“O Basilisco”, por Aurélio Lopes

Epifania da Lua, a serpente constitui o paradigma do símbolo selénico não só mais pleno como mais persistente, sobrevivendo mesmo às mutações que transformaram as alegorias lunares em divindades cristãs como Santa Marta ou a Virgem Maria.

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Aliás, desde sempre, as divindades de natureza mais ou menos lunar foram personificações femininas e mantiveram uma íntima relação com a serpente. Artemisa, Hécate e Perséfona (bem como a enigmática “Deusa das Serpentes” cretense), eram representadas, frequentemente, segurando serpentes. As górgonas, de que Medusa foi a mais célebre, possuíam serpentes em vez de cabelos e o corpo, serpentiforme, coberto de escamas.

Como potência feminina, a Lua afeta o período menstrual e, deste modo, condiciona e determina a fertilidade da mulher. E, se é a serpente o animal lunar por excelência e símbolo ímpar da fecundidade, normal será que entre a serpente e a mulher se desenvolva uma relação que a tradição secular reveste de contornos não só sensuais como, inclusivamente, eróticos!

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Afinal, numa simbologia ofídia especialmente multivalente e multifacetada, a relação mulher/serpente reveste aspetos multiformes (em que predomina o fértil e o fecundo), nem sempre imediatamente percetíveis como tal, mas cuja permanência um pouco por todas as sociedades mediterrâneas, constitui facto indubitável.

É a serpente, afinal, expressão do movimento inicial agitado e ondulatório, que cria o Mundo e o sustenta. É o elemental primevo. Totem, antepassado, pai ou avó para muitas culturas primitivas. Monstro do caos (serpente marinha, dragão) que num combate primordial gera o Cosmos.

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Às vezes, dando origem a ciclos de criação e destruição.

Seja por vontade própria ou, mais tarde, em termos civilizacionais, pela sua morte às mãos de um herói (quase sempre solar), que as diversas culturas perpetuaram em combates rituais que o rito operacionaliza e o mito consagra.

É verdade que Deus, após a desobediência no Paraíso, terá castigado a serpente (entendida como símbolo do mal e avatar do diabo) dizendo-lhe: “Eu porei inimizade entre ti e a mulher. Esta te pisará a cabeça”.

Contudo, e ao contrário do que acontece com as divindades masculinas, a relação das divindades femininas cristãs com as serpentes continua a traduzir-se, especialmente, pelo apaziguamento e, dir-se-ia até, cumplicidade. E não só no episódio bíblico.

Pois se os homens matam dragões e serpentes (daí os São Jorges combatendo, ritualmente, o dragão ou a “serpe”, cuja participação frequente nas Festas do Corpo de Cristo, permitiu, de alguma forma, a sua persistência até aos nossos dias, em Braga, Penafiel ou Monção), as mulheres, em especial, se virgens, surgem-nos do fundo dos tempos amansando-os e apaziguando-os. Tal é a crença que dá corpo a um imaginário cultural mediterrâneo que perpassou, inclusive, o misticismo cristão. E que encontramos hoje, não só em diversas entidades marianas mas, também, em santas virgens como Santa Marta ou Santa Catarina.

Aliás, a cumplicidade bíblica Eva/Serpente (ética e doutrinariamente diabolizada) é bem visível, desde logo, no episódio, dito, da “Queda”.

Pois, à subsistência da relação de proximidade e cumplicidade da mulher/virgem com o dragão/serpente, assente na fertilidade e até no líbido, opor-se-á, a relação com o homem, antagónica e de confronto. Que  a dimensão popular, ainda hoje, claramente perpetua*.

Não é assim surpresa que a serpente surja no lendário tradicional como amiga da mulher, enquanto o lagarto é amigo do homem e inimigo fidalgal daquela e da serpente. E esta atracão mulher/serpente (que o leite simboliza) reveste-se então no imaginário popular de estereótipos eróticos, dando origem a crenças e superstições que radicam no mais fundo da tradição cultural das nossas gentes.

Cobras, ávidas de leite, que com a mulher e a amamentação se relacionam em episódios de indubitável erotismo, sendo preciso que os homens, quase sempre os maridos ou as “antigas” (as velhas) matem a cobra abusiva.

