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Segunda-feira, Junho 21, 2021

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“O instinto da caçadora”, por Carla Baptista

Perto da vista, perto do coração – jornalismo por dentro
Os textos desta secção têm um propósito: contar histórias sobre jornalismo. Os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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O melhor escritor do mundo, Charles Dickens (1812-1870), foi também um arguto repórter parlamentar e um dos editores culturais mais influentes de Inglaterra. Na imaginação operática de Dickens, um génio criador de personagens memoráveis, qualquer grupo de pessoas em relação umas com as outras originava um minidrama. O jornalismo e a literatura serviam os mesmos fins: criar humor e pathos, afirmar o amor pela humanidade e combater os “diabos sociais” que o atormentavam, como a injustiça e a desigualdade. Se uma nano partícula desse desígnio existir nas noticias, estas ganham vida e cumprem aquilo para que são construídas, por mãos e cabeças humanas, com a minúcia do artesão e a liberdade do livre pensador.

Por vezes, os frutos desse labor germinam lentissimamente, alimentando as esperanças de pequenos círculos de crentes. Entre os textos escritos por Ana de Castro Osório no jornal “A Madrugada”, Folha Mensal (1911-1918), propriedade da Liga Republicana das Mulheres, apelando à revisão do Código Civil para permitir a Lei do Divórcio e o sufrágio feminino, e a concretização desses apelos, passaram mais de 60 anos. Outras vezes, é um trabalho rápido, executado com a frieza de um assassino profissional. Ou apenas de alguém que acredita na inelutabilidade da sua missão. Mena Ataíde, personagem da novela “Balada da Praia dos Cães”, de José Cardoso Pires, inspirada num crime real, é desse género. Quando chegou o momento de disparar, “não sentiu repulsa nem estranheza ao pegar na pistola.” A jornalista britânica Emily Maitlis, um dos rostos do Newsnight, da BBC 2, também. As entrevistas políticas agressivas, cultivadas pelo jornalismo adversarial em relação ao poder, são a marca do programa semanal Newsnight, criado em 1980. Naquele dia 18 de setembro de 2019, Emily Maitlis, nascida em 1970, fluente em espanhol, francês e italiano, com uma experiência de 6 anos como correspondente da BBC em Hong Kong, não parecia confrontativa quando iniciou a entrevista que acabou com a vida pública do príncipe André. 

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Nascido em 1960, o primeiro bebé real em 103 anos (os irmãos, o príncipe Carlos e a princesa Ana, nasceram quando a mãe ainda não era rainha), não tinha uma grande reputação, mas tinha uma existência, digamos, respeitável. Representava cerca de 230 organizações beneméritas e universidades em todo o mundo anglófilo. Recebia bilhetes grátis para o Bailado Nacional de Inglaterra e para a Orquestra Sinfónica Real. Foi capitão de fragata e vice-almirante da Marinha Real, que serviu durante 22 anos. Era chamado de “Alteza Real” desde o nascimento, mas outros títulos foram sendo acrescentados: Duque de Iorque, Conde de Inverness, Barão Killyleagh, Cavaleiro Companheiro da Nobilíssima Ordem da Jarreteira, Cavaleiro da Grã-Cruz da Real Ordem Vitoriana, Ajudante de Campo de Sua Majestade. E, de repente, tudo se evaporou. 

O príncipe André cavou a própria sepultura, ao frequentar as festas do milionário norte-americano Jeffrey Epstein, condenado em 2019 por pedofilia. Os contornos do seu envolvimento nessa rede imoral que traficava e explorava sexualmente raparigas menores ainda estão por esclarecer, já que recusou prestar declarações aos procuradores americanos que investigam o caso, após a morte de Epstein na prisão. Mas foi a entrevista concedida a Maitlis, numa sala do Palácio Buckingham decorada com tapetes, quadros, veludos e sedas, que o empurrou para a cova. O tema único da entrevista estava combinado: a relação entre os dois homens. Ela perguntou com voz suave como é que alguém como ele se tornou íntimo de alguém como Epstein. Arqueou as sobrancelhas com incredulidade quando o príncipe disse que, em 2010, esteve durante 4 dias no apartamento em Nova Iorque, “para terminar a amizade”. Nessa altura, Epstein já tinha sido condenado pelo abuso de uma menor. 

 

A partir dessa mentira flagrante, o destino do príncipe André ficou traçado. Maitlis fez perguntas fatais que o deixaram tartamudo. Só uma grande atrapalhação o pode ter levado a proferir as justificações mais estapafúrdias na história das entrevistas a membros da realeza: sim, é ele na fotografia abraçando Virginia Roberts, a jovem que denunciou Epstein e alega ter sido “oferecida” ao príncipe, com quem fez sexo três vezes, mas, por outro lado, é estranho, porque quando sai em Londres usa sempre fato e gravata e na fotografia está com “roupas de viagem”; sim, esteve na mansão de Epstein várias vezes mas não se recorda de uma jovem russa lhe ter feito uma massagem aos pés, segundo referiu John Brockman, outro visitante; sim, é verdade que apresentou Epstein à rainha, convidando-o para uma receção no castelo de Windsor quando este já tinha cadastro por ofensas sexuais “e isso foi uma decisão errada mas estava só a querer ser simpático”; não, não é verdade que tenha oferecido uma festa de aniversário a Ghislaine Maxwell, namorada de Eppstein, na casa de campo da família real em Sandrigham, foi “um simples fim-de semana de caça”. 

A expressão usada em inglês é “shooting weekend” e por esta altura a jornalista fartou-se de atirar ao pato André. Ofereceu-lhe a derradeira hipótese de sair com alguma dignidade da entrevista-tortura, perguntando: alguma vez sentiu culpa, arrependimento ou vergonha? O príncipe André não sabe o que é a culpa, nem o arrependimento e ainda menos a vergonha. Reconheceu que fez uma má avaliação e embaraçou a família, mas, no fim das contas, também houve benefícios e aprendeu muita coisa. Emily Maitlis despediu-se, sabendo que pronunciava pela última vez as palavras que abrem todas as portas: Sua Alteza Real. No dia seguinte, a Casa Real dispensou-o de todas as funções oficiais e corrigiu o comunicado emitido pelo príncipe. A decisão não visa “um futuro próximo”, é “para sempre”.

Docente no Departamento de Ciências da Comunicação da NOVA FCSH, investigadora do ICNOVA na área da história dos media e jornalista freelancer, escreve todos os meses no mediotejo.net sobre jornalismo. Porque os tempos são de “abundância mediática”, mas o consumo ininterrupto de informação coexiste com um grande desconhecimento sobre quem são e como trabalham os jornalistas.

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