“O juízo e o apetite”, por Armando Fernandes

A todo o momento. Sempre que considero ter errado exclamo: quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que as paga. Não vou elaborar a lista relativa agravos infligidos a mim mesmo porque a cabeça estava a sonhar, não com a morte da bezerra, mas afastada da real/realidade de o apetite aproveitar todas as oportunidades e mais alguma a fim de conceder gosto ao garfo e à faca, sem esquecer a colher no afã de o palato ajuizar acerca daquela ou de outra pitança escolhida no propósito de ficar satisfeito, alegre, feliz e contente.

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Não por acaso o tremendo êxito do programa encarnado pelo falecido Nicolau Breyner e Herman José ainda sem ter passado a canastrão topa a tudo, sensaborão, desprovido de sainete elegante como a generalidade dos bons cómicos pretendem atingir.

Ora, ante um comer bem preparado, bem temperado, bem apresentado, o Juízo tem a difícil missão de morigerar o apetite, quando assim não é praticado vem ao de cima a receita ribatejana da tauromaquia: se não conheces o terreno que pisas, se não conheces as qualidades do animal, se não dominas a muleta, vais contra as tábuas.

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No tocante às artes culinárias sucede o mesmo, o mínimo deslize ou defeito compromete o resultado final, provocando desgosto sensorial e pesar por que o dinheiro gasto foi mal empregue. Desaires deste género e de outros comigo são tantos, quantas as sardinhas no fim de uma noite de pesca abundante. O mais recente porque inusitado ocorreu com maranhos o popular ensacado da Beira Baixa e Norte do Ribatejo. Atentem:

Há dias sobre a mesa surgiram nédias rodelas de maranhos na companhia de legumes e batatas fritadas, isso mesmo: fritadas. Os maranhos, cortada a pele que cercava as rodelas, revelaram-se demasiado unidos, compactos em forma de bugalhos, pastosos, engrolados. Fiquei surpreendido, porém fiquei silencioso. Mais recentemente voltaram a surgir os benquistos maranhos, repetida a operação, repetiu-se o acima relatado. A cozedura estava perfeita, no entanto, tal como os gorgulhos esmagados, assim responderam no garfo os maranhos. Bolinhas de goma, desprovidas da sapidez desejada, porque o arroz não era da melhor qualidade, nem obterá a cozedura que deve ter. Metade ficou no prato.

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Neste caso o apetite foi duplamente prejudicado, na manducação no pleno regozijo refeiçoeiro. Mais uma vez a cabeça descurou a vigilância pois estava obrigada a verificar a consistência dos enchidos. Claro que se rodelas dos maranhos tivessem passado levemente pela frigideira untada com uma colher de azeite ou boa banha atenuava-se os defeitos em causa, mas o juízo dormia ou escrevia sem curar de saber dos por norma gulosos maranhos fruto da argúcia do bom juízo das mulheres e homens na poupança e utilização dos parcos recursos existentes nas comunidades rurais da zona do pinhal e limítrofes.

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