Gente da nossa terra | É de Tomar um dos maiores colecionadores de puzzles do país

O arquiteto Jorge Marcarenhas, professor no Instituto Politécnico de Tomar, guarda em sua casa mais de 700 puzzles a três dimensões, vindo dos quatro cantos do mundo.

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São das mais variadas formas, cores e feitios os puzzles e os quebra-cabeças que encontramos acondicionados em prateleiras na divisão de uma casa situada perto das ruínas da antiga Fábrica da Fiação de Tomar. É ali que reside Jorge Mascarenhas, um arquiteto de 57 anos que descobriu aos 25 anos a paixão pelos puzzles e quebra-cabeças, durante os quatro meses de estágio de final de curso que fez na Finlândia.

“É um país onde existem Invernos muito longos e rigorosos e, portanto – numa altura em que ainda não existiam computadores – as pessoas tinham por hábito, ter em casa puzzles em madeira, porque é um país que tem muita floresta, para se ocuparem no Inverno”, conta ao mediotejo.net.

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Para o arquiteto, trabalhar com um puzzle tridimensional “obriga a uma visão diferente, mais ligada à geometria e à matemática” treinando, deste modo, o cérebro para uma maior agilidade de raciocínio.

O professor começou por comprar uma cruz em madeira que hoje ainda conserva. Tomado o gosto nunca mais parou e, sempre que viajava para fora do país, dava por si a comprar puzzles. Mais tarde, decidiu escrever ao maior colecionador de puzzles do mundo, que vive em Beverly Hills, nos Estados Unidos da América. Com alguma surpresa, o contacto encetado teve eco e foi deste modo que conheceu  novos sítios onde se podiam comprar puzzles. “Comecei a encomendar puzzles, por exemplo, do Japão, que são muito interessantes pela configuração que apresentam”, explica.

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No actual momento, a coleção de puzzles de Jorge Mascarenhas ultrapassa os 700 exemplares, sendo seguramente a maior do país ou até da Península Ibérica, assegura. Em casa, numa divisão destinada unicamente para o efeito, tem uma espécie de Museu da Ciência dada a complexidade que cada um destes puzzles representa nas mãos de uma pessoa. Cada um encerra um enigma para descobrir, um segredo para desvendar, obrigando a pessoa a puxar pelo raciocínio, ilustra.

“É importante referir que esta coleção é de puzzles tridimensionais que são mais complexos e mais raros que os bidimensionais (planos) “, realça o colecionador. 

Os puzzles que têm em sua posse são de várias categorias: madeira, papel, arame, metálicos, com cordas, plásticos, fixos e móveis. Os de madeira montam-se para se obter uma figura geométrica ou um animal. Também há as Caixas de Segredo que se tentam abrir de um modo que afinal é completamente oposto ao que se julgava. Depois do cubo de Rubik (também conhecido como cubo mágico), surgiram os puzzles de plástico. São os que têm movimento embora as peças não se soltem.

O puzzle mais enigmático que tem, realça, é um que consiste numa roda giratória onde estão desenhados vários prisioneiros com as iniciais A e B. Quando as mesmas se unem a uma seta há um dos prisioneiros que desaparece. A explicação reside no modo diagonal como o desenho foi traçado, desvenda.

Os puzzles de Jorge Mascarenhas vieram do Japão, da China, dos Estados Unidos mas também tem três ou quatro comprados em Portugal. De entre a sua vasta coleção destaca uma Muralha Inca que se tem que construir com bocados de pedras soltas. Também agarra, instintivamente, num quebra-cabeças de pregos, no qual é possível colocar vários destes elementos assentes num único. O professor revela que chega a levar este puzzle para as suas aulas para comprovar aos alunos que tal feito não é impossível.

 A dicotomia puzzles/jogos de computador

Hoje é dia é mais fácil ver uma criança ou um adolescente agarrada a um jogo de computador do que a construir um puzzle. “Um dilema”, considera o arquiteto, dando exemplo de como os hábitos culturais de cada pátria podem interferir na construção do raciocínio lógico.

“Em alguns países tenta-se que as crianças escrevam diretamente num computador. Na Alemanha, por exemplo, distribuem tabuleiros com areia pela escola para que as crianças escrevam com o dedo na areia para desenvolverem determinado tipo de capacidades completamente diferentes”, exemplifica. Num jogo de computador a criança fica apenas em frente a uma máquina. “Vamos jogando mas não somos estimulados para uma realidade. Seguimos, muitas vezes, um caminho viciado e que se torna viciante”, afirma.

É por este motivo, na sua opinião, que os alunos que trabalham muito com computadores preferem cursos que não tenham matérias como Matemática, Geometria ou Química.

Para Jorge Mascarenhas, o puzzle de madeira, tal como qualquer um dos que possui, são quebra-cabeças que para serem resolvidos obrigam a estabelecer uma “estratégia” o que desenvolve as competências que são apreendidas fora da escola.

“Para resolver um puzzle temos que ser muito criativos, criar uma estratégia, memorizar os caminhos que já percorremos porque muitas vezes temos que voltar para trás e recomeçar tudo de novo e escolher outro mais adequado”, atesta.

O professor defende ainda a implementação obrigatória nas escolas do Jogo do Xadrez. “Este jogo desenvolve muitas capacidades de resolução que podem vir a ser úteis ao longo da vida já que, ao longo da vida, temos que tomar muitas decisões”, atesta.

O professor e arquiteto refere que, com os projetos que tem atualmente em mãos, não tem tempo para resolver os seus próprios puzzles mas ressalva o seu interesse em classificá-los e tentar perceber o seu modo de funcionamento.

“Embora goste de os resolver confesso que não tenho muito tempo. São todos de uma complexidade extrema e alguns deles poderiam levar dias ou até meses para serem desvendados”, sustenta. Expor esta coleção muito “sui generis” não está fora dos planos do colecionador.

Se surgir um convite, não conseguirá resistir ao desafio de encaixar mais essa peça na sua vida.

*Entrevista publicada em setembro de 2015, republicada em abril de 2019

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Elsa Ribeiro Gonçalves
Aos 12 anos já queria ser jornalista e todo o seu percurso académico foi percorrido com esse objetivo no horizonte. Licenciada em Jornalismo, exerce desde 2005, sempre no jornalismo de proximidade. Mãe de uma menina, assume que tem nas viagens a sua grande paixão. Gosta de aventura e de superar um bom desafio. Em maio de 2018, lançou o seu primeiro livro de ficção intitulado "Singularidades de uma mulher de 40", que marca a sua estreia na escrita literária, sob a chancela da Origami Livros.

2 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia!
    Tenho Puzzle MP da marca Estrela , 2 com 2000 peças e 3 com 2500 peças. Gostaria de saber valor e se há pessoas interessadas!

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