“O Outono”, por Armando Fernandes

Outono começa hoje e mudança da hora é no final de outubro. Foto: DR

O tempo presente fica o tempo passado ouvindo as folhas a rastejarem no caminho, muitas empurradas pelo vento entram pelas frestas das casas, enquanto as Mestras cozinheiras imitam as Avós cozendo marmelos dourados para fazerem marmelada. É o Outono.

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O tempo futuro mostra-se na paisagem de campos carecas após a colheita de cereais, esperam novos transplantes de sementes geradoras de fartas cabeleiras de trigo e milho nos terrenos de maior fertilidade e de esparsos cabelos de centeio nos campos pobres nas encostas dos montes.

Estendem-se lençóis e mantas nas eiras das aldeias onde ainda vivem mulheres e homens capazes de colocarem figos a receberem os raios de sol baixo apostado em cegar momentaneamente os condutores de carcomidas e cambaleantes carroças, de tractores cujos atrelados transportam uvas frementes, de compridos camiões fechados, recheados de maçarocas de milho. É o Outono.

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As vindimas iniciam-se noite cerrada, amanhece, o calor de Outono sem pressão, através do ar vibrante, varre as folhas mortas sem sepultura nas frinchas, nas frestas, nos beirais.

Nos covais anónimos, nos jazigos de granito e de mármore, dos cemitérios urbanos e rústicos, repousam eternamente os ancestrais parcamente recordados no dia de Finados. No dia 2 de Novembro. É o Outono.

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Nos jardins circundantes das casas esvoaçam sem saírem do sítio os crisântemos poupados ao arranjo das sepulturas, e caem pétalas das rosas cercadas de arbustos, envolventes, a ocultarem-nas dos olhares cultos, amigos de as contemplarem vagarosamente. É o Outono.

Prova-se o vinho novo, ajusta-se rapidamente ao palato, bebe-se aconchegando castanhas assadas, cozidas, fritas, figos sumarentos, secos, nozes, repete-se o beber, comem-se talhadas de melão tardio, bifes de pêssegos opulentos, nédias rodelas de maçãs e peras, bagos dulcíssimos a espraiarem-se em paladar, rosados, de romãs. Penduram-se cachos de uvas nos forros das salas. As maçãs repousam no meio do cereal guardado em tulhas de boa madeira. As casas perfumam-se É o Outono.

O vinho alegra os corações, abre os lábios, solta as línguas, o frenesim desinquieta instintos de medo que descobre segredos enganchados na memória. Lá fora os cães ladram à lua, os bichos vozeiam ruídos, as aves esvoaçam e piam a anunciar a hora de abandonar a adega e recolher a casa, entrar cama já aberta. É o Outono.

As árvores desnudam-se, a rotação do calendário muda a hora, palmilham-se quilómetros em busca não do tempo perdido, sim do transe da caça, sucedem-se os ágapes familiares resultantes da matança do porco, abre-se a arca da memória no decorrer dos serões trabalhosos do encher, atar e pôr ao fumeiro. É o Outono.

É o Outono possível num Mundo em estridente normalização a esbater, quando não a fazer desaparecer a sazão de produtos, de comeres, de beberes. E, de cheiros, de rugosidades, de tactos. Dos afectos.

 

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