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Sexta-feira, Setembro 17, 2021

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“O Paul da Trava de Vale de Cavalos”, por António Matias Coelho

Quem sobe ao Alto das Obras ou a outro qualquer ponto do outeiro onde Vale de Cavalos se ergue, o que tem na frente dos olhos é a imensidão da lezíria, terra larga, rasa e rica, das mais produtivas que temos em Portugal.

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Daqui para o lado do Tejo, estendendo-se à nossa mão direita até às portas da Chamusca, chama-se este imenso campo Paul da Trava.

É deveras antigo este nome Trava, quase tanto como Portugal, e diferentes são as explicações sobre a sua obscura origem. Mas duas coisas parecem certas: que foi este chão paul, claro está, e que nele sempre pastaram cavalos, como a memória guarda e a aldeia traz no nome por que ela própria se conhece.

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Paul da Trava no painel de azulejos do abrigo de autocarros de Vale de Cavalos Foto: Foto Romão

É do Tejo que deriva a riqueza destas terras da lezíria porque as cheias dele trazem os nutrientes que fazem a fertilidade delas. Antes de haver barragens, que são invenções recentes (1), as cheias chegavam mais frequentemente, sempre que chovia muito em pouco tempo e o largo Tejo ficava estreito para tamanha quantidade de água. Por vezes, como ainda acontece agora, as águas permanecem sobre o campo por vários dias ou mesmo semanas e sendo isso causa de transtorno e de impossibilidade de trabalhar para quem vive do campo, é fator de melhoria porque mata a bicharada, lava a terra e deixa-a enriquecida para a cultura que se há de fazer a seguir.

Apesar de assoreado, o Tejo do nosso tempo depressa absorve a água que dele saiu, mas em épocas mais recuadas, não tendo havido quaisquer obras de regularização do rio e dos seus afluentes, a água por aí ficava, quedando-se nos pontos mais baixos e formando pântanos. Dos lados de Ulme aqui chegava a ribeira que, não sendo regularizada antes do século XIX, debitava de inverno grande quantidade de água que se espalhava por aí, correndo por onde podia, se pudesse, ou ficando, parada, à espera de poder seguir o seu desordenado curso. Por isso, durante centenas de anos e até há um século e meio apenas, estas terras do campo que hoje conhecemos tão ricas e sempre cultivadas, eram um imenso paul – o Paul da Trava.

Dizem os dicionários que trava é uma peia e toda a gente ligada ao campo e aos animais bem sabe que peia é um baraço, uma correia ou um grilhão com que se prendem as patas das bestas, com que se peiam os animais, como os cavalos por exemplo, para que andem mas não fujam. O município de Benavente, vizinho ribatejano, que é também terra de campo e de muito antiga criação de cavalos, ostenta mesmo no seu brasão de armas duas travas de vermelho. Pode muito bem estar nestas peias a origem do nome que tem o Paul da Trava, por ser, desde tempos bem remotos, lugar onde cresceram poldros e se criaram cavalos que, em certas circunstâncias, havia que pear com elas.

Brasão de armas de Benavente ostentando duas travas de vermelho

Mas há várias outras possíveis explicações para a designação do paul, como a de que possa estar relacionado com um antigo lugar chamado Tavra, mencionado num documento de finais do século XIII, ainda na Idade Média, podendo ser que o dito lugar de Tavra fosse onde seria muito mais tarde, mais perto de nós, a quinta das Trevas, à entrada da Chamusca, onde até ao século passado existiu uma ermida e, em mais remotas épocas, um pequeno cemitério.

Esse documento, datado a 18 dias de abril de 1333 da era de César que então se usava – 1295 da era cristã que nos regula agora – é uma doação feita por D. Martinho, amo do infante D. Afonso, futuro D. Afonso IV, à Ordem do Templo de três courelas de terra com dezassete hastins de tamanho, no termo de Santarém a que tudo isto então pertencia, passado num logo que chamão tavra (2). Tenha ou não este lugar de Tavra relação com a quinta das Trevas, tê-lo-á com muita probabilidade com o Paul da Trava. E se assim for, como parece que seja, quer isto dizer que estamos a falar de um nome com mais de setecentos anos. De resto, vários outros documentos do mesmo século XIII, o mais antigo dos quais datado de 1260 (3), testemunham doações e aforamentos de terras no Paul da Trava, numa época em que, mesmo antes do reinado do Lavrador, que nasceu no ano seguinte, se procurava já secar pântanos e aproveitar outras terras maninhas para acudir à fome do povo.

Sem que se possa estabelecer qualquer relação entre uma coisa e a outra, que dificilmente existirá, não se pode contudo deixar de mencionar a coincidência de ter existido na Galiza, nos séculos anteriores, XI e XII, uma poderosa família dos Trava que gozou de grande poder económico e político também no norte e centro do que viria a ser Portugal. O mais conhecido dos seus membros, Fernão Peres de Trava, senhor do condado de Trava, foi um poderoso aliado da nossa D. Teresa do condado Portucalense, mãe de D. Afonso Henriques. Chegou a governar as regiões do Porto e de Coimbra em resultado de uma aliança que estabeleceu com a dita D. Teresa, que começou por ser militar e acabou em relação amorosa. O nosso primeiro rei, que nunca gostou do galego, arrumou a questão vencendo a mãe e o amante na célebre batalha de S. Mamede e assim nasceu Portugal.

