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Domingo, Novembro 28, 2021

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“O campo de instrução do Polígono Militar de Tancos”, por Fernando Freire

Importa relevar que desde a mais remota antiguidade os chefes militares sempre careceram de espaços ou territórios para a preparação das suas forças para ensaiar a arte da guerra. Em Portugal, antes do campo de manobras da Charneca de Tancos, atual Polígono Militar, existiram campos para essa preparação, embora não fossem permanentes. Terminavam os exercícios militares e logo se dissolvia todo o teatro de operações.

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Vejamos alguns exemplos que constam da nossa história militar:

– Campo da Ajuda, em Belém, em 1763, dirigidas pelo Marechal, Conde de Lippe;

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– Campo do Monte Branco, perto de Estremoz, em 1763, dirigidas pelo mesmo General;

– Campo dos Olhos d’Agua, entre as vilas da Moita e de Palmela, em 1767, dirigidas pelo Conde de Lippe;

– Campo da Porcalhota (atual Amadora), em 1790, dirigidas pelo Marechal, Conde de Oeynhausen;

– Campo da Charneca, de Sintra, em 1793, dirigida pelo Marechal Francisco Noronha e o General João Skelater;

– Campo do Quadro, próximo da vila de Azambuja, em 1798, dirigida pelo Duque de Lafões.

Entretanto, com o evoluir das técnicas e táticas, os militares começaram a reconhecer a necessidade de construir um campo de manobras duradouro e estável onde os seus homens pudessem, com a necessária estabilidade em recursos humanos, formadores, e infraestruturas, preparar as tropas para exercícios práticos de manobras e teatros de operações militares.

A primeira tentativa é a criação do campo de manobras de instrução em Vendas Novas, em 1861.

Apesar de alguns trabalhos em Vendas Novas, o mesmo campo não avançava. Estávamos num impasse. Fontes Pereira de Melo cria então uma comissão para encontrar o local ideal para a implementação desse campo. Foram analisados os terrenos da Granja do Marquês de Pombal, entre Sintra e Mafra (…) e o campo das Vendas Novas.1

Esta comissão de análise às diferentes opções “… tratou de proceder ao exame dos terrenos próximos da capital (…) e não os encontrando com as precisas condições …” dirigiu para Tancos as suas vistas.

Portanto, a escolha da Charneca de Tancos, em detrimento da Granja do Marquês de Pombal, entre Sintra e Mafra e o campo de Vendas Novas, é uma escolha política e geográfica, conforme o demonstra, inequivocamente, o preâmbulo da Portaria de 3 de agosto de 1866. Compulsando o seu prefácio podemos vislumbrar o legislador a fundamentar as razões de facto para a seleção deste território e para aqui construir, de raiz, um campo de manobras militares duradouro e são elas:

1.º – Condições ideias de topografia para exercício e operações de treino:

“ … a charneca de Tancos, é medianamente acidentada, próxima à foz do Zêzere e sobre o Tejo, e à do Nabão sobre e o Zêzere, está em condições topográficas recomendáveis para exercícios e operações militares”;

2.º – Local de boa salubridade que garantia a proteção contra contágios ou doenças.

“… nas imediações da dita charneca não há pântanos nem arrozais que a tornem suspeita de insalubridade, e que a elevação em que está sobre o leito do Tejo e a natureza do seu solo a colocam em favoráveis condições higiénicas”;

3.º – Abundância de água para consumo humano

“… a vizinhança de dois importantes rios permite, com o auxilio de alguns meios mecânicos, o abastecimento do campo com excedente e água, o na abundância que se queira a e for conveniente”;

4.º – Centralidade no país e boas vias de comunicação, fluvial e ferroviária.

“… a circunstancia de passar junto à dita charneca o caminho de ferro de leste (construído em 1862) e o rio Tejo facilita as comunicações daquele campo com a capital o com o resto do país, e contribui assim eficazmente para a economia dos transportes, reduzindo a despesa que é necessário fazer”;

5.º – Espaço territorial apto ao exercício de manobras militares.

“… o terreno de que se trata é inculto e aberto, e confina pelo norte e com a charneca da Asseiceira, que se presta a evoluções e manobras com bastante desenvolvimento”.

Eis as razões essenciais para a escolha da Charneca de Tancos pelo que: “ … houve por bem o mesmo augusto senhor determinar que na charneca de Tancos se forme o acampamento de tropas que no presente ano devem fazer exercícios e manobras de instrução militar, aguardando o os resultados da experiência para resolver de um modo definitivo se o terreno agora designado pode com vantagem ser destinado permanentemente para aquele fim.  Paço, em 3 de agosto de 1866 – António Maria de Fontes Pereira de Mello.”

No mesmo ano de 1866 Sua Majestade El-Rei aprova o orçamento, na importância a de 7:600$000 réis, da despesa necessária par a o abastecimento de aguas potáveis do campo de instrução na Charneca de Tancos.2

Eleito o campo em Tancos, em meados de outubro de 1866 decorreram exercícios que juntaram 10.100 militares, o que alterou a vida das populações aqui residentes.

