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Domingo, Julho 25, 2021

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O Brexit e os “negócios do Estado”, por Sérgio Ribeiro

De vez em quando surpreendo-me. Defeito meu, decerto, pois haverá quem ache que já teria idade para que nada me surpreendesse.

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Ora, procurando refrescar a memória de ex-bolseiro da Gulbenkian a propósito do uso e abuso do tema internacionalização, tropecei num texto relacionado com relatórios para essa bolsa, de Agosto de 1975[1], que me surpreendeu neste momento de imprevisibilidade, como também então o era em muito diversas condições.

Escrevia eu, nesse longínquo Agosto, que «a “dessacralização” é uma das vias imprescindíveis na construção de uma verdadeira democracia no caminho para o socialismo. Lenine traduziu-o expressivamente quando identificou a democracia real com a possibilidade de intervenção de qualquer cidadão nos “negócios do Estado”, todos para tal capacitados, citando a cozinheira ou a empregada doméstica.» E, ontem, ouvia barbaridades sobre o sarilho em que estamos metidos por votos de gente ignara relativamente a “negócios” que, evidentemente para quem se fazia ouvir, deveriam ser reserva de gente bem informadda, isto é, informada bem… à maneira.

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Acontece que nesse texto escrevia eu: «Claro que isso (a capacitação dos serviçais, da “plebe”) não acontece por se desejar que isso aconteça, mas a partir de condições de vida social que o possibilitem.» Assim, com uma preocupação de «método de abordagem para a compreensão justa e a e prática correcta numa realidade social extremamente complexa», introduzia considerações sobre o problema da previsão e o seu lugar numa estratégia de desenvolvimento procurando que não fosse inútil (por inacessível) o espaço preenchido em informação não especializada.

Continuava: «Por um lado, há quem ponha em dúvida a possibilidade de fazer previsões relativamente ao desenvolvimento económico e social em estruturas móveis e amorfas, com relações de produção instáveis e transitórias; pr outro lado, há também – e quantas vezes serão os mesmos – quem nada seja capaz de fazer sem primeiro tudo construir na própria e privilegiada cabeça(…) No entanto (…) existe uma necessidade objectiva de previsão só possível de satisfazer se ultrapassada a situação de elaboração insuficiente[2] de instrumental científico(…)».

Adiante uns parágrafos, escrevia «Nas condições concretas do desenvolvimento económico e social, impõe-se que se encare o problema do desenvolvimento económico e social de países e regiões do mundo e procuram-se abordagens e metodologias.Essa imposição tem duas respostas: uma, que pode ter várias expressões mas que é possível dizer-se que assenta na fatalidade preconcebida de um desenvolvimento capitalista, outra que será revolucionária por se inserir na luta de classes e não aceitar a escatologia que se traduz por uma fatalidade de haver sempre exploradores e explorados.»

A saída do Reino Unido da União Europeia (e a própria divisão no Reino Unido) vem como que lembrar o que nunca pode ser esquecido: a necessidade de prever o que se vai adiando. 

[1] – bolsa que não teve continuidade por ter tomado posse, então, de funções públicas

[2] – manipulada e com o peso desmesurado da financeirização transnacional, digo eu hoje

Doutor em Economia e ex-membro do Comité Central do PCP, é membro da Assembleia Municipal de Ourém. Foi deputado à Assembleia da República em 1986 e de 1989 a 1990. Foi também consultor Chefe de Missão BIT/OIT em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique, Director Geral do Emprego e deputado ao Parlamento Europeu desde 1990 a 1999, onde integrou várias Comissões do Parlamento Europeu e do Inter-Grupo do PE para as Questões de Timor-Leste.
Escreve mensalmente no mediotejo.net.

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