PUB

“O dia em que atirei os miúdos pela janela…”, por Marta Gameiro Branco

Em minha casa estamos em pleno período paleolítico: o macho sai todos os dias para a selva, à mercê de um qualquer monstro desconhecido, à procura de algo mais substancial para a prole. Volta à noite a contar os seus feitos, cheio de fome, esperando – qual patriarca dos anos 50 – ter a sua refeição na mesa e os putos lindos e asseados prontinhos para ir para a cama.

A miúda mais nova, do alto dos seus 2 anos e meio, decidiu optar pelo naturalismo e anda todo o dia nua. Não lhe consigo sequer vestir umas calças! Sapatos, então… se antes já era difícil, agora tornou-se impensável. De pipi ao léu é que ela anda bem! Suponho que instintivamente já se apercebeu que não vai sair de casa, por isso, whats the problem? Assim até dá mais jeito ir ao bacio, sem ter o trabalho de baixar as calças!

É verdade que muitas vezes a urgência com que a vontade se acumete não se coaduna com o vestuário, por isso talvez seja mesmo melhor. Menos roupa para lavar, penso eu. Ao mesmo tempo voltou ao regime de amamentação exclusiva! Isto de ter mamas disponíveis 24/7 não é uma crise sanitária! Qual quê! Isto é tipo Natal antecipado! Nem um cadito de carne. Nem uma sopinha para enganar a mãe. É mesmo massa com mama, arroz com mama e, ocasionalmente, iogurte com bolachas e mama. E pronto! Até estaria preocupada se isto no fundo não me facilitasse imenso a vida…

PUB

O miudo de 5 anos está tipo macaco. Sobe pelos sofás, pelas paredes, pelas cadeiras, por mim acima. A menos que sob efeito de alguma droga (vulgo, telemóvel, tv, etc.), tem a amígdala completamente fora de controlo. Nestas alturas é que sentimos a falta de um córtex pré-frontal desenvolvido!

O seu instinto de sobrevivência e modo de vigilância estão no auge e quando contrariado opta inevitavelmente pela luta, já que fugir, fugir, e não pode fugir para lado nenhum.

A professora lá vai mandando uns trabalhos. Curiosamente têm um efeito estranhamente calmante. Suponho que seja por lhe dar alguma sensação de normalidade… ou talvez pelo facto de eu lhe assegurar que se ele não fizer aquilo bem a professora não sabe se o pode mandar para a escola primária (o que neste momento é quase tão importante para ele como a descoberta da vacina para o Covid 19).

Em momentos de acalmia descobriu que a parede é um belo parceiro de futebol. Até lhe deu o nome de Power Ranger Vermelho. Infelizmente é a mesma parede onde se encontra a televisão, por isso, secretamente, estou esperançosa que a parede saia vencedora.

Com o passar dos dias desisti de intervir nas picardias entre eles. Acabei por perceber que se não fizer nada, passados uns 5 minutos o mais velho acaba por tomar a atitude mais acertada. Isso ou já se cansou de ouvir a irmã gritar, ainda não percebi bem… mas tem sido benéfico! Acho que até já se dão melhor! No meios de choros e abraços vão conhecendo os limites de cada um. Temos de olhar para o positivo.

A fêmea cá de casa (vulgo eu) está a tomar conta desta malta toda. Dentro da sua caverna, que é o que o meu pequeno T2 por estes dias me parece, o meus níveis de ansiedade andam a escalar níveis inimagináveis.

A minha estabilidade financeira está em perigo e não há corona que suplante essa preocupação! Ando tão tensa que ontem nem conseguia dobrar o pescoço! O meu período de acção/reacção em relação a qualquer constragimento é inexistente e são precisas várias respirações profundas para não atirar os miúdos janela fora.

Como leitora compulsiva que sou, tem-me valido Michaela Owen, Laura Sanches, Daniel Siegel, Jeesper Jull entre outros e limitei-me a atirá-los apenas porta fora! Calma com a indignação, tenho um pequeno terraço (pequeno demais), por isso não há perigo de segurança nacional. Apenas o suficiente para o miúdo quando tem as suas crises de clausura não me parta a mobília toda!

Não sem bem como, em duas semanas li dois livros. Agora estou a ler o terceiro e o quarto ao mesmo tempo. Provavelmente porque não consigo dormir à noite… O mais interessante chama-se “Seven principles for making marriage work”. Não deixo de me questionar se o ter comprado este livro mês passado não foi um qualquer sinal do Universo para não pedir o divórcio mal o confinamento acabe.

O modelo de dona de casa dos anos 50 definitavemente não me assenta bem e dou por mim a desejar secretamente que alguém parta o raio de um dente para eu ter um motivo válido, urgente e inadiável para sair de casa.

Respira, inspira, não pira…

O desinfectante é o nosso novo melhor amigo. A TV só passa Cartoon Network, o que eu agradeço pois os jornais causam-me palpitações. A casa está de pernas para o ar. Os putos andam nus mas continuo com roupa para passar a ferro! Tenho conseguido variar nas refeições, o que até agora tem sido a minha maior vitória.

E pronto era só isto, de resto estamos todos bem. Ninguém tem tosse ou febre. Mas só passaram 15 dias…

PUB
Marta Gameiro Branco
Médica dentista especializada em endodontia, 31 anos. Mãe, para os bons e os maus momentos. Gosta de questionar, gosta de perceber, ainda que a questão seja óbvia. Porque o mundo é um livro aberto onde há sempre a possibilidade para mais uma leitura. (E lavem os dentes todos os dias!)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

APOIE O NOSSO JORNAL, TORNE-SE UM LEITOR BENEMÉRITO

Se lê regularmente as nossas notícias torne-se um leitor benemérito fazendo contribuições a partir de 10€/mês, ou doando valores iguais ou superiores a 100€. Esses leitores passam a constar da ficha-técnica como apoiantes deste projeto independente de jornalismo. Pode também fazer uma contribuição pontual (5€, 10€, 20€, o que puder e quiser).