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Sábado, Julho 31, 2021

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Semana Santa do Sardoal | O Convento e o Oratório de Arte Namban

Os Seigan são oratórios em forma de capela com pinturas no interior (normalmente a Virgem), são fechados com meias portas e encimados por frontão, habitualmente de forma triangular.

São objetos devocionais para o culto privado, pretendem corresponder a uma necessidade particular de vivência religiosa. O Seigan do Convento do Sardoal segue a tipologia comum destas peças. Este oratório em particular enquadra uma imagem muito bela da Virgem Maria, com o Menino Jesus nos braços.

É uma pintura a óleo sobre uma lâmina de cobre, uma abordagem atenta e similar a outras obras, permitindo desse modo afirmar ser de feitura europeia. O estilo é Maneirista, apresentando um fundo uniforme de cor escura, sem presença de qualquer outro elemento, evidenciando unicamente a imagem religiosa. A Virgem é representada com o Menino Jesus ao colo, tendo uma indumentária habitual nestas tipologias representativas: túnicas com mantos sobrepostos, debruados a dourado, a Virgem de cabeça coberta com véu branco. Ambas as imagens se encontram coroadas com resplendores dourados, irradiando luz.

A estrutura do Seigan é de madeira e emoldura a pintura. Toda a superfície se encontra revestida com laca de cor negra (uruxi), sendo uma técnica com a particularidade de secar em ambiente húmido, permitindo-lhe desta forma atingir a cor negra tão cerrada, consiste numa goma vegetal, aplicada em camadas individuais, tendo desta forma uma secagem lenta.

Quanto à decoração do Seigan, encontramos sobre o uruxi negro uma aplicação de maqui-é a ouro, prata e outros metais não preciosos. Nesta decoração usou-se ainda o raden, que consistia na incrustação de elementos de madrepérola, recortados nas formas desejadas e que faziam refletir a luz, conferindo às peças um brilho particular.

O programa decorativo deste oratório, quer no seu exterior quer no seu interior, são inspirados na natureza; aí encontramos composições vegetalistas, florais e arbóreas.

No exterior de ambas as portas, e ao gosto nipónico, descobrimos alguns elementos da fama. Dois pares de pombas voam entre as flores e os frutos lá representados. O exterior do volante esquerdo está decorado com cerejeira do Japão.

A cerejeira, na simbologia japonesa, é atributo tradicional de pureza e simplicidade. O interior do mesmo volante apresenta ramagens de cameleiras em floração. Estas foram representadas com grande densidade, vigor e exuberância. No exterior do volante direito surge representada a laranjeira tachibana, carregada de frutos, como símbolo de longevidade. O interior do mesmo volante reproduz o bordo do Japão. Esta planta é associada ao ácer pelas variadas tonalidades  adquiridas no Outono, aqui alcançadas com superior mestria.

A circunscrever as formas estruturais e a emoldurar os espaços reservados, encontramos ainda enxaquetados, linhas ondulantes, formas em ziguezague e dentes de serra. O frontão em forma triangular ostenta ao centro o símbolo Inaciano. Envolvem-no ramagens de citrinos e molduras nas mesmas formulações referidas anteriormente.

No centro, observa-se a abreviatura do santo nome de Jesus (identidade da Companhia de Jesus), ao alto ergue-se a cruz e sob a mesma estão os três cravos da Paixão que trespassam um coração. Esta divisa é envolvida por um resplendor luminoso e irradiante.

As várias ferragens, dobradiças e fecho são em cobre dourado. Os ornamentos decorativos de tipo floral são gravados sobre o metal.

A extraordinária obra de arte que acabamos de descrever foi uma oferta de D. Jerónima de Parada, dos Valhascos, que está sepultada ao pé do Altar de Nossa Senhora da Esperança, no Convento de Santa Maria da Caridade, onde originalmente se encontrava este Seigan.

No testamento de Jerónima de Parada, na oitava página podemos encontrar o seguinte:  “ no Retabolo de Nossa Senhora da   Sperança se pora a Senhora que esta no Conv.to da Charidade com seu Oratorio, e mais o meu Sam Sebastião de marfim com o seu Nicho e hua lamina de Nossa Senhora  com o caxilho em que está, e se ponhão mais no ditto Retabolo quatro laminas,  duas dos Anjos, e duas das Relíquias.”

Apesar da decoração em laca conter maioritariamente um carácter vegetalista, tanto a forma como a iconografia são referencias essencialmente Cristãs.

Esta rara obra de arte do período “Azuchi-Mamoyama” foi somente possível no contexto da presença de alguns Sardoalenses em Nagasaki, como o marido de Jerónima de Parada, em cerca de 1549 e 1640.

Seigans no mundo inteiro há 25, com estas dimensões (Altura: 47,2 cm; largura:35cm; profundidade: 5,1cm), existem dois, o de Sardoal e o da Fundação Ricardo Espírito Santo, com a mesma gramática decorativa do existente no Sardoal, porém, o mais viajado, estudado e em melhor estado de conservação é mesmo o Seigan pertencente ao Sardoal.

Texto de João Soares e Maria Rocha

Técnicos superiores de conservação e restauro no município de Sardoal

Foto de Paulo Sousa

 

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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