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Segunda-feira, Dezembro 6, 2021
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“O que cada um quiser, na vida e na morte”, por Hália Santos

Então, por estes dias, devemos pensar mais nos nossos mortos, não é?

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Diz a tradição que sim, que estes são os dias de nos lembrarmos mais de quem partiu, embora me pareça um pouco estranho, este hábito de fazer lembrar, porque o pensamento é livre e não imposto.

Sim, mas a ideia talvez seja a de assinalar, precisamente para não esquecer.

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Admito que sim, e que seja importante para muitas pessoas. Eu cá não me lembro de ir a um cemitério num destes dias e lembro-me dos meus mortos praticamente todos os dias do ano.

Tens que respeitar os rituais e eu até sei que respeitas. Como bem sabemos, as pessoas vivem as suas questões mais interiores de formas muito distintas. Essa é a maior riqueza da vida, a diversidade.

Concordo contigo, por muito que me custe ver alguém ir todos os dias ao cemitério, quando perde um ente muito querido. Fico sempre na dúvida se fazem isso por si, por quem morreu ou para os outros que ficam a ver…

Eia! Isso é muito violento, o que acabaste de dizer. Respeito pelos outros… Cada um sabe de si, certo?

Certo! Mas aqui, que ninguém nos ouve, sinto que às vezes posso dizer o que verdadeiramente penso, como aquelas recém-mamãs quando encontram alguém a quem podem dizer que há dias em que só lhes apetece atirar a criança pela janela fora.

Essa é uma daquelas coisas que imensas mães devem ter sentido, mas que raramente alguma assume, como bem me avisou uma amiga, assim que eu fui mãe.

O nascimento tem muito que se lhe diga, mas eu gostava de voltar à morte porque, digamos assim, pode ser visto como um tema ‘atual’. Posso perguntar-te uma coisa que talvez entre demasiado na tua vida privada?

Perguntar, podes sempre. Se te respondo é que já será outra coisa…

Gostava de saber se pensas na tua morte.

Oh! Isso não é coisa que veja como muito privado. Estava à espera de outro tipo de pergunta! Penso na minha morte, penso! Em determinadas alturas da minha vida penso mais do que noutras, mas é qualquer coisa que está sempre presente porque é inevitável.

Como dizia algum filósofo ou escritor, que já não me lembro quem foi, a morte é a única coisa que não nos engana porque sabemos bem que vai aparecer e, no entanto, todos a detestamos.

Essa é uma visão engraçada. Eu detesto a morte dos meus, mas não consigo detestar a minha morte, talvez porque a encare como uma inevitabilidade.

Apesar de inevitável, a questão da morte talvez seja a que persegue a maioria dos seres humanos. Pensas na tua morte ao pormenor?

Bom, desde muito nova que acho que vou morrer num acidente de carro, no banco do ‘pendura’.

Isso não condiciona a tua vida?

Um pouco, na medida em que tenho um certo medo de ir no lugar do ‘pendura’, sobretudo em excesso de velocidade. E olha que não tenho medo de muitas coisas. Mas o meu medo de morrer não tem a ver com o meu desaparecimento, tem a ver com a falta que ainda faço. É como se não pudesse morrer tranquila por achar que ainda há quem precise de mim.

Essa é uma perspetiva interessante: quando é que já posso morrer sem que os efeitos sejam muito violentos?

Pois é! No meu pragmatismo, é mesmo assim.

Então e não colocas a questão no aspeto emocional? Até pode não haver uma única alma que precise de ti, no sentido prático da coisa, mas pode haver muitas pessoas que fiquem a sofrer com a tua partida.

Isso faz-se lembrar um texto do Séneca, que tem cerca de 2.000 anos. Era uma carta a uma pai que perdeu um filho dizendo-lhe que não deveria estar a sofrer nem deveria estar a sentir saudades, deveria antes sentir-se um privilegiado pelo tempo que passou com o filho.

Isso é muito bonito de se dizer, mas ninguém tem um filho para o ver morrer! Não consigo nem imaginar a dor – sim, a dor, a saudade, o sofrimento – de alguém que perde um filho.

Nem eu… Mas, assim de repente, talvez perceba uma mãe que todos os dias vai ao cemitério, à campa do filho. É, simplesmente, humano. Como também percebo quem não vai a um cemitério e, apesar disso, vive com os seus mortos.

Na vida e na morte, que seja como cada um quiser!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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