“O Mercado precisa de vida!”, por José Rafael Nascimento

Faz hoje um ano que nos manifestámos publicamente em defesa do nosso Mercado. No dia 1 de Julho de 2019, pelas 15 horas, algumas dezenas de abrantinos colocaram flores no portão do antigo mercado diário, afixando a mensagem “NÃO à demolição do edifício histórico, SIM à valorização do nosso Mercado”. Foi uma jornada épica e inesquecível que honra todos os que a apoiaram, tendo ou não podido nela estar presentes (pode ser recordada aqui).

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Os Amigos do Mercado de Abrantes juntavam assim a voz da sociedade civil à das forças políticas que nos órgãos autárquicos contestavam a ignara e insciente decisão prevista no PUA – Plano de Urbanização de Abrantes, de demolir o histórico mercado coberto e privar os abrantinos de um dos seus principais ícones patrimoniais. Incredulamente, continuamos a perguntar-nos “Como foi possível?!”.

Uma anterior petição pública com o lema “Não à demolição do histórico Mercado Diário de Abrantes! Não à destruição da alma abrantina!” havia sido anteriormente rejeitada pela obstinada maioria absoluta, mas a força da razão e da indignação parece terem sido finalmente escutadas pelo poder e sucederam-se juras de não demolição do edifício histórico do Mercado, procurando-se até “dar o dito por não dito”…

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O que não avançou foi a sua conservação, com o argumento (já com nove meses!) de que “a Câmara encontra-se numa fase de muito rapidamente poder avançar com um projecto, não vale a pena pintar o que quer que seja para três meses depois começar uma intervenção maior”. O que parecia então incomodar o autarca, pasme-se, eram “as flores que ficam muito mal no mercado, todas murchas, sem o efeito pretendido”. Desde então, tem reinado um pesado silêncio e uma evidente negligência.

A imagem do antigo mercado coberto é, para os visitantes, a imagem do município e seu património. E, para os abrantinos, a imagem de como a autarquia trata a sua história, identidade e desenvolvimento. Foto DR.

Apesar de considerar o acto cívico de 1 de Julho de 2019 “completamente extemporâneo”, o presidente da Câmara declarou-se publicamente, a posteriori e sem mais esclarecer, a favor da “requalificação do antigo mercado diário, mantendo o rosto e a identidade” e de “tornar o antigo mercado diário num pavilhão multiusos que dê resposta aos inúmeros eventos no nosso concelho, incluindo concertos e conferências”.

Sendo de saudar o recuo na decisão de demolir, já a anunciada utilização a dar ao edifício parece ser precipitada, tendo em conta que existe o compromisso de realizar – como não poderá deixar de ser – um debate público (ou mesmo um concurso de ideias) sobre o assunto. Até porque o futuro deste edifício histórico prende-se com a clarificação do futuro do Mercado Municipal, actualmente localizado em edifício impróprio, inadequado e disfuncional (um “elefante branco na sala”).

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Recorde-se que o actual edil afirmou em Setembro de 2019 que “um assunto como o antigo mercado diário é interessante para todos podermos participar e discutir e avaliar e analisar e, quem sabe, até propor um concurso de ideias. […] Temos de trabalhar juntos para encontrar as melhores soluções para a nossa cidade e para o nosso concelho”. Não podemos estar mais de acordo com a intenção, aguardamos simplesmente que se passe das palavras aos actos.

Se a preservação patrimonial do antigo edifício era a prioridade dos Amigos do Mercado de Abrantes (recordar a crónica O Mercado precisa de amigos!), agora a prioridade passou a ser a recuperação económica, social e cultural do nosso Mercado. Ou seja, tudo fazer para que volte a ter ânimo, encanto e movimento. O que significa estar instalado em espaço apropriado, conveniente e funcional, e ter uma estratégia de marketing fortemente atractiva para visitantes e consumidores. Sim, o Mercado precisa de vida e estou seguro de que ela é possível!

Uns chamam-lhe “bunker”, outros “mamarracho”. A velha muralha de Abrantes foi parcialmente destruída para dar lugar a um edifício multipisos e com problemas estruturais, impróprio para alojar um Mercado Municipal. Agoniza desde que foi inaugurado há 5 anos. Créditos: DR

Há um ano, colocámos flores no edifício histórico do Mercado, manifestando o profundo sentimento de amor e orgulho que temos pelo nosso património identitário. As flores continuam onde as deixámos – o que se agradece à autarquia – recordando em cada dia, por 366 vezes, a falta de sensibilidade, de consideração e de responsabilidade de quem teimosamente mantém o edifício ao abandono, degradação e fealdade.

As flores secaram, mas a causa do Mercado e a nossa determinação em defendê-la e levá-la até ao fim não murcharam. Pelo contrário, estão mais viçosas do que nunca. Continuaremos atentos à preservação do edifício histórico, exigiremos o debate público sobre a utilização a dar-lhe e lutaremos sempre pela dignificação e valorização do Mercado Municipal de Abrantes. Este é o nosso compromisso para com a História e o Futuro.

*O autor não segue as regras do novo Acordo Ortográfico. 

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