“O meu pai é um senhor reformado”, por Vera Dias António

Foto: Rodrigo Assunção

Entrámos em agosto e o meu pai entrou na reforma. O meu pai é um senhor reformado, o que me deixa confusa, juro-vos. Porque sempre vi o meu pai como o mais forte e capaz dos homens. E vejo, embora se queixe já muito das costas. Merece dias mais relaxados embora, bem… tem 6 netos para… apoiar!

PUB

A reforma pode ser entendida de várias formas. Pode haver medo, por se sair da vida ativa. O que é que isso quer dizer na vida uma pessoa que trabalhou quase 5 décadas, diariamente?! Pode haver sentido de dever cumprido. Já fiz a minha parte, agora trabalhem outros. Mas, acima de tudo, haverá o sentimento de se ter dado algo de nós à sociedade e agora é-se recompensado, numa nova etapa da vida, em que a própria vida retribui!

A vida do meu pai tem sido relativamente constante nos últimos anos. Mas teve um início complicado. O meu pai nasceu numa aldeia de Mação, o Castelo, um dos sítios mais bonitos, de boa gente e de onde guardo das melhores recordações da minha infância. Memórias mesmo muito felizes de uma casa muito humilde, mas rica de gente e boa disposição. Eram dias de festa, quando estávamos todos juntos.

PUB

O meu pai é o terceiro de cinco irmãos rapazes. Pouco tempo depois de nascer o mais novo, tinha o meu pai 12 anos morreu-lhes o pai. O meu avô Armindo, que nunca conheci. Os tempos não eram de abundância e o meu avô era o ganha pão da casa. Homem trabalhador, bem-disposto, contam-me. Tal como a minha avó, pelo que julgo que aqueles cinco irmãos tiveram a sorte de ter uns pais do melhor. Mas, como terá pensado a minha avó apoiada na sua devoção e fé, “são insondáveis os desígnios do Senhor”.

A minha avó reinventava-se em formas de sustentar a casa. A venda de ovos era uma das bases económicas da casa pelo que ali não se comiam ovos. Tirando um dia em que a minha avó teve de sair e ficaram os cinco sozinhos em casa. E o que fizeram? Um bolo de laranja. Ovos, farinha, açúcar, laranjas. E saiu-lhes, conta a história, o melhor bolo dos muito poucos que já tinham comido. Era de tal forma bom, o bolo, que os rapazes foram apanhados pela perícia. Pois que oferecem uma fatia a uma vizinha que ali passou e a pobre senhora veio depois pedir a receita à minha avó. Bolo? Qual bolo? E consta-se que foi valente a sova. Só superada pelo regalo do lanche que tinham comido.

PUB

Pouso tempo depois o meu pai foi mandado para Lisboa para casa de uns familiares que tinham uma loja e ajudaram, assim, a pobre prima da aldeia. O meu pai era o moço que levava as compras das senhoras a casa.

Foi, entretanto, trabalhar como carteiro, em Lisboa. Um dia o jovem carteiro teve um episódio que o arreliou muitos anos. Tinha poiso na Praça D. Pedro IV, no Rossio, um vendedor de cautelas e o meu pai um dia comprou-lhe uma. Guardou-a e quando voltou ao dito senhor para ver se tinha prémio este olhou para o papel, fez uma pausa e atirou um “vai-te rapaz, que não tens aqui nada”. E ele foi. E ao vendedor nunca mais ali o viu. Percebem a arrelia?!…

Dos Correios veio a tropa. A Marinha. O Alfeite – Lisboa e depois os Açores. O meu pai era um rapaz giríssimo e as fotos da Marinha comprovam o quanto lhe assentava bem a farda. Um espanto.

Numa pausa no verão veio à terra e foi ao casamento de um rapaz da terra dele com uma rapariga do bairro de S. Miguel, em Mação. E foi ali que viu, na sacristia da velha capela, uma miúda igualmente gira. Tão bonita que lhe chamou a atenção e perguntou a um primo quem era. Veio, já perceberam, a ser minha mãe. Que tinha crescido em Lisboa e tinha acabado de se mudar para Mação. Mais tarde juntaram as histórias de eventos em Lisboa onde estiveram os dois, sem se conhecerem, sem saberem que mais se viriam a juntar aqui, em Mação. E o meu pai foi aos Açores, deixou a Marinha e uma namorada que lá tinha e veio ver da miúda. Pessoalmente, penso que foi o melhor que fez!

Casaram. Tiveram ali várias peripécias. Como o Padre a bater-lhes à porta na semana seguinte pois tinha registado o casamento no livro dos batizados ou, creio que duas semanas depois, a Guarda a aparecer com mandado de prisão pois um qualquer problema administrativo dava o meu pai como desertor do Alfeite quando tinha estado não sei quantos anos nos Açores. Tudo se resolveu!

O meu pai teve vários trabalhos até ter coisa certa. Trabalhou em Coimbra, de onde me trouxe a tradicional t-shirt à altura, branca e a dizer em letras pretas “Vera Mónica”. Diz, a brincar, que se formou em Coimbra, na Universidade da Vida e outras brincadeiras que não posso contar.

