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Sexta-feira, Maio 7, 2021

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“O perdão da Igreja a as liberdades individuais”, por Hália Santos

Sabes, apesar de ter tido uma educação Católica, cedo me afastei da prática religiosa. Dos episódios de infância, um dos que mais me ‘persegue’ é que a minha mãe nunca foi chamada à escola por minha causa, mas o mesmo já não pode dizer da catequese…

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Não achas isso estranho? Por que razão haveria uma criança de se portar bem na escola e ser irreverente na catequese? Já pensaste bem sobre esse teu comportamento de infância? A que atribuis isso? Não era falta de educação, certamente…

Ao longo da minha vida fui pensando nisso, sobretudo conforme fui amadurecendo. No início achava que era uma certa necessidade de dar nas vistas, questionando a autoridade de alguém que eu sentia que, apesar de eu ser minúscula, podia afrontar. Mais tarde comecei a achar que o que mais me motivava era a falta de uma explicação, de um enquadramento, de uma leitura para tudo o que era afirmado…

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Questionavas?

Claro que sim! O meu mau comportamento era simplesmente baseado num questionar sem fim. Porque o que eu queria era compreender… Parece que o momento em que tudo piorou foi quando eu perguntei, com nove ou dez anos, como poderia Maria ser virgem se tinha tido pelo menos um filho…

Sabes bem que as mensagens religiosas não podem ser lidas de forma linear. Certamente que percebes que a Fé não se explica, sente-se.

O problema residia precisamente nas mensagens! Aquilo que nos era dito era inquestionável. Parecia que nada se podia analisar. Era assim porque era assim. E foi isso que me afastou da religião. As pessoas que gostam de pensar gostam de ser desafiadas. Neste caso, gosto de católicos que explicam a sua Fé, que partilham as crenças sem extremismos, que compreendem os que têm muitas dúvidas e poucas certezas neste campo da religião.

Então gostas do Papa Francisco!

Claro que gosto! E gostei mesmo muito que ele tenha, há uns dias, permitido que todos os padres perdoem as mulheres que tenham abortado e que se sintam arrependidas. O papa Francisco já tomou algumas posições em relação às mulheres que me deixaram agradavelmente surpreendida. É um homem que acompanha os tempos, que percebe que as coisas estão a mudar.

O papa Francisco continua a condenar o aborto…

Claro que sim! Ninguém, no seu perfeito juízo, pode desvalorizar a prática do aborto. É sempre algo de muito violento, mas é sobretudo violento para quem o pratica…

Sabes que há mulheres que interrompem a gravidez sem sequer ponderar outras opções. Sabes que há mulheres que interrompem a gravidez simplesmente porque não lhes dá jeito ter um filho naquela altura…

Acreditas mesmo nisso? Acreditas que alguma mulher faz um aborto de ânimo leve? Eu não acredito! Não acredito que o fizessem quando era ilegal, não acredito que o façam desde que não é penalizado legalmente, como não acredito que o façam agora que é religiosamente ‘perdoável’. Consegues imaginar a violência física e psicológica que implica um aborto sobre a mulher que o pratica?

Não, não consigo imaginar… E não tenho dúvidas de que se trata de uma das decisões mais difíceis (se não mesmo a mais difícil) que uma mulher possa ter que tomar ao longo a sua vida.

Por isso, não sendo católica, fico feliz por saber que as mulheres católicas podem agora ter este perdão. Sendo mulheres de Fé, imagino a importância deste conforto superior que lhes é dado sobre um ato que certamente as destruiu… São estes gestos que mostram a grandeza da religião. Esta capacidade de perdoar é que eleva as pessoas.

Percebo-te. Mas, na verdade, terão as mulheres que ser perdoadas por fazerem uma opção sobre a sua vida? Não estaremos a interferir sobre uma liberdade essencial de alguém?

É evidente que cada mulher é que sabe de si, da sua vida, dos filhos que quer e que não quer ter! Não tenho a mais pequena dúvida sobre o direito que cada mulher tem de fazer as opções que tenham a ver com tudo isso. Mas reconheço que, para as mulheres católicas, esta possibilidade de perdão seja importante.

Perdoa-se se houver arrependimento. E não há mulheres católicas que tenham abortado em plena consciência, sem se arrependerem de o ter feito?

Estás a fazer o que eu fazia na catequese? Questionar para perceber? Pode ser que, quase 40 anos depois, encontres respostas e te reconcilies com a Igreja Católica, como o papa deseja que as mulheres católicas que abortaram se reconciliem com o Pai…

Huuummm…

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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