Acredita-se, por exemplo, em certas aldeias do nosso país, que a víbora, depois de mamar nos seios da mulher, volta a absorver a peçonha que, para poder sugar, vazara previamente numa qualquer cavidade. Se a relação mulher/serpente necessitasse de exemplos que simbolizassem uma mítica e ancestral solidariedade mútua, a presente crença seria bem modelo adequado.

Ora, com as serpentes se interliga, igualmente, a crença no “Basilisco”, criatura  mítica (galo-serpente) que o bestiário popular inclui e que, tal como Medusa, possui o poder de matar só com a vista.

No Minho este é substituído por um lagarto que se acredita estar destinado a “matar o dono da casa”. Tal crença, presente em especial no norte do país, encontramo-la ainda na Dinamarca, bem como no Brasil e na Galiza.

Aliás, no Brasil, tal criatura é considerada como tendo a forma de uma lagartixa, de um galo/réptil ou de uma serpente. Como acontece entre nós, nasce na noite de São João de um ovo que, nessa noite prodigiosa, um galo põe. Pequeno, de patas curtas, possui um olhar poderoso, que faz perder a visão (ou até matar) quem o olha de frente. Para surpreender as pessoas, o mesmo costuma esconder-se atrás da porta ou debaixo da cama.

Como exemplo da predominância desta crença poder-se-á referir uma lenda existente na freguesia de São Salvador do Campo no concelho de Barcelos. Aí, onde existia em tempos idos um mosteiro, reza o imaginário local, que as freiras terão morrido todas, apenas e só… “de ver um basilisco”!

Aliás a crença de que as criaturas serpentiformes possuem um olhar fatal é particularmente fértil na nossa tradição. Medusa, “basilisco” ou até a cobra normal; que se acredita lançar um olhar paralisante sobre as  suas presas. “Dá coca” diz-se, usualmente, no Ribatejo.

Na verdade, esta lenda sugere-nos, até, uma curiosa reflexão. Curiosa porque revela uma abrangência simbólica bem mais vasta do que esperaríamos.

Vimos atrás que a relação erótica entre mulheres e cobras (em que estas mamam dos seios femininos) exige que sejam homens ou, então, as “antigas” (leia-se, as velhas) a matarem a cobra. Vimos agora, que o “basilisco” mata com a vista mas, apenas “o dono da casa”. A não ser, na lenda atrás referida, em que o mesmo mata todas as freiras do Convento de São Salvador do Campo. Como explicar tais discrepâncias?

Lembremos, aqui, a natureza fertilizante/fecundante da relação mulher/serpente. Que tanto na tradição popular como erudita exprime diversas formas de cooperação. E, mesmo, enquanto lagarto/dragão, as mulheres/virgens apenas amansam.

Lembre-se, ainda, que quem mata serpentes são os homens (como acontece igualmente  mitologicamente com os dragões) ou, como vimos, as “velhas”. Entenda-se, quem mata serpentes e afins são, obrigatoriamente, criaturas não férteis; ou, naturalmente (como os homens) ou por estarem, já, num estado de infertilidade.

No caso do “basilisco” repare-se, também, que embora podendo apresentar uma forma híbrida esta criatura não deixa de ser uma serpente e a sua ação mortífera incide, portanto, sobre um homem e não um homem qualquer; o “dono da casa”. Podemos ainda, refletir um pouco mais e entendê-lo como aquele que simboliza o poder masculino e impõe a submissão à mulher.

Então, porquê tal morticínio mítico no referido mosteiro?

Porque, afinal, as freiras, embora tecnicamente mulheres; abdicaram, voluntariamente, do seu potencial fértil e criador. São, também elas, personagens inférteis, embora por opção.

Mulheres, afinal, que se tornaram homens!

*Lendas relacionadas, encontramo-las respeitantes, entre outras, à Senhora da Saúde em Sabrosa, à Senhora de Aires, em Viana do Alentejo ou à Senhora do Livramento, em Grândola; em que homens alvo de ataques de cobras (gigantescas, já se vê), solicitam o auxílio da Senhora: sendo, naturalmente, atendidos.

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