O “Milagre de Tancos” foi o processo através do qual a 1.ª República preparou, no Polígono Militar de Tancos, entre abril e julho de 1916, o Corpo Expedicionário Português (CEP), que participou na 1.ª Guerra Mundial, na Flandres. Num misto de organização/improvisação, em escassos três meses, deu-se instrução a mais de 20.000 soldados para participarem na guerra europeia, o maior contingente de sempre do exército português.
Apesar das tropas portuguesas lutarem em África desde 1914, mesmo sem qualquer declaração de guerra por parte da Alemanha, e de ninguém pôr em causa esse esforço de militar, já a participação no palco europeu dividia os políticos e os militares portugueses. Apesar de ninguém discutir a aliança luso-britânica, havia muitas divergências quanto à obrigação, decorrente da mesma, de colocar tropas portuguesas na frente europeia.
Do lado intervencionista destacava-se o Partido Republicano Português, liderado por Afonso Costa, que se propunha sacudir a tutela britânica e estar presente como um igual entre os vencedores, no final do conflito; por sua vez, entre os que se opunham à intervenção portuguesa, sobressaía o Partido Unionista, de Brito Camacho, que apenas aceitava a participação portuguesa na Flandres a pedido de Inglaterra e que acusava Afonso Costa de defender a tese intervencionista para se perpetuar no poder.
Os ingleses não confiavam na capacidade militar dos portugueses, pelo que não evidenciavam vontade de solicitar a presença portuguesa na guerra europeia. Ainda assim, não deixaram de solicitar o apresamento de navios alemães fundeados nos portos portugueses.
Para cumprir o solicitado, Portugal exigiu que tal pedido fosse feito ao abrigo da aliança luso-britânica, o que acabou por acontecer. Na sequência da retenção dos navios germânicos, a 9 de março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal.
A preparação do CEP, que decorreu em Tancos, de abril a julho de 1916, fez-se sob o comando do então Ministro da Guerra, General Norton de Matos, secundado pelo General Tamagnini. Foi o próprio Norton de Matos que usou a expressão “Milagre de Tancos” quando nos seus relatórios descreveu a forma eficaz como se transformaram em soldados aptos e capazes para um conflito duro, homens que, pouco tempo antes, tinham uma vida civil, pacata e tranquila.
Optou-se por, face à hesitação britânica, dar instrução a um contingente significativo, porque se decidiu constituir duas divisões, o que implicava um comando próprio, sem dependência de comando face a Inglaterra. O Polígono Militar de Tancos foi o espaço escolhido, devido à sua proximidade com o Tejo e com o Zêzere, o que era vantajoso em termos de fornecimento de água, e também por ser nas imediações do Entroncamento, pois o comboio era determinante para a deslocação dos homens.
Cerca de 20.000 homens estabeleceram-se no grande acampamento, que ficou conhecido como “cidade de Paulona”. O material para as tendas veio de Espanha, adquiriram-se 300 camiões aos EUA, 4.000 cavalos à Argentina, a Grã-Bretanha forneceu armas, rações de combate e, mais tarde, o próprio transporte para França.
O clímax de todo este processo de instrução foi a grande Parada de Montalvo, em julho de 1916, que contou com a presença das mais altas individualidades portuguesas, nomeadamente o Presidente da República e membros do governo. Com pompa e circunstância, pretendia-se mostrar ao país e aos ingleses que a República Portuguesa tinha um exército preparado.
Ainda assim, as debilidades eram evidentes e os soldados só partiram para França depois de terem voltado a ser agricultores durante seis meses, no final de janeiro de 1917.
Em França, confirmar-se-ia que a instrução não havia sido a mais adequada e que o equipamento e fardamento que os soldados portugueses possuíam não era apropriado para uma guerra de trincheiras. A maioria dos soldados ia contrariada e os próprios oficiais viam o CEP como um degredo, pelo qual responsabilizavam políticos e militares intervencionistas.