O campo de manobras é convertido em 28 de junho de 1880, em Escola Regimental Prática de Engenharia (EPE). São criadas as primeiras instalações. Entre a estação de caminhos de ferro de Almourol e a EPE passa a funcionar uma linha férrea de bitola estreita cujos resquícios ainda são visíveis em alguns pontos do polígono. A arma de engenharia passa a fazer trabalhos de reconhecimento no país. Em 1888 iniciam-se os primeiros ensaios com aeróstatos, depois balões e mais tarde, dirigíveis e aeroplanos. 

Em 10 de Março de 1910 têm lugar as primeiras experiências de voo tendo assistido ao evento o Rei D. Luís, que recorrentemente aqui se deslocava para acompanhar as missões militares.  Ainda hoje o monte que serviu de observatório, então monte da Carrascosa, mantém o seu nome. O voo de aeroplano aconteceu na carreira de tiro. O avião denominado Gomes da Silva II, de 6,75 metros de envergadura, com um peso de 185 quilos e equipado com um motor Anzani de 28 CV, montado em Tancos, deslocando-se para sul, fez várias tentativas falhadas devido às más condições da pista. O avião rolou umas dezenas de metros e veio a acidentar-se num talude ao lado da carreira de tiro e, em consequência, foi abandonado o projeto. Davam-se os primeiros passos na aviação em Portugal.

Durante o período das manobras torna-se a charneca um lugar interessante e concorridíssimo de curiosos para virem visitar o campo e as suas manobras.

Mais tarde dá-se a EPE participar na 1.ª Guerra Mundial, na preparação do CEP (Corpo Expedicionário Português), na construção do Campo de Instrução Militar de Santa Margarida, na preparação dos quadros de Engenharia e de outras armas, nomeadamente especialistas de minas e armadilhas, e ainda na mobilização de pessoal para a Guerra do Ultramar. Atualmente, no Regimento de Engenharia n.º 1 (RE1), continua a formar os militares de Engenharia e os especialistas dos três ramos das Forças Armadas, das Forças de Segurança e de entidades civis ligadas à Defesa Nacional e à Proteção Civil, nomeadamente nas áreas de sapadores, explosivos, destruições, minas e armadilhas, inativação de engenhos explosivos, operação de embarcações, contra vigilância, defesa, construções e instalações, vias de comunicação, proteção ambiental e saúde pública.3

 Em 2021 estão instaladas no polígono três unidades militares:

-O RE1, ex-EPE, que ocupa uma vasta área que vai desde a ribeira de Tancos até à Praia do Ribatejo. Sucedeu à Escola Regimental Prática de Engenharia, à Escola Prática de Engenharia, e é a segunda unidade mais antiga do Exército e proprietária do Castelo de Almourol.

– A Brigada de Reação Rápida (BRR) que ocupa as instalações da antiga Base Aérea n.º 3 (BA3) que executa as operações em todo o espectro das operações militares, no âmbito nacional ou internacional. É comandada por um Brigadeiro-general da qual dependem as seguintes unidades: Centro de Tropas de Operações Especiais​, de Lamego; O Regimento de Artilharia n.º 4, de Leiria; O Regimento de Cavalaria N.º 3, de Estremoz; O Regimento de Comandos, da Carregueira; O Regimento de Infantaria N.º 1, em Beja; O Regimento de Infantaria N.º 10​, em São Jacinto; O Regimento de Infantaria N.º 15​, em Tomar;  O Regimento de Paraquedistas, em Polígono Tancos; e a Unidade de Apoio da Brigada de Reação Rápida​, no mesmo local.

Pela importância da BA3 no nosso território faço um pequeno resumo. O distintivo da unidade era um galgo, da autoria do Capitão Ribeiro da Fonseca, que se manteve até à sua extinção e que ainda se pode vislumbrar no portão nascente e poente da unidade. O lema da unidade é “Res non verba”, ou seja “Atos e não palavras”, em Português.

Em 27 de Outubro de 1921 aterram em Tancos dois aviões Caudron GIII, pilotados pelos Capitães Ribeiro da Fonseca e Luís Gonzaga, inaugurando-se nessa data a Esquadrilha Mista de Treino e Depósito. A sua primeira Ordem de Serviço data de 1 de agosto de 1921. Foi o berço da aviação de caça em Portugal, estando, por isso, na origem das mais longas tradições da aviação Portuguesa.

Em 9 de Setembro de 1923, foi inaugurado o primeiro Hangar. Em 1933, chegaram os primeiros aviões de caça da aviação Portuguesa: 3 FURY. A partir de 1 de janeiro de 1939, por determinação do Ministro de Guerra, passou a chamar-se BASE AÉREA DE TANCOS, sendo seu Comandante o Major Craveiro Lopes, mais tarde Presidente da República. A 30 de Outubro de 1939, a Base Aérea, passou a designar-se por BASE AÉREA n.º 3. Em 1940, foram construídos os dois Hangares, ainda hoje existentes. Em 1951, foram inauguradas as Casernas, Refeitórios e a Estação Elevatória de Águas. Em julho de 1952, atingiu-se o maior número de aviões baseados na unidade: 108 SPITFIRES, HURRICANES, THUNDERBOLTS, etc.

