanto houver o culto ali, manter-se-á a memória da mística”, conclui.

Laderia católica
A Igreja Católica mandada construir por Maria da Conceição no final da sua vida permanece encerrada, mas com muitas flores à sua porta

O mediotejo.net falou ainda com o Bispo Estevão Costa, para saber como está a crescer o culto ortodoxo na Ladeira do Pinheiro. O clérigo referiu que não tem dados sobre a afluência ao Santuário, mas que este tem sido muito procurado por imigrantes de Leste, que ali encontram um espaço de culto ortodoxo. Cidadãos da Ucrânia, Rússia, Moldávia ou Roménia, que realizam também batizados e casamentos. “A mensagem vai sendo passada entre eles”, afirma o Bispo, frisando que a Igreja não se publicita, encontrando estes o Santuário no passa-a-palavra. Vêm um pouco de todo o país, tendo já vindo também de Espanha ou dos EUA.

A grande afluência dá-se sobretudo na Páscoa, sendo as restantes datas de pequena aderência, uma vez que estas são pessoas que estão em Portugal sobretudo para trabalhar. Mas “com muito ou pouca afluência mantemo-nos no Santuário”, sublinha.

Fátima é outra conversa

Questionado pelo mediotejo.net se a história de Maria da Conceição teria sido diferente se ela não fosse já uma mulher adulta, Aurélio Lopes referiu que a existência de Fátima “tornava impossível aceitar” o fenómeno. Além do que Maria da Conceição depressa entrou em conflito com o pároco de Torres Novas, escrevendo artigos sobre o litígio nos jornais torrejanos. “Ela assume um papel de justiceira, que a Igreja não reconhece”.

O modelo de Aparições que vingou desde o século XIX foi o protagonizado por crianças e Fátima nasceu num contexto muito próprio (guerra, laicização do Estado). Apesar do estatuto que tem hoje em dia, as Aparições na Cova da Iria só foram institucionalizados com a reanimação da diocese de Leiria e a morte dos dois pastores mais novos, Jacinta e Francisco, explica Aurélio Lopes. E mesmo neste caso, adianta, Jacinta e Francisco permanecem como Beatos, não Santos. O culto é dirigido a Nossa Senhora.

E as curas milagrosas? “As curas fazem sempre parte destes cultos populares”, refere Aurélio Lopes, citando vários exemplos. “A noção de cura é o que mais influencia a sociedade, sobretudo por pessoas que não sabem o que têm”, refere. No caso da Ladeira do Pinheiro, não houve nunca a tentativa de estudar os milagres. Apenas existe a referência, aquando a sua morte no Hospital em Torres Novas, de que não tinha indícios de ter tido leucemia.

Análises psicológicas também não existem, apesar dos estudos em torno do culto da personalidade. “Era curioso que houvesse”, reconhece Aurélio Lopes, “mas hoje já seria com dados secundários”. Uma forma interessante de o realizar, sugere o autor, era através das personagens que “Mãe Maria” encarnava. Quase sempre de “natureza bélica”, como Santa Joana D’Arc ou o Arcanjo São Miguel. “Através disso podia-se fazer uma análise psico-social, do seu entendimento do mundo.”

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11 COMENTÁRIOS

  1. “Análises psicológicas também não existem”. Errado! Esta senhora esteve internada no Hospital Júlio de Matos por duas vezes (1966 e 1973) e no respectivo processo clínico constam informações muito interessantes…

  2. Já lá fui algumas vezes e nunca me pediram dinheiro. Quando lá vou só peço perdão pelos meus pecados e orientação divina. Até a data já tenho recebido algumas graças, ou se preferirem, ocorrências fortuitas. A fé não se explica, e eu tenho fé!

  3. Bem sei, Cláudia Gameiro, que assuntos deste tipo não são matéria em que as pessoas – e de jornalistas então nem se fala :)) – sejam muito práticas e o seu caso não será excepção. Permita-me uma rectificação: a excomunhão que refere visou, não só Maria da Conceição mas o próprio Santuário e não proveio de «um ramo da Igreja Ortodoxa polaca, a única que apoiou o culto», proveio sim da própria Igreja Ortodoxa da Polónia, deliberada pelo respectivo Sínodo dos Bispos que, simultaneamente, determinava à então província eclesiástica portuguesa sob sua jurisdição canónica, a «Igreja Católica Ortodoxa de Portugal» (aquilo a que chama “ramo”) que se retirasse do local. A determinação não foi então obedecida, tendo logo a seguir a Igreja da Polónia rompido a comunhão com o dito “ramo”. Dos acontecimentos posteriores reza a história que o “ramo”, os representantes jurídicos da ICOP também terão, pouco depois, excomungado o local. Note que, com efeito, «esta relação foi-se mantendo pacífica até à viragem do século», enquanto Maria da Conceição e o bispo ortodoxo João GABRIEL foram vivos. (foi este bispo, Metropolita Gabriel, de seu nome secular Eduardo Henrique Pinto da Rocha, falecido em 18.02.1997, que fundou e levou a ICOP à integração canónica na Igreja Ortodoxa da Polónia. Falecido em 18.02.1997. É certamente história e assunto demasiado vasto para ser escalpelizado neste espaço mas, se tiver interesse, poderei procurar ajudá-la com alguma achega. Disponha.

  4. fui por cruzidade hoje vezitar o local gostei muito sou católico praticante fui lá fiz a minha oração pedi pela saúde pela paz do mundo pela compreensão do mundo . senti uma paz vi que ela a sr da ladeira me deu resosta .

  5. Resumindo, eu acho que a sra da ladeira queria ter o aval e o reconhecimento da igreja católica mas como esta nunca foi aceite, ela virou-se para uma instituição “religião” que poderia aceitar o seu reconhecimento que é o caso da igreja ortodoxa para continuar o que ela andara a fazer… para mim sinceramente era mais uma seita que uma religião, ela tentou simplesmente encontrar uma solução para que toda a gente pudesse confirmar a sua capacidade, ainda hoje se lá forem o culto ortodoxo é o único reconhecido pelas pessoas de lá..acho que não podemos misturar cristãos com ortodoxos e é por isso que aquilo só ficou para as pessoas de lá, aliás se bem me lembro ela foi internada e até se mutilava com cruzes e outros…coisas que não poderiam vir de uma religião mas mais de uma seita, agora respeito isso, apenas constatei.

  6. O que faz esta confusão é a instituiçao as igrejas que são comandadas pelo homem, as pessoas comuns devem isso sim,: acompanharem e evoluirem interiormente, fazerem aquilo que o seu interior sente.,chamem lhe Deus, Jeova, Oxalá,ou o que a religião criou, a vida a natureza o céu,o Universo é só Um🙏

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