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“O imperativo jovem”, por José Rafael Nascimento

“As crianças aprendem a tomar boas decisões tomando decisões, não seguindo instruções.”
– Alfie Kohn

Na história da humanidade, os mais velhos sempre souberam mais do que os mais novos. Sempre? Não, há uma ou duas gerações que os mais novos sabem mais do que os mais velhos. Claro que esta afirmação é simplista e peca por generalização. Mas, em certo sentido, ela é correcta, ou seja, num conjunto de competências cognitivas essenciais – designadamente da aprendizagem e utilização de novas linguagens – os mais novos sabem mais e são mais proficientes que os mais velhos. Não por acaso, há muito que o povo diz que “burro velho não aprende línguas” e até o Principezinho de Saint-Exupéry se queixa que “os adultos nunca entendem nada por si próprios e é cansativo para as crianças estarem sempre e eternamente a explicar-lhes as coisas”.

Nos EUA, 47% dos jovens adultos moravam com um ou ambos os pais antes da pandemia por COVID-19, tendo esta percentagem aumentado cinco pontos desde então. Mesmo residindo noutro local, as interacções com os progenitores são mais frequentes do que há trinta anos, designadamente para receberem apoio emocional, financeiro e prático. Um estudo de Vaterlaus, Jones e Tulane, das Universidades de Montana e do Utah, revelou que os jovens adultos estão melhor informados sobre tecnologias do que os seus pais, sobretudo quanto às mais recentes e interactivas, como é o caso das redes sociais ou dos chats de vídeo.

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Onde parece que os mais novos experimentam maiores dificuldades é no domínio emocional – intra e interpessoal – onde o natural amadurecimento, determinado em larga medida pelo meio envolvente e as condições de vida, pode estar a ser retardado pela alteração de importantes realidades institucionais, designadamente nos espaços político, familiar, educacional, profissional e organizacional. Entre outras mudanças, acede-se ao mercado de trabalho e constitui-se família mais tarde, negligencia-se a vida cívica e comunitária, e permite-se que as gerações predecessoras decidam sozinhas, condicionando adversamente o futuro das que lhes sucedem.

“Prevalece, no nosso tempo, uma parentalidade intensiva centrada na criança, orientada por especialistas, emocionalmente absorvente, trabalhosa e financeiramente cara”, afirmou Sharon Hays no seu livro “As contradições culturais da maternidade”. Fotografia: Daly e Newton / Getty Images

As consequências desta transformação são disruptivas, tanto para os indivíduos como para as sociedades. Reconfiguram as relações de poder e a força das ideologias e comportamentos, incluindo os egoístas, populistas e autoritários, assentes em valores mais conservadores, conformistas e retrógrados. É certo que a realidade é diversa e paradoxal e, como em qualquer outro processo histórico e dialéctico, acumular-se-ão contradições, frustrações e conflitos que ditarão novas transformações tendentes a repor o equilíbrio perdido, mas não sem que as sociedades tenham, entretanto, de suportar elevados custos sociais.

Quem defende a primazia do paradigma reformista e evolucionário dirá que importa compreender a tempo a manifesta tendência e o previsível destino que se vislumbra, arrepiando caminho. Será isto possível? Terão os jovens a capacidade de reestruturar as suas vidas e tomar nas mãos as rédeas do seu futuro? Estarão os jovens disponíveis para o fazer, em aliança geracional com os mais velhos, maduros e experientes? Ainda que nem tudo seja possível ou dependa da sua vontade, há áreas de oportunidade a explorar que não devem ser ignoradas ou negligenciadas.

É cada vez maior a percentagem de jovens que se mantém a viver com os pais até mais tarde, perdendo em experiência e responsabilidade de vida o que ganham em conforto e segurança.

Uma dessas áreas é a da intervenção cívica e comunitária. Muitas e importantes decisões sobre o presente e o futuro dos jovens são tomadas na esfera política e pública, tanto a nível central como local. Importa que participem e se envolvam, influenciando positivamente e a seu favor as decisões que irão moldar os seus contextos de vida, tanto a nível das liberdades e da justiça social, como da família e dos amigos, do estudo e das aprendizagens, do trabalho e dos negócios, do lazer e do entretenimento, entre outras.

Posto isto, é preciso dizer aos jovens que muitos deles estão a perder por falta de comparência. Que o seu sucesso geracional passa por votarem nos pleitos eleitorais, rejeitando a abstenção, por integrarem ou acompanharem o funcionamento dos órgãos de representação democráticos, por participarem na vida das associações e colectividades, por defenderem activamente causas sociais e ambientais, por apresentarem propostas aos Orçamentos Participativos, por frequentarem a cultura erudita e educativa como frequentam a cultura do espectáculo e do entretenimento e, não menos importante, por incluirem na agenda relacional com os seus pares a discussão do quotidiano cívico e comunitário.

“Há forte evidência de que a participação dos jovens em processos políticos institucionais formais é relativamente baixa quando comparada com a dos cidadãos mais velhos em todo o mundo. Isso desafia a representatividade do sistema político e leva à privação dos direitos dos jovens.” – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O exemplo de Greta Thunberg é uma de várias excepções inspiradoras. Créditos: DW

Evidentemente que a responsabilidade não é apenas de quem não participa. Como tenho defendido aqui, há uma enorme responsabilidade a assacar aos incumbentes que, ao invés de servirem e atraírem, se servem e repelem quem deseja ou está disponível para participar. Mas, em muitas áreas de participação e tomada de decisão relevante para a vida dos mais novos (ou de todos, se quiserem), a falta de mobilização dos jovens não é sinónimo de completo impedimento e a mera aproximação destes pode ser suficiente para alterar o status quo a seu favor.

Alvin Toffler refere-se a este afastamento dizendo que “a mensagem subtil comunicada hoje pela sociedade à maioria dos jovens, é a de que eles não são necessários, que a sociedade funcionará muito bem até que eles – em algum momento distante no futuro – tomem as rédeas nas suas mãos. Todavia, é um facto que a sociedade não está a funcionar bem… Porque nós outros precisamos de toda a energia, inteligência, imaginação e talento que os jovens podem trazer para superar as nossas dificuldades. Pretender a sociedade resolver os seus problemas desesperados sem a participação plena, inclusive de pessoas muito jovens, é imbecil”.

Já em 1966, perante jovens estudantes da Universidade da Cidade do Cabo, Robert Kennedy havia afirmado que “este mundo exige as qualidades da juventude: não o seu tempo de vida mas o seu estado de espírito, o temperamento da sua vontade, a qualidade da sua imaginação, o predomínio da coragem sobre a timidez, do apetite pela aventura sobre o amor ao conforto”. Palavras sábias que Margaret Mead completou: “Os jovens, livres para agir por iniciativa própria, podem conduzir os mais velhos em direção ao desconhecido… As crianças, os jovens, devem fazer as perguntas que nunca pensaríamos fazer, mas é preciso que haja suficiente confiança para que os mais velhos tenham permissão para trabalhar com eles nas respostas”.

*O autor não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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José Rafael Nascimento
José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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