O Palacete “Casa Grande ou dos Almeidas – Sardoal”

Falemos então da conhecida Casa Grande ou dos Almeidas, situada na Avenida Luís de Camões n.º9,11,13 e 15 na Vila de Sardoal. Trata-se de um edifício classificado pelo IPPAR como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 135/74 de 21 de Agosto de 1974. A sua construção remonta aos finais do século XVII, princípios do século XVIII, tendo sofrido posteriormente alterações e até reedificação, sendo uma das grandes referências do Património arquitectónico da vila de Sardoal.

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Tendo sido residência da família Moura Mendonça, da principal nobreza do Sardoal, foi edificada a pedido de D. Gaspar Barata de Mendonça, Primeiro Arcebispo da Baía e Primaz do Brasil, o qual terá falecido em 1686, não devendo, por isso, ter assistido à sua conclusão.

CASA_GRANDEÉ de referir ainda que a génese da designação “dos Almeidas” advém dos Condes de Abrantes e senhores de Sardoal durante cerca de dois séculos; D. João de Almeida, pai de D. Lopo de Almeida, designação que perdura até à actualidade.

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Nos anos 70 do século passado, a Câmara Municipal adquiriu parte do imóvel, do lado da Capela de Nossa Senhora do Carmo. Em meados da década de 80, adquiriu as cavalariças; na década de 90 a parte da Biblioteca e, em 2000 adquiriu o corpo central, sendo agora proprietária da totalidade do edifício.

De referir também que a Casa Grande ou dos Almeidas é um solar urbano de arquitectura barroca, seguindo por isso uma tipologia de “casa comprida”, com extenso alçado principal alinhado, tendo no extremo norte uma capela, de Nossa Senhora do Carmo. É constituida por planta longitudinal, estando enquadrada de forma harmoniosa mesmo na rua principal da Vila, ao lado do edifício da Câmara Municipal, acompanhando o declive da via de circulação.

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Foto Casa Grande 3Em termos de fachada principal, esta é formada por três corpos distintos de dois andares, separados por pilastras e rematados por cimalha. No corpo menor, da esquerda, encontra-se, actualmente a Biblioteca Municipal, sendo que o Corpo Principal, encimado por frontão triangular e com balcão curvo no primeiro andar, está desabitado e no último corpo funcionam atualmente alguns serviços da Câmara e é também lugar da Capela de Nossa Senhora do Carmo.

Foto Casa Grande 4Mas seria de todo injusto falarmos desta magnífica obra de arquitectura Sardoalense sem falar, ainda que resumidamente, do seu empreendedor e compreender melhor quem foi esta figura proeminente no século XVII no Sardoal: D. Gaspar Barata de Mendonça, nascido no Sardoal a 3 de Agosto do ano de 1627, filho de Pedro Lopes Barata e de sua mulher D. Antónia de Moura. Faleceu também no Sardoal, a 11 de Dezembro de 1676 e está sepultado num interessante mausoléu, do lado da Epístola, na capela-mor da Igreja de Santa Maria da Caridade.

foto casa grande 5Tendo seguido a Carreira de Direito e sido um aluno notável, depressa a magistratura o desmotivou e foi para o seminário. Ordenado Padre e por seu pedido tomou conta da paróquia de S. João de Gestaçô, para os lados do Porto, posteriormente transferido para Lisboa para tomar conta do priorado de Santa Engrácia, onde depressa a sua personalidade invulgar levou-o a desempenhar cargos importantes na cúria diocesana: Desembargador da Relação Eclesiástica de Lisboa, Juiz dos Casamentos e Relator de Direito Canónico.

Passado algum tempo foi também nomeado Governador do Bispado de Miranda e o Papa Inocencio XI, nomeou-o 1º Arcebispo da Baía, no Brasil.

A sua situação de saúde não lhe permitiu a ida para o Brasil, pelo que teve de governar o seu arcebispado por delegação da sua livre escolha e confiança pessoal.

Pelo que se sabe a ultima geração da família Moura Mendonça morreu sem deixar descendentes, passando deste modo a Casa Grande para o Padre Gregório Pereira Tavares, cujos herdeiro a vieram a vender.

