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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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“O burkini é sinal de escravidão?”, por Hália Santos

Um burkini é um fato que combina uma burka e um bikini, ou seja, um fato que cobre uma mulher praticamente na totalidade e uma pequena peça de roupa que deixa que a mulher mostre quase todo o seu corpo. Só podia, pois, ser uma combinação explosiva!

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Verdade… estamos a falar de duas peças de vestuário que estão nos opostos, mas que convivem nos tempos que correm. Quer dizer: convivem, mas mal. Corre para aí, lá para os lados de França, a ideia de que nos sítios onde as mulheres francesas usam tradicionalmente o bikini as outras não podem usar burkinis.

Para ser honesta, incomoda-me o burkini. Como me incomoda a burka e os véus. Há uns dois anos vi um conjunto de mulheres colocarem, à força, um lenço na cabeça de uma menina, que teria uns 12 anos, que estava completamente europeizada. Foi das coisas que mais me custou ver. Nunca me vou esquecer da forma como esbracejava para tirar o lenço. Não conseguiu. Era uma luta desigual, entre uma miúda e várias mulheres da sua família.

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A rejeição da miúda comprova bem a dificuldade de alguém viver encravado entre dois mundos…

Não quero nem imaginar como é viver assim. É muito fácil para quem está de fora – que sempre viveu como quis, que sempre se vestiu como quis – julgar as mulheres que têm que usar véus, burkas ou qualquer outra coisa que tenha como objetivo evitar que outros homens, que não os seus, as vejam.

Mas há muitas que o fazem por verdadeira opção!

Talvez, como também há muitas mulheres portuguesas que se vestem de preto o resto das suas vidas desde que ficam viúvas. Mas a minha intuição diz-me que muitas o fazem só por causa daquela praga nacional que é “o que os outros vão dizer”.

Isso faz-me lembrar o dia do funeral do meu avô. Eu tinha 19 anos e só vestia de preto por opção, coisas da idade. Por isso, fui de preto ao funeral e toda a gente comentou que eu era muito novinha e que não devia estar vestida assim. A minha irmã, dois anos mais velha, foi de roxo porque, para ela, essa era a cor que simbolizava o seu luto. Foi criticada por não ir de escuro…

Se queremos mesmo respeitar cada pessoa e a forma como encaram a vida e o mundo, temos mesmo que ter muito cuidado nos juízos que fazemos. Cada um sabe de si. Por isso é que me irrita a proibição do burkini em certas praias francesas, alegando-se que esta peça de vestuário vai contra os bons costumes. Mas o que é isso dos ‘bons costumes’? Quem os define? Como evoluem?

Não é um assunto fácil, como comprovam as próprias divisões no Governo francês. Parece-me que a ministra da Educação, uma jovem mulher de origem muçulmana que chegou a França com quatro anos, vinda de Marrocos, conseguiria conduzir bem a polémica, se não tivesse sido desautorizada pelo próprio primeiro-ministro. Sendo uma das vozes feministas do Governo francês, esteve bem ao condenar as proibições do burkini. Para ela, este tipo de atitudes não resolvem nada e só servem para aumentar as tensões. Mesmo sonhando com uma sociedade em que as mulheres sejam livres e orgulhosas dos seus corpos, esta jovem mulher no difícil mundo da política conseguiu ter um discurso ponderado e sensato, até o primeiro-ministro arrasar com a ideia bombástica de que os burkinis são uma forma de escravizar as mulheres…

Talvez na família dele as mulheres nunca tenham feito coisas em função de supostos bons costumes, preocupadas com o que os outros dizem, ou simplesmente para agradar os homens!

Ah, pois, mas isso não tem mal nenhum nem interessa nada!

Professora e diretora da licenciatura em Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes (ESTA), do Instituto Politécnico de Tomar, doutorou-se no Centre for Mass Communications Research, da Universidade de Leicester, no Reino Unido. Foi jornalista do jornal Público e da Rádio Press. Gosta sobretudo de viajar, cá dentro e lá fora, para ver o mundo e as suas gentes com diferentes enquadramentos.
Escreve no mediotejo.net à quinta-feira.

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