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Quinta-feira, Agosto 5, 2021

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“O consumo consumidor”, por Armando Fernandes

Sucedem-se os estudos e análises sobre a transformação operada nos últimos quarenta anos no respeitante ao abastecimento de produtos alimentares na Europa comunitária, logo em Portugal. Desfiam-se recordações, no que tange aos portugueses, todos quantos se obrigaram a cumprir o serviço militar obrigatório na guerra colonial lembram-se da surpresa Coca-Cola, proibida na então Metrópole.

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Hoje ao contrário do antigamente as possibilidades de abastecimento são transbordantes, aglomerado populacional médio dispõe, pelo menos, de uma média superfície onde o consumidor é consumido pelas centenas de referências à sua disposição, desde os legumes frescos às carnes fumadas, passando pelos lácteos, os frutos verdes e secos, os peixes e alguns mariscos, as bebidas de vários géneros, os bolos, os confeitos, ainda o fiel amigo de vários quilates e o pão. Só de pensar nesta mutação ficamos perplexos, daí não podemos mostrar espanto se as crianças revelarem desconhecimento acerca do revestimento da pele de frangos, perus, patos e coelhos, só para citar os de maior consumo.

Sim, os meninos conhecem ovos estrelados, fritos, mexidos, cozidos, batidos, não conhecem galinhas poedeiras, patas, peruas, quanto muito vislumbram-nas nos desenhos animados e a configurarem jogos nas plataformas tão bem digitalizadas por eles.

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O investigador Peter Lasket escreveu uma obra intitulada O Mundo Que Nós Perdemos, realmente há quarenta anos, mesmo há quarenta anos, mesmo há trinta, o sempre venerado pão era imprescindível na mesa de todos, hoje é substituído em muitas casas, alteraram-se os hábitos de consumo, a dieta alimentar aumentou em composições e preparos levando a alteridades no sistema dietético.

Seguramente, ninguém estranhará o facto de um casal de idosos de Alvega iniciar o dia tomando leite a envolver cereais, comendo torradas barradas com manteiga e/ou margarina, encerrar o pequeno-almoço (o mata-bicho apagou-se na memória) tomando uma chávena de café. Os nossos avós ficariam espantados se vissem.

O exemplo acima referido pode estender-se às restantes refeições, ao crescente aparecimento sobre a mesa de produtos congelados, queijos e frutos vindos de outras paragens, até no tocante ao vinho podemos dizer a mesma coisa. O bagaço tornou-se saudoso sendo uma raridade, o uísque é uma vulgaridade.

O escritor Ramalho Ortigão escreveu um delicioso texto relativo às especialidades à venda nas lojas finas de Lisboa na época natalícia, menciona produtos já desaparecidos, refere outros ainda agora muito considerados, obviamente, não anotou os aparecidos nos últimos anos.

Tantas e tão grandes alteridades deviam justificar atenção dos senhores autores dos programas escolares, se o fazem no nicho da nutrição (os resultados não são famosos), esquecem os referentes à história da evolução do dar de comer e beber a ricos e pobres, a filhos e enteados, ao livres e aos presos, ao sãos e aos doentes.

Não faltam elementos capazes de lastrearem tais programas, as crianças aprendiam a conhecer o dito Mundo que nós perdemos, a perceberem as vantagens de não cometerem abusos no consumo de determinados comeres e guloseimas livrando os pais da consumição de a torto, e a direito, alinharem com eles na absorção da comida rápida.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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