Poderão não ter os Trava da Galiza nada a ver com o Paul da Trava de Vale de Cavalos, mas é interessante verificar que no escudo de armas da família o que se exibe são cinco travas de ouro. Como as vermelhas do brasão de Benavente. Como as que sempre pearam os cavalos destas terras do paul da borda do Tejo.

Por serem pantanosas, desde muito cedo reis, senhores e arrendatários fizeram esforços para secar estas terras, abrindo valas e tentando encaminhar as águas para o leito do grande rio. Mas a natureza era mais forte do que a rudimentar técnica dos homens e em quase todos os invernos voltavam as cheias ou as águas desordenadas da ribeira de Ulme que não tinham sítio certo para desaguar e repunham pântanos por onde calhava. O problema só se resolveria com as obras de regularização da ribeira, realizadas no século XIX.

Apesar de insalubres, por serem fonte de multiplicação de todo o género de microrganismos causadores de doenças, estes terrenos, dada a sua extraordinária fertilidade, foram naturalmente valorizados, muitas vezes cobiçados e, como se compreende, objeto de inúmeras doações, arrendamentos, aforamentos e emprazamentos ao longo dos séculos. Mas também tiveram épocas menos brilhantes, como aconteceu no início do século XV quando D. João I, em 1432, doou em sesmaria a D. Fernando de Castro, governador da casa do infante D. Henrique, o Paul da Trava «que fora em outro tempo lavrado e aproveitado e que havia quarenta anos e mais que era posto em danificamento» (4).

Como aconteceu com muitas outras terras dos concelhos de Ulme e da Chamusca, o Paul da Trava passou a incorporar o património da Casa das Senhoras Rainhas, fundada pelo rei D. João IV após a restauração da independência no século XVII. Um século depois, em 1759, Francisco José de Andrade, na sua Descripção da Chamusca, entre «as pessoas mais principais» da vila do seu tempo inclui «Constantino Barreto de Sousa, moço fidalgo da Casa de Sua Majestade e provedor do Paul da Trave» (5) – assim mesmo, Trave, porque isto dos nomes, como tanta coisa na vida, nem sempre é certo nem rigoroso.

O liberalismo oitocentista, que extinguiu a Casa das Rainhas, juntou o Paul da Trava ao conjunto dos bens nacionais que seriam vendidos em hasta pública. De então para cá, como tantas vezes tinha acontecido antes, estas terras fertilíssimas mudaram muitas vezes de mãos e atualmente estão retalhadas em inúmeras pequenas e médias propriedades.

Memória dos cavalos do Paul da Trava no brasão da freguesia

O Paul da Trava faz parte do imaginário de Vale de Cavalos. Está-lhe na essência. Não terá sido por acaso que foi escolhido, entre tantos outros motivos possíveis, para figurar no painel de azulejos do único abrigo de autocarro construído na freguesia. E dá até, desde 1999, nome ao Grupo Etnográfico «Paul de Trava» (6), criado no seio da Associação para a Defesa do Património Etnográfico e Cultural, um grupo de folclore que leva a música, o trajo e as tradições de Vale de Cavalos a todo o país e, através do nome que adotou, as fundas memórias do Paul da Trava. O paul das terras ricas e dos garbosos cavalos que elas generosamente alimentaram (7).

(1) As primeiras grandes barragens construídas na bacia do Tejo em território português, com influência sobre as cheias nos campos da Chamusca, foram as do Castelo do Bode e de Belver, inauguradas em 1951 e 1952, respetivamente.
(2) Isto é, num lugar a que chamam Tavra. O documento original vem transcrito na revista Chamusca Nova, n.º 7, publicada na Chamusca em 1930, a p. 130-131.
(3) O mais antigo documento conhecido em que surge o nome Trava, datado de 1260, testemunha que os gafos, como então se chamava aos leprosos, dispunham de uma almuinha, nome de origem árabe para as hortas, no campo de Trava. In Maria Ângela Beirante, Santarém Medieval, p. 126.
(4) Cf. o trabalho do autor Breve notícia da vila de Ulme…, publicado pela Câmara Municipal da Chamusca em 1985, p. 3. Cf. tb. Humberto Baquero Moreno, «O papel da diplomacia portuguesa no tratado de Tordesilhas», in Revista da Faculdade de Letras, p. 142 (http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2025.pdf).
(5) Francisco José de Andrade, Descripção da Chamusca…, [1759], Garrido, Artes Gráficas, 1997, p. [33].
(6) Trabalho escolar, sem mais referências, da autoria de quatro jovens valcavalenses – Ana Carapinha, Ana Costa, Rita Santos e Suzana Pardal – existente na Biblioteca Municipal da Chamusca Ruy Gomes da Silva: cota 908(469.421.17)CHM.
(7) Este texto integrou originalmente o livro do autor Os Abrigos da Memória, publicado pela Câmara Municipal da Chamusca em 2012.

É ribatejano. De Salvaterra, onde nasceu e cresceu. Da Chamusca onde foi professor de História durante mais de 30 anos. Da Golegã, onde vive há quase outros tantos. E de Constância, a que vem dedicando, há não menos tempo, a sua atenção e o seu trabalho, nas áreas da história, da cultura, do património, do turismo, da memória de Camões, da comunicação, da divulgação, da promoção. É o criador do epíteto Constância, Vila Poema, lançado em 1990 e que o tempo consagrou.
Escreve no mediotejo.net na primeira quarta-feira de cada mês.

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