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“O pastor da minha aldeia”, por Berta Silva Lopes

Depois do incêndio fez-se a festa. Como prometido, foi sacrificado o borrego e o petisco juntou à volta da mesa a meia dúzia de amigos que ajudaram o pastor da minha aldeia a salvar todos os seus animais. Naquele fim de tarde de agosto, o Mário voltou para casa de lágrimas nos olhos e desalento na alma. Sozinho e incapaz de resistir ao diabo que aí vinha escolheu regressar a casa, na aldeia, e aí proteger o que fosse possível. Despediu-se do rebanho e meteu-se na carrinha pela estrada de terra batida.

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Encontrei-o, no ano passado, pouco dias após o incêndio que pintou de negro toda esta região, sentado numa pedra a olhar para o seu rebanho. Ainda estávamos a uma boa distância um do outro quando me cumprimentou, me ofereceu água fresca, que tinha ali guardada no palheiro, e um cacho de uvas que ainda a amadurecer já se comiam bem. Era agosto, estava calor e tinha saído de casa sem água. Aceitei tudo e ainda aproveitei para mergulhar os pés num antigo masseirão de pedra à entrada do curral.

Contou-me dos fardos de palha que já tinha recebido para dar de comer aos bichos, dos que haveriam de chegar e do petisco que tinha prometido à malta nova que o tinha convencido a regressar ao curral para juntos enfrentarem o diabo do lume. Tinha brilho nos olhos e esperança na alma.

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Reconheceu-me ainda eu vinha longe e perguntou-me logo se tinha ido ver como ficaram uns terrenos de família após o diabo que por ali tinha passado. Há largos anos que ali não ia, é verdade, e estava meio perdida; aproveitei as explicações e ouvi o desabafo.

Vários hectares de antigas hortas invadidos por pinhal, mato e silvas. Eucaliptos plantados em distintas zonas. Uma ou outra vinha e apenas dois terrenos com culturas agrícolas. Reconheci muito pouco do Carvalhal da minha infância.

Já ninguém quer saber disto, diz-me o Mário, o último pastor da minha aldeia. Quinze dias depois do fogo, sinto-lhe a força mais do que a resignação. Sei que estudou e podia ter sido bancário – é estória antiga na minha aldeia – mas escolheu a vida dura do campo.

Tenho para mim que o Mário morreu e renasceu naquele dia de agosto. Foram os amigos, e o verdadeiro e intocável sentido de comunidade, que lhe valeram.

Dizem que a paisagem molda o caráter e é bem verdade. A minha aldeia, como ele, não se resignou, e começa agora a renascer. Nenhuma desgraça dura para sempre.

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Berta Silva Lopes
Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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