A partir desta altura, a missão da Base sofreu grandes alterações, tendo-se tornado mais ampla e passando a abranger sectores muito diversificados na preparação do pessoal especializado, para fazer face às exigências da guerra do Ultramar. Com efeito, competia-lhe, por um lado, a formação dos pilotos de helicópteros, desde o seu início até à sua partida para o Ultramar, incluindo o estágio operacional de todos os pilotos de T-6 e DO-27; cursos de adaptação em plurimotores; apoio aéreo ao Regimento de Caçadores Paraquedistas na formação da totalidade dos cursos de tropas para-quedistas e na manutenção do seu treino de saltos; cooperação com o Exército em apoio aéreo aos vários centros de instrução operacional; formação de observadores do Exército; transporte de evacuação sanitária em helicóptero, mantendo para o efeito tripulações e aeronaves em alerta; etc. Por outro lado, conjuntamente com esta atividade, competia à BA3 a instrução de todos os Oficiais, Sargentos e Praças da Polícia Aérea e ainda as Praças Condutores Auto, Sapadores Bombeiros, Amanuenses, Clarins e Auxiliares do Serviço Religioso.

Ao longo deste período dinâmico da sua história, terá a BA3 atingido o máximo de atividade global contando com um efetivo de mais de 2000 homens. A Base vem a ser desativada em 31 de dezembro de 1993. Operaram na BA3, vários tipos de aeronaves:

COUDRON E MARTINSYDE EM 1921/22;

MORANE e A VRO-ARDlSCO em 1927/28;

HAWKER FURY em 1933;

VIKER, POTEZ e WAWKERHIND em 1937;

GLADlATOR em 1939;

CUNTIN MOHAWK em 1944;

SPITFIRE e HURRICANE em 1947;

THUNDERBOLT em 1952;

CUB, MAGISTER, OXFORD e JU.52 em 1955;

T-33 em 1958;

DORNIER (D0-27) e HELICÓPTEROS ALII e ALIII em 1964/65;

T-6, NORD-ATLAS e HELICÓPTEROS SA-330 (PUMA) em 1965/70;

A partir de 1974 ALIII, CASA 212 (AVIOCAR) e CESSNA FTB-337G.4

– O Regimento de Paraquedistas. Esta unidade é instalada em 23 de maio de 1956, na sequência da Portaria nº 15671, de 26 dezembro de 1955. Dizia o seu preâmbulo; “o Batalhão de Caçadores Para-quedistas terá a sua sede na área do polígono militar de Tancos, junto da Base Aérea nº3, que porá à sua disposição os necessários meios de transporte e lançamento aéreos.”

O quartel já teve as seguintes denominações: BCP – Batalhão de Caçadores Para-quedistas; RCP – Regimento de Caçadores Para-quedistas; BETP – Base Escola de Tropas Para-quedistas; ETAT – Escola de Tropas Aerotransportadas; ETP – Escola de Tropas Para-quedistas; RPara – Regimento de Paraquedistas.

Mas seja qual for o nome que qualquer cidadão lhe dê será sempre “a Casa Mãe das tropas paraquedistas”, onde no dia 23 de maio todos se descolam em romagem para viver memórias e contar histórias de vida. 

Portugal teve um papel protagonista no mundo durante séculos a fio, criando monumentos, gerando rotas, emigração de gentes, mutuação de fauna e de flora. Essa epopeia mudou o mundo deixando vestígios em todos os continentes.

Vila Nova da Barquinha tem na sua génese o gosto pela coisa militar:

– No século XII, nos primórdios da nacionalidade e na reconquista, com Gualdim Pais em Almourol e no Castelo do Zêzere;

– No século XV, com Frei Gonçalo Velho, comendador de Almourol e da Cardiga, que mandou construir no Zêzere, Cafuz, Praia do Ribatejo, as primeiras galeotas que partiram à descoberta das ilhas de Santa Maria e São Miguel, nos Açores.

– No século XIX, com os pontoneiros, em Tancos e com o campo de manobras;

– No século XX e XXI, com a EPE, o Corpo Expedicionário Português (CEP) protagonista do “Milagre de Tancos” e da “Cidade de Paulona”, a Força Aérea (Base Aérea n.º 3) e as Tropas Paraquedistas.

Viveram e vivem, neste Campo de Manobras, milhares e milhares de cidadãos que cumpriram e cumprem a sua nobre missão ao serviço de Portugal.

Teve este polígono criado em 1866 um papel evidente na história de Portugal que importa lembrar e reconhecer, caldeado com laboro, dedicação e sacrifício. Que constitua raízes de memória perene para os vindouros!

Bibliografia:

1 Ordem do Exército n.º 24, de 9 de julho de 1866

2 Ordem do exército n.° 30, de 13, o Decreto n.° 184, de 17 de agosto

3 “História da Escola Prática de Engenharia, 1880-2013”. Edição do Regimento de Engenharia de Tancos, 2015

4 Marques, Aires. Base Aérea de Tancos, 1921-1994, Edição Fronteira do Caos, 2017

Fernando Freire é Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha e investigador da História Local

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