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Quarta-feira, Agosto 4, 2021

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“O bisturi e o óculo-1”, por Sérgio Ribeiro

Nesta semana entre o Natal e o Ano Novo (e cercanias de antes e depois) andam os afamados analistas, mormente os de pendor para as coisas do que chamam economia, todos azafamados às voltas com o balanço de 2016 e a prospectiva de 2017.

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Mas as contas parecem estar a sair-lhes furadas e os orçamentos e grandes opções dos planos falhos de pontaria certeira. A todos os níveis. Do mais micro e local (e logo por cá 2017 será ano de autárquicas) ao mais macro e universal, nem o bisturi para a autópsia do ano morto, nem o óculo dos auspícios do ano a nascer estarão a ajudar. O bisturi teria sido substituído por uma tesoura romba e o óculo assemelha-se a uma espécie de lente daquelas baças de fundo de garrafa.

Sem de modo algum pretender ser exaustivo, mas tão-só referir factos e relevâncias ao “correr da pena” (ou das penas e penares), 2016 teria sido confirmado como ano depois da “crise” e do proclamado “fim de ciclo”.

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E 2016 foi

i), por cá, o ano em que o previsto diabo (não só pelo expiatório Passos Coelho) nos não visitou e a gerigonça funcionou, com um Partido Comunista a ser insolitamente decisivo para as alternativas dentro da correlação de forças, para mais sem perder o objectivo e a prática da luta pela substituição de um capitalismo às aranhas pela democracia avançada e pelo socialismo;

ii) foi, na Europa, o ano em que o Reino Unido cortou débeis pontes atlânticas com essa coisa chamada União Europeia, onde os italianos dizem um não de consequências imprevisíveis, que veio juntar Itália aos outros Estados-membros (?) do Sul, a que se pode acrescentar uma nórdica Irlanda com vias em colisão com a ortodo-burocracia de Bruxelas-Frankfurt, onde se esperam as eleições à porta do ex-eixo franco-alemão, cujas portas respectivas oscilam entre a abertura, a entre-abertura e o fecho total para os que fogem do terrível vespeiro colocado nas suas terras e seus caminhos, sempre (inter)dependentes mas não tão sujeitos a ingerência e violência numa mistela que mistura direitos humanos com terrorismo (…);

iii) foi, no Médio-Oriente, o ano em que o imperialismo e o seu controlo unívoco derrapou e se estampou contra resistências inesperadamente fortes, e fortalecidas por alianças pontuais e estranhas, de que se deixa apenas a referência às posições não controladas, e por vezes convergentes, de que se dá exemplo as reuniões Rússia-Irão-Turquia (este Estado um eixo fulcral da NATO) (…)

iv) foi, na América ao Sul, o ano do esquisito – apesar de sul-americano – golpe de estado no Brasil, da perturbadora situação da Venezuela, e etc.

v) foi, nos Estados Unidos, o ano da eleição espatafúrdia de Trump para presidente, com costas demasiado largas (ou estreitas) para o corpo desconforme do complexo militar-industrial

vi) … e acabo este rol-amostra com a referência a ter sido 2016 mais um ano em que África parece esquecida, ao lado ou carente de interesse, e também foi mais um ano em que, aqui pelos ocidentes, se não percebeu nada (ou não se quis nada perceber) do peso do Oriente, muito particularmente de uma China que vai cerzindo o seu (e o nosso) futuro. Que é já o ano de 2017.

Em suma (e com pouco sumo…), 2016 foi um ano em que tudo parece ter-se enredado numa teia de que se não se descortina nem pontas nem estruturas. Em que os tais analistas estão às apalpadelas nas estatísticas, “às aranhas”, e revelam não dispor de agulhas de (des)tricotar suficientemente finas para separar a intrincada malha e para expor, com alguma clareza, que caminho foi feito, por que caminhos se irá.

Insistem, esses analistas que-tais, na tecla da incerteza. Mostram como a incerteza de Galbraith (“A Era da Incerteza”, 1977) dos anos 70 era um mero troco face à hiper-incerteza de hoje (Eichengreen, em Expresso de 23.12.2016). Mas sobre esse confronto (e outras coisas) cronicarei a seguir, a partir do que, a meu ver, impede de discernir quem pretende ser analista do tempo que se vive: que o capitalismo não é o fim e o motor da História, que as gentes e o seu trabalho o têm sido, o são e serão, que as suas necessidades são o objectivo da economia e não a acumulação de capital financeiro, seja por via da produção (cada vez mais difícil) ou da especulação.

 

Doutor em Economia e ex-membro do Comité Central do PCP, é membro da Assembleia Municipal de Ourém. Foi deputado à Assembleia da República em 1986 e de 1989 a 1990. Foi também consultor Chefe de Missão BIT/OIT em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique, Director Geral do Emprego e deputado ao Parlamento Europeu desde 1990 a 1999, onde integrou várias Comissões do Parlamento Europeu e do Inter-Grupo do PE para as Questões de Timor-Leste.
Escreve mensalmente no mediotejo.net.

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