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Domingo, Julho 25, 2021

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“O mito em eterna mudança”, por Aurélio Lopes

Longe vai o tempo em que o Natal constituía, essencialmente, uma festa familiar e comunitária, sacro-liturgicamente enquadrada.

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Feitas de tradições locais, pela sua ancestralidade, prestigiadas.

Tempo em que as aldeias, ainda, não eram globais.

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Em que os sapatos cabiam nas chaminés e, as prendas, cabiam nos sapatos.

Em que era suposto o Menino Jesus descer pelas chaminés: desiderato, convenhamos, bem mais fácil de concretizar que o interpretado, hoje, pelo anafado Pai Natal.

Em que a terminologia “prenda” mal conhecia o plural.

E as mesmas constituíam um meio pontual e não um fim sistemático.

Em que o “madeiro de natal” era, para a rapaziada, ocasião de grandes diversões, comes e bebes excessivos, valentes “carraspanas”, subversões várias.

Em que a “consoada” incluía toda a família abrangendo, até, os respetivos defuntos. Para isso se colocava mais um lugar na mesa ou se deixava a mesma “posta”, durante a noite, com a luz acesa: “Para alumiar as almas”, se dizia em confidência.

Em que o presépio (se não as próprias figuras) resultava de uma construção artesanal e familiar; cujo esforço e criatividade eram motivo de apreço de familiares e vizinhos.

Em que se cantavam, “janeiras” e “janeiradas”, “cânticos natalícios” ou “reisadas”; feitos de casa em casa (especialmente pelos rapazes casadoiros) pedindo expressamente “pró Menino” ou “prós Reis” e fazendo transitar as dádivas em géneros ou dinheiro para a igreja ou, mais frequentemente no Ribatejo, para consumo próprio em animadas patuscadas.

Em que, um pouco por toda a Região, se “chocalhavam os reis” ou “corriam os reis”.

Em que se enviavam os mais novos ou mais simplórios, numa autêntica caça aos gambozinos que as, assim chamadas, “esperas dos reis” (fazendo-os pernoitar, sozinhos, altas horas da noite, em remotos e tenebrosos pinhais ou baldios), naturalmente constituíam.

Em que a “missa do galo” constituía pretexto para noitadas e “espertinas” e era alvo, quantas vezes (à semelhança das práticas anteriormente referidas), de ações de subversão próprias dos tempos solsticiais de rotura.

E se a “missa do galo” tinha resultado da cristianização da hora de inflexão solar, os cânticos ao Deus Menino substituído antigos cânticos de louvor ao astro rei, o “madeiro de Natal” (dito agora para “aquecer, o mesmo, Menino”) herdado configurações e temporalidades das fogueiras celebratórias do renascimento do Sol, as subversões se tinham transformado em “roubos rituais” e nos desacatos que personagens (“velhas”, “carochos” ou “chocalheiros”) do nordeste trasmontano ainda hoje manifestam, as ofertas ao Menino Jesus em prendas às crianças (em cada uma das quais, o mesmo está, afinal, presente) e as diversas adivinhações (“sortes”) e propiciações várias (passas, amêndoas ou bagos de romã) continuado a expressar os prodígios divinatórios que, o “tempo entre os tempos”, proporcionava,…

Se todas estas reconversões se tinham já tinha verificado, outras reinterpretações e aculturações, mais ou menos sincréticas se virão, com o tempo, naturalmente a impor.

E tal como o presépio (nos séculos XII/XIII, influenciará marcadamente o nosso cenário mítico natalício e a árvore de natal (de importação nórdica) o fez já no terceiro quarto de século XX, o Pai Natal, estereótipo publicitário (logo dotado de eficácia mediática e comercial) há-de, com o tempo, irradiar o natal tradicional (Menino Jesus incluído) para as calendas do esquecimento.

Estereótipo que, à semelhança de outras figuras mercantis como a “Barbie” ou o “GI John” (ou, entre nós, a “Popota”) incrementa todos os anos a parafernália mítica, acrescentando novos artefactos e personagens que vão, gradualmente, elaborando cenários míticos cada vez mais complexos, e alimentam utopias diversas; fomentadoras, naturalmente, de fluxos comerciais.

Transformando então, esta quadra, numa época marcada intensamente pelo consumo, em que os supostos valores morais associados ancestralmente à mesma, mal se conseguem perceber por entre uma mitologia mercantilista, prolífera e em crescimento: “pais-natais”, “mães-natais”, “trenós”, “renas”, “duendes”, “palácios de gelo”, “polos nortes” e “fábricas mágicas de brinquedos”.

Exemplo de um simbólico infanticídio contra o qual a Igreja luta, hoje, estoica e ingloriamente.

Em que o dinheiro ocupa o lugar de nova divindade e os intocáveis pressupostos de consumo, o de, paradigmática, doutrina de salvação.

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt

aesfingedebronze.blogspot.com

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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