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Segunda-feira, Outubro 18, 2021

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“O elefante na sala”, por José Rafael Nascimento

“Elefante na sala” é uma conhecida expressão metafórica, usada para referir realidades ou problemas que, de tão evidentes, não podem ser ignorados. A expressão teve origem na fábula “O Homem Curioso” (1814) do russo Ivan Krylov, a qual conta a história de um homem que vai a um museu e nota todo o tipo de coisas, excepto um enorme elefante numa sala. A expressão é frequentemente usada com ironia, nomeadamente quando os problemas são intencional ou desleixadamente ignorados por quem, ou não tem interesse em notá-los e valorizá-los, ou não se interessa por eles e negligencia-os. A metáfora apresenta semelhanças com a expressão “o Rei vai nu”, originada no conto homónimo do dinamarquês Hans Christian Andersen, em que todos fingiam – por terem sido levados a crer – que o Rei ia impecavelmente vestido com um tecido que só pessoas inteligentes podiam ver, até que uma inocente criança gritou “Olha, olha, o Rei vai nu!”, soltando de imediato a gargalhada geral do povo condicionado.

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De igual modo podem ser encarados muitos problemas existentes nos nossos municípios, ou porque toda a gente os observa e sabe que eles existem, mas finge-se que não se passa nada, ou porque se escamoteia a realidade com manobras de diversão para parecer que está tudo bem e que esses problemas não existem. Não seria mais simples, honesto e funcional reconhecê-los e procurar resolvê-los? Bastos exemplos poderiam ser dados, mas apontarei apenas dois de diferente natureza: a falta de saneamento básico na aldeia abrantina de Vale de Zebrinho, freguesia de São Facundo, e as elevadas taxas de abandono e insucesso escolar no ensino básico e secundário em Abrantes.

No caso da falta de saneamento básico, desde o 25 de Abril que é prometida à população a instalação da rede de esgotos, sendo esta promessa repetida a cada quatro anos nas campanhas eleitorais autárquicas. Em 2013, o folheto do partido vencedor comprometia-se a “criar condições de saneamento básico em Vale de Zebrinho”. Como nada foi feito, o mesmo folheto em 2017 foi (retro-)actualizado para “analisar a viabilidade de instalação de saneamento básico em Vale de Zebrinho” (!). Em Novembro de 2017, solicitei na Assembleia Municipal de Abrantes esclarecimentos sobre esta matéria, tendo-me sido dito que o referido saneamento básico sempre esteve garantido com o serviço a pedido de limpeza de fossas. Se assim era, o que se pretendia dizer com as referidas promessas eleitorais?! Depois de alguma insistência, a edil acabou por reconhecer que havia um “elefante na sala”, embora até ao presente o bicho lá continue à espera sentado.

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No outro caso, relativo à eficácia do projecto educativo municipal, a autarquia abrantina revelou recentemente que duas escolas do concelho foram premiadas com a Bandeira Verde do programa Eco-Escolas, o qual visa promover a cidadania activa e participativa em benefício do ambiente e da sustentabilidade, e que a Escola EB1 da Chainça ganhou o selo de Escola Amiga da Criança 2018 na categoria Espaços de Recreio e Convívio, com o projecto ‘Recreio Mais Feliz”. Nada contra, antes pelo contrário, está de parabéns a comunidade educativa responsável por estes sucessos. Mas, ao mesmo tempo que são apregoados estes êxitos, nada se diz e reina o silêncio sobre a evolução menos positiva da taxa de retenção e desistência no ensino básico, bem como da taxa de transição/conclusão no ensino secundário (ver http://www.mediotejo.net/abandono-e-insucesso-escolar-no-medio-tejo-por-jose-rafael-nascimento).

Pergunta-se: sem prejuízo de ambos serem publicitados, quais são mais relevantes para o futuro dos jovens estudantes e da comunidade abrantina no seu todo, aqueles sucessos ou estes insucessos? Neste caso, como em tantos outros conhecidos, até quando se vai fazer de conta que não há um “elefante na sala”?

José Rafael Nascimento tem 64 anos de idade e reside na aldeia de Vale de Zebrinho (São Facundo), na casa que foi dos seus avós maternos. É bacharel em Economia, licenciado em Organização e Gestão de Empresas e mestre em Psicologia Social e Organizacional, com pós-graduação em Marketing Político e Social. Tem desenvolvido atividade docente no ensino superior, assim como formação e consultoria empresarial, depois de uma carreira de gestor em organizações multinacionais e públicas. Tem dedicado a sua vida cívica à atividade associativa e autárquica, interessando-se pelos processos de participação e decisão democráticos.

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