Relativamente à caracterização da arquitectura deste imponente palacete, consideramos que é efetivamente na fachada principal que reside o principal valor artístico deste imóvel. Denota-se, deste modo, na fachada principal um domínio das linhas e das superfícies curvas, agitadas, complexas e dinâmicas, onde o jogo plástico e a ilusão cenográfica são exaltados nas falsas portas-janelas, disfarçadas pela pintura, uma tendência barroca de organizar a estrutura arquitectónica, chamando à atenção a sua imponência, destacando-se então como marco arquitectónico das redondezas, recorrendo da mesma forma a um determinado efeito surpresa, de ilusão e até teatral. No fundo é uma monumentalidade considerável, com o recurso ao uso da perspectiva e dos vários pontos de vista.

O núcleo central é encimado por u. frontão triangular, com urnas nos vértices e no acrotéreo. O tímpano albergava o brasão da família, que entretanto ruiu. A fachada é rasgada por uma porta de verga redonda, de frontão de ponta interrompida, ladeada por portas-janelas com balcão curvo. No piso térreo a porta axial de arco deprimido, é ladeada por janelas, protegidas por gradil curvo de ferro, chamadas grades de baloiço. O corpo seguinte, de maiores dimensões, é encimado por águas furtadas, com janela de guilhotina. O 1º piso é rasgado simetricamente por portas-janelas de sacada em arco abatido e balcão e o piso térreo conta com portas de verga simetricamente colocadas, existindo uma porta cocheira à esquerda. Todos os balcões são protegidos por gradis em ferro, com motivos florais e com enrolamentos.

Sobre a fachada posterior da casa, resta-nos dizer que esta é constituída por diversos volumes assimétricos, denotando-se um certo desfasamento com o cuidado revelado pela fachada principal e até um certo descuido pela anterior. A sua estrutura é construída em alvenaria de pedra aparelhada, rebocada e caiada, com as molduras e os frontões em cantaria de pedra calcária.

No que toca ao seu interior, o piso do átrio é constituído por um pouco comum empedrado com pequenos seixos, enquanto o tecto é construído por uma elegante simetria de caixotões de madeira de castanho. Ao avançarmos deparamo-nos com um corpo elevado comunicando com o primeiro salão, com clarabóia, que ilumina naturalmente o acesso ao 1º andar, uma escadaria de comunicação ladeada por belos azulejos do século XVII e um gradil em ferro.

No Salão Nobre encontramos uma série de apontamentos artísticos que, apesar de se encontrarem em avançado estado de degradação, são registos decorativos significativos, que depressa levam o nosso olhar a se desviar para o rodapé em azulejo decorativo que circunda a sala, as molduras dos vãos existentes em madeira policroma fingidas em harmonia com os próprios elementos azulejares, o tecto executado num misto de sancas e emoldurados com fingidos em madeira e o brasão em pintura sobre tela de D. Gaspar Barata de Mendonça, Primeiro Arcebispo da Baía e Primaz do Brasil.

No seguimento da frontaria do 1 piso e ladeando o Salão Nobre, existem ainda duas salas menores anexas, onde assinalamos a existência de dois tectos policromados de menores dimensões em estilo de “masseira”.

No seguimento da análise do Corpo Central do edifício, destacamos o salão do pátio com a existência de um tecto do qual apenas subsiste a forma advinda da sua estrutura, muito semelhante ao estilo do tecto do Salão Nobre, com a importância de determinados compartimentos do edificado do Corpo Central; de referir também  a zona da Cozinha e da antiga Cisterna, como elementos arquitetónicos e artísticos que deslumbram pelo conceito e grandiosidade.

Ainda hoje, ao subir a escadaria que dá acesso ao primeiro andar, e ao abrir as portas do salão nobre, sente-se o ambiente palaciano da época, sente-se o frenesim dos empregados e a correria de uma ou outra criança que por ali passou. Sentamo-nos na varanda sul e inspiram-nos os aromas delicados das roseiras; lançamos o olhar sobre o vale e sentimos que o Sardoal tem a magia das donzelas dos contos de fadas e o charme dos lugares com História.

Tendo a preservação do património como horizonte e levando a linha de pensamento para o sentido da vida como um fim de si mesmo, podemos atestar que, também a arte, é como um bem acabado e efémero, que nasce da criação e como tendência humana, também ela envelhece.

 

Texto: João Soares, Luís Marques e Maria Rocha

Técnicos superiores de conservação e restauro

Fotos: Luís Marques

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