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Domingo, Dezembro 5, 2021
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“O Gebo Envernizado”, por Armando Fernandes

O Gebo objecto desta crónica está nos antípodas do esforçado contabilista vítima de sucessivos desaires, a viver no limiar da pobreza, daí vestir ordinariamente, por isso ser Gebo porque as circunstâncias da vida (sustentar a mulher e a nora, remoer a fuga do filho) o obrigam a ser gebo.

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O Gebo envernizado vive bem, veste e calça dentro do escalão de qualidade, já no referente ao gosto suscita comentários e risos pouco abonatórios. É envernizado, tem prosápia, gosta de ser considerado artista ou poeta. Vangloria-se a pretexto de uma cigarra cigarrar, de uma formiga formigar, de um asinino zurrar. Mas é Gebo.

Convido o leitor a fazer o salutar exercício de olhar à sua volta quando tomar uma refeição fora de casa. Verificará sem grande esforço o gebo em acção. Dou alguns exemplos.

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O empregado do restaurante coloca em cima da mesa acepipes ou entradas pouco usuais ou conhecidas. Nem todo o apreciador de comida é conhecedor. Não o sendo pergunta, pede esclarecimentos sobre as pitanças colocadas em cima da mesa, não lhe ficando mal, antes pelo contrário, solicitar esclarecimentos sobre o modo de as apreciar quando não sabe manejar os utensílios alinhados em cima da toalha ou toalhete. Não se tem gosto quando nunca se provou ou aprendeu a gostar.

O gebo não procura. É-lhe insuportável confessar o não saber. Sem cerimónias atira-se aos alimentos imitando o vampiro a sugar sangue do pescoço níveo da virgem desprevenida. Não raro recebe troco vigoroso – um dente partido, o palato a esturricar no inferno descrito por Dante, a garganta em sufoco –, a violência da resposta descontrola-o, esquece o pouco chá tomado em pequeno, atira às malvas o jargão académico, arrasta ruidosamente a cadeira, foge em direcção às instalações sanitárias. Aí injuria-se a si próprio, borrifa-se, mira-se e remira-se à espera do espelho lhe devolver imagem composta, envernizada. Sai das da casa de banho, não lava as mãos no lavatório colocado à entrada.

O leitor pode atribuir-me exagero na descrição, por isso ser levado a chamar-me facioso, no propósito de recuperar as suas boas graças peço-lhe o favor de conceder atenção ao vai vem de clientes dos restaurantes ou casas de comidas por si frequentadas e veja quantos clientes à saída das sentinas lavam as mãos e as secam convenientemente. Lavar as mãos é considerado acessório dispensável.

Os manuais de civilidade e etiqueta, alguns deles milenares, anotam instruções relativas aos preceitos a observar durante as refeições, já no tocante à sua preparação também temos registo de inúmeras observações relativas ao tema caso das contidas no suculento tratado OPERA, da autoria do famoso cozinheiro de Papas e Cardeais, Bartolomeo Scappi.

O Gebo não se coíbe de após o repasto (termo a lembrar o pastar) escarafunchar os dentes à vista de todos os circunstantes, fende as separações entre os dentes, olha os sedimentos recolhidos, se forem tamaninos volta a coloca-los na língua, se forem minúsculos cospe-os na direcção de quem está à sua frente. A seguir lambe o palito e coloca-o ao num dos cantos da boca.

O envernizado gebo no pós-prandial gosta de falar ao modo do bom samaritano, não deixando o estilo espalhafatoso debita considerações recorrendo a citações de autores que não leu, arvora-se em conselheiro acaciano sustentando a conversa em esteios familiares se existirem, ou em pessoas de sucesso, já falecidas.

Voltarei ao tema, lembrarei o extraordinário banquete oferecido por Assurbanipal II. Nele assinalam-se gastos com defumadores, óleos e essências.

Armando Fernandes

  1. O notável escritor que foi Raul Brandão escreveu uma peça de teatro intitulada O Gebo e a Sombra.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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