Trabalhou também numa das Barragens, não sei se do Fratel, e uma noite o casebre em que dormiam incendiou-se e ardeu-lhe tudo. Tudo, frisa o meu bem-disposto pai, menos o pijama que tinha estreado na noite do casamento!

Em Mação trabalhou na construção, creio que nas estradas e, durante alguns anos, num dos talhos. Tenho boas memórias também desses tempos. Recebiam convites para touradas e lá íamos. Não eram as touradas, mas as saídas entre amigos e os dias felizes de que se revestiam.

Tinha eu uns 10, 11 anos quando o meu pai entrou na Câmara Municipal de Mação, de onde se reforma, agora. Teve a carreira de Manobrador de Máquinas e Veículos Especiais. Nos primeiros anos trabalhou com máquinas e, depois com camiões, particularmente o cor-de-laranja da foto que ilustra este texto, e que parou de conduzir pouco depois de ter sido tirada.

A foto foi tirada pelo meu cunhado depois de os meus sobrinhos gritarem no jardim “vem lá o camião do avô”. O camião não era efetivamente dele, mas era como se fosse. Já lhe ouvi o orgulho de nunca ter tido um acidente, por pequeno que fosse, em serviço. E aconteceu, após os incêndios de 2003 que, vendo a situação difícil que se adivinhava, me pediu que lhe escrevesse uma carta que dirigiu à Scania, marca de camiões, a dizer onde trabalhava e com que veículos e que percebia que não teria a Câmara possibilidade de adquirir viaturas daquelas nos próximos tempos, de que necessitavam, e que ajudassem a sua “casa”. Recebeu resposta simpática, que não podia ser e os votos de que tudo corresse pelo melhor. Pelo que nunca estreou um camião novo e sei que tem essa pena.

Lembro-me que uma vez estava, depois das aulas, à espera da boleia do meu pai, sentada no Largo dos Bombeiros. Chegaram dois camiões que regressavam ao Estaleiro municipal, à altura ainda não havia a Variante e entravam pela Vila. E parava tudo a olhar, com a chegada dos carros grandes, imponentes. E eu fiquei ali, cheia de orgulho, porque era o meu pai. Nunca lho disse. Acho também muita graça, em qualquer aldeia ou lugar do Concelho onde vá e me perguntam os mais velhos “de quem sou”. Quando respondo sabem sempre quem é e ouço um “é um bem-disposto”, “mete-se muito com a  gente”, ou um “esse malandro tem sempre uma brincadeira”. É o meu pai. Que gosta muito de uma brincadeira, uma farra. É uma pessoa de pessoas.

Nunca tivemos grandes luxos, um ou outro fim de semana em casa de familiares em Lisboa, as maravilhosas férias na Foz do Arelho só nós quatros e, mais tarde, na Nazaré com dois casais de amigos, do melhor. Houve ainda algumas idas a Badajoz, ao Alentejo e eram estes os gastos raros do ano, que muito lhes agradeço e das quais guardo momentos muito felizes. Lembro-me de um passeio a Conímbriga e o meu pai, com aquele humor que tem, começou a explicar-nos onde era o quê. Ali era a cozinha, ali a casa de banho, ali a sala… Um grupo que ia a passar parou a ouvir a explicação e ele continuou, muito sério e certo do que dizia e as pessoas atentas, a ouvir. Só o facto de nós as três, a minha mãe, irmã e eu termos rido até rebolar é que o denunciou.

Foto: Oliveoilstudio

Chateei-me várias vezes com o meu pai enquanto crescia. Quem não?! Mas a maior discussão que tivemos foi quando comuniquei que ia para a Bélgica fazer Erasmus. O meu pai não via o porquê nem a necessidade. Sentia o medo de um pai. Um amigo disse-lhe que era coisa boa, o que o acalmou. Na véspera da minha partida foi ao quarto e deu-me uma quantia em dinheiro, que tinha juntado ao longo de dois ou três meses e que somava quase o seu vencimento. Verdade! Quando cheguei a Bruxelas o meu cartão da Caixa Universidade não funcionava (fora do país). Salvou-me, heroicamente, o gesto do meu pai de viver a maior das complicações, até que se resolveu.

O meu pai é agora um senhor reformado. Não lhe foi das mais fáceis, a vida. Um dia, miúda, ouvi-o dizer à minha mãe, que éramos o melhor que a vida lhe tinha dado. O meu pai não é de conversa fácil quando toca a emoções. Mas são estas coisas que nos marcam. E nos fazem gente. Na semana em que se reforma o meu pai, o meu filho mais velho vive a sua primeira experiência de trabalho remunerado. Digam-me lá se isto não é o ciclo da vida, perfeitamente engrenado, a funcionar!

Que tenha longa e feliz vida, o meu reformado pai! Um brinde, meus caros, ao Ricardo dos Poetas do Castelo de Mação!

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).

pub

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here