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Quinta-feira, Outubro 28, 2021

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“O lagar do Porto Escuro”, por Berta Silva Lopes

À entrada da Saramaga, na estrada que liga o concelho de Mação ao do Sardoal, do lado direito de quem desce em direção à pequena povoação, estão hoje as ruínas do antigo lagar do Porto Escuro. Logo a seguir à ponte podemos descobrir ainda o que resta das suas paredes, pequenas manchas brancas por onde escorrem lágrimas de barro, o tanque da moagem, as tulhas, os alcatruzes da azenha.

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Há muito que as balsas o invadiram, esconderam as últimas seiras e capachos, as mós e as prensas, engolindo também, por fim, todo o telhado. Foi uma morte lenta e agonizante, negra como o carvão nascido nas suas entranhas após a passagem do fogo.

Era nesse lagar que o meu avô materno moía a azeitona dos seus olivais, pequenos retalhos de terra deixados em herança, com mais ou menos oliveiras, algumas centenárias, onde eu e os meus primos nos escondíamos até já não cabermos nas suas cepas.

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Era difícil ocupar aqueles dias, tão curtos afinal, mas tão longos fora de casa, sem nos aborrecermos. Se calhava estar tempo de chuva não tínhamos ordem para sair do palheiro e ali nos sentávamos numa tábua estreita contando os pingos que caíam das beiras ou jogando ao galo no chão de terra batida.

Sem eletricidade, só com a porta aberta conseguíamos descortinar os riscos no chão e, no entanto, com a porta fechada, depressa o casebre se enchia com o fumo da pequena fogueira alimentada com carolos e samarras de milho. Porta aberta, porta fechada, frio ou fumo, ninguém devia ter de escolher.

Lembrei-me daquele palheiro assim que ouvi a notícia da morte de cinco pessoas, incluindo duas crianças, no passado fim de semana em Sabrosa. Aparentemente, tudo indica que a família morreu de intoxicação com monóxido de carbono. A “casa” onde faleceram não tinha eletricidade, para se aquecer a família usaria uma salamandra e para outras necessidades havia um gerador. O que aconteceu com esta família é difícil de aceitar, mas basta olhar para aquela casa para compreender: foi a pobreza que os matou, não o frio.

No palheiro, apesar da inclemência do tempo, a porta estava quase sempre aberta. O frio entranhava-se nos kispos e ia até aos ossos, mesmo com várias camadas de roupa. As paredes cheiravam a fuligem, pó e humidade.

Restava-nos torcer para que não chovesse e pudéssemos brincar na rua. Nesses dias, apanhávamos cogumelos, subíamos às árvores, varejávamos pequenos ramos de oliveira, caçávamos rãs e salamântigas.

Às badaladas do meio-dia na igreja de Valhascos o grupo reunia para almoçar. Dois tijolos e uma tábua comprida faziam a vez de mesa para a pequenada; os mais velhos estendiam um paninho sobre as pernas e comiam com a lancheira no colo. A mãe fazia migas fervidas e fritava peixinhos na véspera, havia azeitonas novas retalhadas e temperadas com sal, orégãos secos e uma casquinha de limão.

Sei que este foi um ano mau para a azeitona e a colheita, fraca, não surdiu. Seja como for, dá para o petisco. Talvez ainda consiga passar no lagar para ir buscar a última moagem e se assim for levarei no bolso uma côdea de pão para molhar na malga do mestre lagareiro, tal como fazia o meu avô, há muitos anos, no lagar do Porto Escuro. Se há broa de milho e azeite novo, vamos à prova!

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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