“O Picareto: Herança, História e Homenagem”, por Vera Dias António

Ti Manuel Fontes em Ortiga (Mação) a construir um barco picareto. Foto: Sérgio Durão

HERANÇA – Tive o prazer e a sorte, quando voltei a Mação e comecei a trabalhar, de conhecer lugares e pessoas que desconhecia, num espaço que dizia meu mas que, efetivamente, mal conhecia. Uma sequência de reportagens levou-me a conhecer duas pessoas que nas últimas semanas deram que falar e nos deram motivos para sorrir, (e chorar, de alegria, que a idade está a puxar-me para a pieguice).

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Falo do Sr. António Silva, ainda hoje produtor de Velas em Cardigos, e do Sr. Manuel Fontes, então ainda no ativo, o último Calafate de Ortiga, entretanto falecido. Foi, portanto, há perto de 20 anos que os conheci, aos dois.

Quando o artesanato e o artefacto destes dois Senhores e Mestres do Concelho de Mação foram selecionados como finalistas distritais do Concurso 7 Maravilhas da Cultura Popular o meu coração, batendo a dobrar, ficou dividido. Por um lado, o Reconhecimento da arte do Sr. António Silva, ainda no ativo. Por outro lado, a Homenagem ao Sr. Manuel Fontes e ao seu Picareto, póstuma, mas muito merecida.

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A própria votação ditou que o Picareto e a Herança de Manuel Fontes fossem apuradas a nível distrital. Isto quer dizer que nas semifinais do Concurso 7 Maravilhas da Cultura Popular, em agosto próximo, Mação, com o seu Picareto, representará o distrito de Santarém. Penso ser para todos os Maçaenses, ainda que mais ou menos ligados ao Rio, uma honra. E para todos os amantes do Tejo, creio!

HISTÓRIA – Quando há quase 20 anos conheci o Sr. Manuel Fontes no seu Estaleiro a maior memória é o brilho daqueles olhos, onde o Tejo espelhava permanentemente quando falava do seu trabalho. Sabia quantos já tinham sido os Calafates por aqui, explicou a sua arte e contou o que eram anos e anos a trabalhar com a obra preta.

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O Sr. Manuel Fontes começou a construir barcos aos 22 anos, foram mais de 300 os que fez sendo que precisava de 20 dias e 100 tábuas, de 4 pinheiros, para construir um Picareto.

Há muitas particularidades interessantes no processo de construção de um Picareto, desde a construção da estrutura, à colocação da estopa nas costuras do barco, entre as tábuas, com recurso a uma calafetadeira e um maço. O leito leva um revestimento de pano-cru e, por cima, uma camada de pez ficando como que encerado.

O Picareto tem dois leitos: o mais largo é o leito grande onde, em cima, se trabalham as redes e onde, por baixo, se dorme. O leito pequeno, que é o da proa, onde se mete a “bucha” para comer e os sapatos, pois no barco é obrigatório andar descalço.

Todas as peças do barco Picareto, interiores e exteriores, têm uma designação própria e “engraçada”, como o cágado do remo, a tábua das bufas, o buraco do trapeiro, ou os fiéis, entre outras.

Os Picaretos são botes assim denominados por terem a forma de uma picareta agrícola. Têm 6 metros de comprimento e são um barco de aresta, com fundo chato, podendo navegar com um palmo de água.

Referir que a forma de picareta deste bote “foi acontecendo” numa relação de necessidades e soluções entre pescadores e calafates, alguns também pescadores. Acontece que nesta parte do rio, com margens apertadas e leito de pedra áspera, formavam-se correntes de água muito fortes e a estrutura dos barcos teve que ser adaptada para romper com as fortes correntes, sem que a força destas fizesse levantar o barco pela proa.

Para estes problemas a solução surgiu com o Picareto.

Referir que, dada a especificidade do Picareto e o quanto as soluções técnicas de que se reveste para a navegação despertam nos estudiosos e conhecedores da construção naval, na Jornada “Memórias de Fragateiros”, realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em março de 2014 foi convidado o Calafate Manuel Pires Fontes, de Ortiga-Mação, para explicar a sua arte!

Os barcos Picaretos são parte da nossa identidade, a par do Rio Tejo, sendo considerados autênticas obras de arte por conjugarem a experiência dos pescadores com a criatividade dos seus construtores. A técnica da sua construção passou de geração em geração e assumem-se hoje como um dos maiores bens da nossa história, com a certeza do seu fim, com a extinção dos Calafates, que foram muitos. Ou talvez não, quem sabe?!

HOMENAGEM – Em Ortiga, no sul do Concelho de Mação, vai inaugurar o Núcleo Museológico, que será um Polo Museológico das artes da pesca tradicional no rio Tejo, onde o Picareto que em feliz hora a Câmara Municipal de Mação adquiriu ao Sr. Fontes, tem lugar de honra assumindo-se como peça principal. Que bom!

Manuel Fontes morreu aos 90 anos, em janeiro de 2017

Três anos depois [da sua morte] a sua obra ganha nova vida e navega “nas bocas do Mundo”. A concluir, não por palavras minhas, mas pelas do Mestre, um testemunho de 2016 recolhido pelo Ortiguense e Investigador João Filipe, em que Manuel Fontes nos conta “O que é o barco Picareto”:

“O seu nome deriva de ser do mesmo feitio da ferramenta usada pelos trabalhadores rurais, sendo agudo por um lado e largo pelo outro. Este tipo de barco tem mais de trezentos anos de existência e é muito usado na região de Ortiga e nalgumas terras a montante e só uma a jusante, pois eram terras de pescadores. A sua construção é feita de madeira de pinho bravo, tendo no seu esqueleto madeira de oliveira, de azinho e de freixo. O seu fundo é chato para nadar em águas baixas. Há dois tipos de barcos: o profissional e o amador. O primeiro é tapado, em cima, do meio para trás onde se trabalha com as redes. O segundo é todo livre e serve para o transporte de pessoas, animais e outros utensílios de uma margem para a outra e também serve pescadores furtivos. Ao ficar tapado com madeira leva nas juntas, na ligação das tábuas, um cordão de estopa para vedação e depois é breado com pez, isto é, uma resina extraída do pinheiro que depois de passar pela fábrica fica muito rijo. Metido este num caldeiro e derretido até ferver mistura-se, de seguida, com um produto que tem o nome de coaltar, muito líquido, extraído do crude do petróleo que só serve para amaciar o pez para que este fique com têmpera, nem macio nem rijo, para resistir ao inverno e ao verão. Esta mistura é sabedoria do calafate, depois o barco é todo breado com um escupeiro feito de pele com lã, ficando com cor preta própria para não se ver na escuridão da noite e não dificultar a pesca. É, assim, o princípio de vida do «Picareto»”.

Manuel Pires Fontes escreveu esta nota em maio de 2016 e terminou, reparem a dizer que “é assim o princípio de vida do Picareto”. Assim foi. Assim é. Assim continuará a ser!

Creio que cada pessoa que descobrir a história deste bote do Tejo, lhe estará a dar nova vida! Obrigado, Ti Fontes!

*Imagens e referências histórias: Câmara Municipal de Mação, Dr. João Filipe e Arlindo Consolado Marques.

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