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Domingo, Agosto 1, 2021

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“O Presidente Bioucas”, por Armando Fernandes

Morreu o Presidente Bioucas, assim, curta e seca me chegou a notícia da morte do carismático Presidente da Câmara de Abrantes, conhecido pela generalidade das pessoas por Bioucas e, não pelos nomes próprios.

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No início da década de oitenta cheguei à fala com ele através do meu excelente amigo José Mingocho de Abreu, andávamos empenhados na constituição do PRD, que a cegueira ambiciosa destruiu numa noite em casa de um socialista curto de vistas. Sendo mais preciso, durante a campanha de reeleição do General Eanes tinha estado em casa dele na companhia do Engenheiro Sacramento Marques e do José Niza após uma jornada política. Na altura apreciei o seu sentido de humor tendo como alvo a Dona Francelina Chambel.

O Engenheiro Bioucas era muito estimado pelo então Presidente Eanes e, por isso mesmo, urgia contactá-lo. A conversa decorreu ágil, alegre, saltitante, no entanto, o devotado eanista teceu fios de amizade mas não cordas de compromisso relativamente ao partido em gestação.

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Tendo sido fundador do PSD, eleito na qualidade de independente nas listas do PS, inquestionável admirador de Eanes no referente a compromissos partidários imitou Ulisses fechando os ouvidos à proposta.

A partir daí fomo-nos vendo, vieram as eleições legislativas onde alcançámos um bom resultado, a seguir as autárquicas, aí verificámos quão clarividente tinha sido no tecer a teia do não compromisso connosco pois dividiu opiniões no PRD, levando ao atraso na constituição e apresentação das nossas listas, daí só apresentarmos candidatos em nove freguesias. Voltou a ganhar.

O facto de estarmos em campos opostos não originou melindres, nem os momentos de toada acesa no esgrimir de argumentos contra e a favor acarretaram acrimónia e/ou desvarios pessoais. Mais tarde o pêndulo político agitou-se levando à sua derrota nas eleições seguintes, o PRD contribuiu para tal desfecho e o Engenheiro retirou-se do campo da peleja autárquica passando a dedicar mais tempo à velha e dedicada causa dos Bombeiros e da construção de uma rede de afectos a beneficiar as crianças e adolescentes vítimas de incapacidades de vária natureza.

Sem embargo de podermos criticar estas ou aquelas decisões por ele tomadas, ninguém de boa fé pode ignorar a sua acção na defesa dos interesses do concelho de Abrantes, nem as obras levadas a cabo no período da sua governação, a partir de Dezembro de 1976, data das primeiras eleições municipais.

Encontrei-o pela última vez há pouco tempo, os seus olhos ganharam fulgência ao lhe falar nos automóveis antigos, recordámos peripécias, as mais garridas envolvendo o saudoso Salgueiro Maia durante uma funçanata nocturna que teve lugar na Quinta da Misericórdia, na altura arrendada pelo polivalente José Abreu.

Desviando-me do habitual teor dos meus artigos, entendi escrever sobre um Homem que mereceu e merece o meu respeito para além de convicções políticas ou de outro teor qualquer.

À família as minhas condolências.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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