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“O nome que se dá a uma filha”, por Hália Santos

Estou mesmo muito triste… Então não é que, entre todas as meninas que nasceram em Portugal no ano passado, nem uma única recebeu o meu nome. Sinto-me um bicho raro! Nem uma Hália. Três Álias. Uma Alia. Uma Aliah. Uma Aliya. Duas Aliyha. Até uma Talia. Uma Hélia e três Dálias, os nomes que tantas vezes me chamaram.

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Não tens mesmo mais nada em que pensar? Convenhamos que esse teu pensamento é um bocado egocêntrico…

Pois é! Mas esta coisa de se ter um nome diferente, desconhecido de muita gente, é uma espécie de imagem de marca. Na verdade, gosto que assim seja. Detesto quando alguém me diz que conhece outra Hália. Com agá, ainda por cima. Sim, porque o agá faz toda a diferença.

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Mas o teu pai, quando te registou, nem queria o agá. Foi obrigado.

Ainda bem, para o meu lado! Mas gostava que os senhores que atualmente mandam na lista oficial de nomes portugueses fossem mais rigorosos.

Sabes bem qual é a regra: pais portugueses só podem dar um nome ao filho ou filha que conste da lista oficial; pai ou mãe estrangeira podem dar o nome que quiserem. E, a partir daí, esse nome passa a ser português.

Dizes tu! Cá para mim passa a ser uma aberração permitida por lei. Mas já lá vamos às aberrações. Egocentrismo à parte, gostava mesmo era de falar das Marias, que tantas há nesta terra. Foi o nome de menina mais escolhido. Enfim, um nome que ninguém queria ter há vinte anos, agora é uma moda que não desgruda. As miúdas já não são Marias. São muito mais o apelido, ou a combinação do nome próprio com o apelido, do que Marias.

E qual é o teu problema com isso? Também escolheste um nome para a tua filha que muitos acham estranho…

Verdade, mas a minha principal ideia era a da diferença. Mesmo que gostasse muito do nome Maria, jamais o daria à minha filha. Assim, goste-se ou deteste-se, no seu grupo de amigos e conhecidos dificilmente aparecerá outra rapariga ou mulher com o mesmo nome. Isso permite que se distinga.

Talvez faça mais sentido que as pessoas se distingam por algo que fazem e não pelos nomes que outros escolheram para elas.

Talvez. Mas o nome é um cartão de visita. Que começa por ser diferenciador ou banal. E quando o bonito se torna banal, cá, na minha perspetiva, deixa de ser bonito. Por exemplo, mesmo que sejam filhas de pais estrangeiros, acho que a Mariah e a Marya que foram registadas em 2016, em Portugal, vão ter sempre um elemento distintivo: o nome.

Está bem, mas certamente que percebes que a escolha que muitos pais e mães fazem do nome Maria também tem muito a ver com a identidade nacional!

Claro que sim! Mas por isso mesmo é que agora vou fazer campanha pelos pais que escolheram nomes tradicionais. No ano passado houve umas quantas meninas que, quando crescerem, certamente se vão sentir especiais. Porque têm nomes nossos e porque foram as únicas a ter o seu nome no ano em que nasceram. Uma Agustina. Uma Açucena. Uma Domingas. Uma Judite. Uma Desidéria. Uma Deolinda. Uma Preciosa. Uma Vitória. Uma Vitorina. Uma Octávia. Uma Brígida. Uma Ermelinda. Uma Almerinda. Uma Severina. Uma Felícia. Uma Casimira. Uma Virgínia. Uma Augusta. Uma Laurinda. Uma Noémia.

Provavelmente herdaram nomes das avós.

Que seja! Mas continua sem haver Arcelindas, como a minha avó foi. E no ano passado só houve duas Florindas, como a minha outra avó. Mas a minha avó Emília (sim, que eu tive três avós) está com mais sorte: foram registadas 52 crianças em 2016 com o mesmo nome. O nome da minha mãe, tão popular na época, só conseguiu ficar em quatro meninas: Fernanda.

Bom, na verdade, a tua mãe é Maria, Maria Fernanda…

Pois! Essa é outra coisa gira das Marias. Nas mulheres acima dos 40, há imensas Marias, mas não são Marias. Não era fino… Eram Fernanda, Conceição, Lurdes, Carmo, Jesus… Como havia tanta Maria na terra, usavam os segundos nomes.

Agora fino é ter só um nome e, de preferência, Maria!

Mas sabes uma coisa gira? Ainda se registaram 20 Vanessas. Nesta coisa dos nomes lembro-me sempre do António Variações e da Maria Albertina que foi nessa de chamar Vanessa à sua menina…

Já lá vai o tempo.

Verdade! Agora há outras inspirações. Toma nota! Uma Âmbar. Uma Frida. Uma Minerva. Uma Lisbon. Uma Vida. Duas Cristal. Três Pandora. Quatro Amoras. Quatro Sol. Quatro Divas. Cinco Floras. Seis Pérolas. Sete Almas. Nove Oceanas. Nove Luas. Nove Conchas. Quinze Estrelas.

Muito bom!!! Andaste mesmo a estudar a lista dos nomes registados em 2016.

Confesso que fiquei só pelos nomes das raparigas, porque a conversa já vai longa.

Então e as aberrações?

Mesmo que venham de outras culturas, passarem a ser nomes portugueses é uma aberração! Toma lá só alguns exemplos. Gurleen. Lweji. Anabia. Otchali. Lovleen. Orange. Zoleta. Bidushi. Maika. Pixie. Rio. Buia. Floy. Varvâra. Aahana. Anusrita.

E mais?

Meninas com nome de menino. Uma menina chamada Mateus. Outra chamada José. E outra chamada Joaquim. Se calhar, herdaram os nomes dos avôs! E também há os diminutivos: uma Joaninha e uma Martinha. Assim mesmo.

Adoro!

Também adoras nomes que deveriam ter acento e não têm? Eugenia? Gloria? Claudia? Silvia? Patricia? Foi registada uma de cada…

Tens que reconhecer que serão únicas, pela falta de acento!!!

Lá estás tu, sempre a embirrar. Para veres se concordas comigo, quando digo que este assunto deveria ser discutido com seriedade, diz-me lá o que achas de cidadãs portuguesas se chamarem India-Rose, Mara-Grace, Ágnes-Dorottya ou Greicekelly.

Acho que somos um país que respeita as identidades das pessoas que escolheram aqui ter os seus filhos e as suas filhas.

Sinceramente!!!!! Tão próxima que sou de ti e às vezes parece que não te conheço. Como te chamas mesmo?

 

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Hália Santos
Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos. Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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