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“O penduricalho”, por António Matias Coelho

Chamemos-lhe assim: o penduricalho. O nome é feio, eu sei. Mas coisas feias não merecem nomes bonitos. As modas são, por definição, episódicas. E, em muitos casos, fúteis. Ou mesmo pirosas. É o caso dos penduricalhos que, como uma praga, andam sendo espalhados pelo país todo, nas entradas das cidades e das vilas. De repente, muita gente com influência ou com poder de decisão achou que a moda era gira – e vá disto… Não há rotunda ou jardim ou parque que não se afigurem apropriados para neles se plantar um penduricalho.

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Já não bastavam outras modas que foram alastrando por aí, cada qual procurando, ao abrigo delas, fazer mais e maior, como são os casos dos passadiços e dos baloiços. Quase não há terra que se preze que não tenha o seu passadiçozinho. Ou o seu baloiçozão. E, agora, para além deles, para completar a trilogia, também o seu penduricalho.

Foto: blog As Fontes da Minha Vida

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Chega uma pessoa a uma povoação e esbarra numa coisa, por norma de grande dimensão e muito duvidoso gosto, que lhe mete pelos olhos dentro o nome da terra onde vai entrar. Às vezes, sendo o nome pequeno, a coisa aparenta ser mais discreta. Mas há outras em que é um suplício, ou porque tem o sítio um nome comprido ou porque o artista que concebeu o penduricalho entendeu dar às letras um tamanho avantajado.

O penduricalho, como sugere o nome que lhe dou, é uma coisa pendurada. Bem sei que pendurar é suspender e esta coisa o que está, em rigor, é espetada. Mas para mim é penduricalho porque simplesmente está ali a mais: não faz parte, não se integra, não tem jeito.

O sinal para a moda, se calhar, foi dado pela própria capital do país que resolveu espetar na rotunda do relógio, em frente de quem chega do aeroporto, um gigantesco «Bem-vindo a Lisboa» e o correspondente «Welcome to Lisboa». Que saudades do tempo em que aquela rotunda recebia os visitantes com um simpático relógio de flores, agradável de ver e sugestivo do bom gosto e da beleza que se iria encontrar no interior da cidade… Agora, perante a insignificância inexpressiva do relogiozinho de pulso que afivelaram à pedra e a correnteza branca das letras que se esforçam por nos dar as boas-vindas, confesso que a vontade é dar a volta à rotunda e tomar de regresso o caminho por onde se chegou.

Foto: ab-ctyimmobilien.de

As imagens que ilustram este texto são de povoações mais ou menos distantes da nossa região. Mas não é porque por cá não haja penduricalhos… É o que não falta, como todos podemos facilmente comprovar. Já que tenho de mostrar coisas feias, que ao menos não dê imerecida publicidade às que andam plantando na nossa terra… 

Os penduricalhos são muito desengraçados. Por muito bonita que pareça a rotunda onde está, por muito lindo que seja o jardim onde o expuseram, o penduricalho é um estranho, um desajustado, um maljeitoso. Há de haver um dia em que, pelo país fora, se fará uma geral e muito louvável limpeza dos penduricalhos. Nesse dia, as nossas vilas e cidades passarão a ter entradas com muito mais dignidade.

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António Matias Coelho
É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou. Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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