“O milagre da Vida e o milagre do Tempo”, por Hália Santos

Foto: Pexels

Sabes, já não me apetece ler nem ver mais notícias sobre o bebé-milagre.

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Porquê? Não achas que é uma estória fantástica?

Sim, do ponto de vista da Vida, sim, mas não consigo deixar de pensar naquele bebé quando crescer. O que vai ele pensar de tudo isto, que se disse, que se escreveu e que se mostrou a propósito da sua gestação? Já não basta ter que crescer sem mãe, quando for maior provavelmente vão dizer-lhe as coisas que agora se escrevem.

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Sim, nem toda a gente consegue ficar só naquilo que interessa.

É, de facto, um milagre da Ciência e da Vida, mas há tantas outras coisas sobre as quais devíamos pensar. Por exemplo, o papel da mãe. Sabe-se que desejou muito este filho, que queria que ele nascesse. Mas desejaria ela que o seu filho fosse rotulado como foi? Desejaria ela que o seu forte desejo de ser mãe e que o direito à Vida do seu filho se transformasse num história contada com extremo mau gosto? Sim, porque enquanto vários órgãos de comunicação social preservaram a identidade da família, bastou mudar de canal ou de jornal para vermos fotos da mãe e para assistirmos a conversas de ‘jornalistas’ com familiares que foram vendo a barriga crescer e que contaram como foram fazendo ‘festinhas’ à mãe enquanto gerava, em morte cerebral, o seu bebé. Já para não falar de certas manchetes e de certos oráculos na televisão. Sim, é tenebroso.

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Às vezes penso se este não deveria ser um daqueles assuntos não noticiáveis. Há assuntos desses? Parece que sim. Por exemplo, suicídios nas pontes. Existem mas não são divulgados. Porquê? Para não darem origem a repetições em cadeia. Também me lembro de ter ouvido qualquer coisa sobre os canais de televisão terem deixado de dar notícias sobre pessoas que se barricavam só para ter atenção. E a moda parou. Mas este é um caso completamente diferente. Sim, na perspetiva de que não desencadeiam comportamentos semelhantes. Mas desencadeia comentários despropositados, curiosidade mórbida e conversas sem utilidade que se podiam evitar porque dizem apenas respeito à Vida de um ser minúsculo que tem que ser, antes de qualquer outra coisa, protegido. Tem que ser protegido agora e até ter estrutura para se aguentar por si só.

Tens razão. E percebendo que a equipa médica mereça ser publicamente valorizada pelo que conseguiu, não sei se este não deveria ser um daqueles casos que não deveria ser publicitado, precisamente para proteger a criança e a família.

Pois, mas sabes que vivemos uma época em que estas coisas não se conseguem preservar do domínio comum.

Infelizmente, diria eu…

Pode ser que o miúdo até nunca venha a ser afetado por nada disto. O Tempo também faz milagres.

Esperemos, diria eu…

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