Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Domingo, Agosto 1, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“O que dirá o fugitivo sobre o que se diz dele?”, por Hália Santos

Acabei de ouvir a Clara de Sousa, na SIC, a dizer que o caso do fugitivo tem apaixonado a opinião pública e fiquei sem saber o que pensar…

- Publicidade -

Como assim?

Não tenho acompanhado o caso a par e par passo. Confesso que até tenho evitado saber o que se passa. Parece-me um daqueles estranhos casos de estratégias policiais e comunicacionais difíceis de compreender. E isso aborrece-me. Aborrece-me passar por diferentes meios de comunicação e ver o ‘assunto’ a ser tratado em todo o lado, nas notícias e no entretenimento. Recorrem a especialistas e a outros que acham que o são, para traçar perfis, analisar estratégias, adivinhar cenários…

- Publicidade -

Sabes bem que as pessoas gostam de estórias fora do normal. E gostam de ouvir ‘gente importante’ a falar sobre essas estórias. Por isso, a Clara de Sousa é capaz de ter razão. A opinião pública – se se entender que estamos a falar a opinião da maioria das pessoas – gosta de saber o que se passa com um fugitivo que consegue, supostamente, enganar a polícia. Gostam de estórias contadas por episódios e a verdade é que todos os dias há novidades que vão alimentando a curiosidade.

Certo, sabemos todos disso. Por alguma razão os jornais e os canais populares têm mais audiências. Mas não deixo de me incomodar com a quantidade de tempo e de espaço que se dá a este assunto em particular. Se o homem nunca for apanhado vamos ter novela durante quanto tempo? Quando é que se define que já não interessa?

Pois, isso não sei! É uma questão sobre a qual devemos refletir. Que informação queremos e que informação merecemos. O que nos faz evoluir e o que nos faz estagnar. O que precisamos de saber e o que não acrescenta nada… Nisso concordo contigo. O que nos adiantam todos as supostas novidades sobre o caso do fugitivo?

Nada, mas o que eu vejo é que todos os dias vão buscar ingredientes novos. Agora apareceram supostos relatos dizendo que o fugitivo é “um homem educado e afável”. Acabei de ver uma amiga a dizer que enquanto não houver provas ele não é culpado. E usou um canal de televisão para lhe mandar uma mensagem: “Tens muita gente que está do teu lado. Se não cometeste os crimes, confia em ti. Se porventura aconteceu alguma coisa, acredita que estamos contigo e que te vamos ajudar a superar isso.” Isto ultrapassa o razoável…

Esta construção de estórias sobre factos que se deveriam limitar àquilo que são é algo que devia ser analisado… A concorrência entre os Média determina opções que nem sempre são fáceis de compreender. O que os jornalistas fazem nem sempre é ditado por verdadeiros critérios editorias. Vivemos num mundo estranho.

Pois vivemos!

O que eu gostava mesmo era de falar com o fugitivo. Adorava estar com ele a ver os noticiários. Adorava perguntar-lhe o que pensa ele de todo o discurso que os Média estão a construir em torno dele.

Também seria interessante tentar perceber como é que ele ouve, vê e lê as informações dadas pelas autoridades. Fico sempre com a sensação que são mensagens para o fugitivo. Só posso acreditar que fazem parte de uma estratégia. Há muita gente a criticar as autoridades por dizerem aos jornalistas o que andam a fazer, mas não pode ser só isso. Temos direito à informação, mas, neste caso, divulgar tudo seria absurdo. Será que mais ninguém percebe isso? Será que não percebem que em processos comunicativos exigentes se pondera tudo o que se diz, como se diz e quando se diz?

Enfim, volto à minha questão inicial. Nem sequer é um assunto que me interesse por aí além. O que acho fantástico é que seja um dos temas que mais atenção tem nos alinhamentos dos noticiários, nas páginas dos jornais e dos sites de informação. Os assassinatos são obviamente importantes, um alegado culpado em fuga também é importante, mas todos os cenários que se constroem à volta disto são excessivos. Cansa!

A verdade é que estamos aqui a falar disto… Sabes que há um novo Orçamento de Estado? Sabes que vão repor os cortes na Função Pública? Sabes que não criar um novo imposto sobre património? Sabes que os aumentos das reformas mais baixas afinal não vão ser o que se esperava?

Sei. Já agora… Como é que se andará a governar o fugitivo? Se for ao multibanco é apanhado e os 60 euros que roubou aos velhinhos já devem ter acabado…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome