Apoie o jornalismo que fazemos,
junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -
Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Apoie o jornalismo que fazemos, junte-se à nossa Comunidade de Leitores

- Publicidade -

“O fim com cancro, mas com toque”, por Hália Santos

Naquele tempo dizia-se que era uma ‘doença má’. A falta de conhecimento da maioria das pessoas levava a que não questionassem. Era assim, uma coisa ‘má’ que ninguém conseguia controlar. Aceitava-se quase como um destino fatal, daqueles que nunca se sabe a quem vai calhar. Calhando, o fim era inevitável.

- Publicidade -

Havia quem acreditasse que as ‘coisas más’ corriam nas famílias, como a ruindade ou o bom feitio. Quase como uma transmissão direta. Na verdade, era a hereditariedade, palavra que muitos dos que se referiam às ‘coisas más’ certamente não sabiam pronunciar.

Não havia tratamentos, havia resignação. Mas dificilmente alguém com uma ‘coisa má’ morria sozinho. No seio da família se nascia e no seio da família se morria. Quase sempre. Sobretudo os que não sabiam pronunciar ‘hereditariedade’. Esses estavam provavelmente muito distantes dos poucos hospitais que existiam. E os hospitais não tinham resposta para aquelas ‘coisas más’.

- Publicidade -

Muitas vezes, nem se sabia bem onde estava a ‘coisa má’ a consumir o corpo. Se era mulher, o mais provável era que se dissesse que era na barriga. E na barriga podia ser útero, podia ser ovário, podia até ser bexiga. Anatomia não seria também o forte dos que não sabiam pronunciar ´hereditariedade´. Para o caso, pouco interessava. Não havia estudos sobre percentagens de sobrevivência nuns casos e noutros. Mesmo que houvesse, não os saberiam ler. Mas sabiam que não se deixa sozinho quem está a morrer.

Esta gente humilde e resignada foi vivendo e morrendo conforme pôde. A palavra ‘cancro’ não se pronunciava nessa época. Primeiro, porque não saberiam do que se tratava. Bastava-lhes saber que era uma ‘coisa má’ que ia crescendo dentro do corpo e que ia corroendo a pessoa. Primeiro ficava com uma cor amarelada. Depois ia emagrecendo. Perdendo as forças. Desfalecendo. Morrendo. Com alguém na cabeceira, que conhecia os sintomas e que sabia dar a única coisa que restava: conforto físico, mas sobretudo conforto emocional.

A palavra ´cancro´ começou depois a generalizar-se. Mas apenas se pronunciava quando não afetava diretamente quem participava na conversa. Parecia que havia um certo pudor. Como se o cancro só existisse lá longe. Nas notícias, quando alguém morria de cancro dizia-se que era de ‘doença prolongada’. O que, na verdade, nem sempre era o que acontecia. Porque muitas vezes o desenvolvimento da doença era fulminante.

A ‘doença prolongada’ era aquela expressão simpática que tentava atenuar a carga diabólica associada ao cancro. O adjetivo, relativo ao tempo e não à intensidade, era como um anestesiante. Para evitar a dureza de uma coisa que não tem nada que não seja duro. É dura a notícia. É dura a angústia. É duro o sofrimento. É dura a revolta. E tudo isto é ainda mais duro quando se está sozinho, à espera do fim.

Com a ‘coisa má’, morria-se quase sempre com alguém por perto. Com a ‘doença prolongada’, ainda se morria com alguém por perto, mas também já se morria sozinho, nos hospitais. Com cancro, morre-se muito sozinho. Porque os horários dos hospitais e dos lares não permitem visitas a toda a hora. Porque o sistema que temos não permite que se deixe de trabalhar para acompanhar quem morre de cancro.

Evoluímos muito. Hoje, quase todas as pessoas, mesmo as muito humildes, sabem pronunciar ‘hereditariedade’. Sabem também que a notícia de um cancro pode não ser fatal. Mas temem-no, porque continua a ter uma carga negativa enorme. Quase todos conhecem alguém, muito ou pouco próximo, novo ou velho, que morreu com cancro. Sabem, quase todos, mesmo que não saibam pronunciar, que há umas coisas chamadas ‘metástases’ que espalham o mal pelo corpo. Mas quem hoje tem um cancro, não sabe se vai poder morrer com alguém na sua cabeceira.

Morrer sozinho é um destino demasiado pesado, que nenhuma instituição deveria permitir. Depois da notícia, depois da angústia, depois do sofrimento e depois da revolta, que a morte de uma pessoa com cancro seja simplesmente adjetivada como ‘humana’, com o toque de quem conforta, com a voz de quem acalma.

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

- Publicidade -
- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Faça o seu comentário, por favor!
O seu nome