“O paradigma dos afectos”, por Adelino Correia-Pires

Vasco e Benedita, os meus netos | Foto: Adelino Correia Pires

Setembro é mês de mudança. Muda-se de escola, muda-se de emprego e por vezes muda-se de vida também.

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Para muitas crianças é o seu primeiro contacto com a escolinha, o colégio ou a nova ama. Resistem o que podem agarradas às saias das mães, até se agarrarem a outros meninos, caloiros de uma nova vida, ainda sem praxes, mas já com o tic-tac a marcar o tempo. E as mães lá tentam resistir, mordendo o lábio e olhando de soslaio, para que as lágrimas escorram invisíveis.

No entreolhar entre o filho que fica e a mãe que parte, é o coração que sente, são os olhos que falam. E não precisam de se fazer ouvir. Nos primeiros dias, não há analgésico que alivie a dor da ausência, ainda que curta. Setembro, é sempre tempo em que as mães, com os pés no emprego e a cabeça no recreio, suspiram para que o tempo passe e que a tarde chegue.

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Apesar de tudo, felizes dos que apenas sofrem desta quase normalidade. Pior é, quando tudo se passa do avesso. Quando são os pais que tentam resistir, agarrados às calças dos filhos. Porque, obrigados a mudar de vida,  tiveram que mudar de emprego, de escola, de país.

Uma vez mais, são os corações que sentem. Mas não podem os olhos continuar a falar, porque o skype atenua, mas não substitui.

Que país é este que, tendo quase tudo, nos deixa quase nada?

Muito se fala da necessidade de se encontrar um novo paradigma. Tenho para mim, que não há futuro nem sustentabilidade sem o paradigma dos afectos. E o mais verdadeiro é sempre, mas sempre, entre pais e filhos.

A diferença entre pais e país é muito mais que um acento, ainda que agudo. A diferença é bem mais grave e acentuada.

E se os pais precisam de um país que os mereça, o país precisa de muitos pais que o prossigam. As crianças agradecem, mesmo que agarradas às saias da mãe.

 

Texto escrito em Setembro 2014, publicado no Jornal Torrejano e no livro “Crónicas com Preguiça”. Poderia ter sido hoje.

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