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Sexta-feira, Julho 30, 2021

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“O João e a medida prometida”, por Vânia Grácio

O João tem 15 anos. O pai é alcoólico e em casa existe violência doméstica. A mãe está desempregada. Como tantos outros jovens, o João apresentava problemas de comportamento na sala de aula e fora dela, tinha más notas e o rendimento escolar era mínimo.

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Não havia nada na escola que o motivasse. Por esse motivo faltava às aulas e ia fumar com os amigos e beber cerveja. Chegava tarde a casa, tirava dinheiro aos pais. Por estas razões, foi encaminhado para o curso PIEF – Programa Integrado de Educação e Formação. Lá, o currículo era adaptado a si.

Eram atribuídas competências, consoante a sua evolução. Tinha um técnico que o acompanhava todo o dia, faziam outro tipo de atividades. João voltou a ter gosto por ir para a escola. Mudou o comportamento. As coisas em casa também melhoraram. Tudo parecia compor-se. Terminou o ano lectivo, e João ficou apenas com duas competências por validar para terminar o 6º ano. Mas no ano seguinte, as aulas não começaram.

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Todos os colegas foram para a escola, mas João ficou em casa. Aborrecido, sem nada para fazer. Refugiava-se nos jogos de computador, no facebook, acordava tarde, não fazia nada. Voltaram as discussões em casa. João voltou a desobedecer aos pais e a sair de casa à noite. Regressava tarde. Muitas vezes alcoolizado e a cheirar a tabaco. A mãe desesperava sem saber o que fazer. O pai dava-lhe uns “corretivos” à moda antiga. E assim eram os seus dias…

O João é obviamente um personagem fictício mas bem podia ser real. É uma vergonha o que se está a passar nas escolas deste país. Os jovens que integraram a medida PIEF estão em casa, a aguardar a contratação do técnico que os deve acompanhar diariamente na escola. Os professores estão colocados. Os alunos em casa.

No ano letivo passado, as aulas iniciaram-se em Abril, perto da interrupção da Pascoa. Todo o trabalho conseguido com a integração social destes jovens, feita no ano anterior, já tinha sido perdida.

O mais grave é que estes alunos estão dentro da escolaridade obrigatória e o facto de o PIEF não ter avançado não os devia impedir de frequentar as aulas. E se o técnico não puder ser contratado este ano? Estes alunos vão ficar em casa todo o ano letivo? Quem devia tomar medidas e nada faz? Perder-se-ia mais se os alunos estivessem na escola sem o técnico? Concordo com a importância deste profissional na vida destes alunos, mas e se voltar a ser colocado em Abril? Que tipo de trabalho conseguirá fazer até Junho? Quem será responsabilizado pelas situações de risco a que estes jovens estão expostos? Porque é que estes jovens têm de ser tratados de maneira diferente dos outros?

Problemas de comportamento existem em todas as turmas, em todas as escolas. Estes jovens são muitas vezes marginalizados, como se tivessem de ser colocados à parte como se os outros não apresentassem também problemas de comportamento.

Que Escola inclusiva é esta que não os deixa entrar se o técnico não estiver presente, que lhes dá um intervalo em horário diferente dos outros alunos do ensino regular, que os manda para casa “pensar” quando fazem “asneiras”.

Que Escola é esta que mantém os alunos em casa? Que futuro estará reservado para o João?

Vânia Grácio é Assistente Social e Mediadora Familiar e de Conflitos.
Licenciada em Serviço Social pelo Instituto Superior Bissaya Barreto e Mestre em Serviço Social pelo Instituto Superior Miguel Torga. Pós Graduada em Proteção de Menores pelo Centro de Direito da Família da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e em Gestão de Instituições de Ação Social pelo ISLA. Especializou-se na área da Mediação de Conflitos pelo Instituto Português de Mediação Familiar e de Conflitos.
Trabalha na área da Proteção dos Direitos da Criança e da Promoção da Parentalidade Positiva. Coloca um pouco de si em tudo o que faz e acredita que ainda é possível ver o mundo com “lentes cor-de-rosa”. Gosta de viajar e de partilhar momentos com a família e com os amigos (as). Escreve no mediotejo.net ao sábado.

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