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Sexta-feira, Dezembro 3, 2021
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“O Ano do Centenário”, por Aurélio Lopes

Terminou o Ano do Centenário. Com Papa e sem Papa, sucederam-se diversas iniciativas (cerimoniais ou não), bem como emergiu toda uma peculiar torrente editorial, aproveitando, afinal, a boleia do momento.

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A grande maioria de um de dois tipos: os apologéticos e confessionais: envolvendo, às vezes, a apreciação histórica e a contribuição papal e os pseudo memoriais; recolhendo testemunhos de personagens mais ou menos relevantes da sociedade portuguesa; estratégia, afinal, sempre eficaz.

Congressos, simpósios e produções audiovisuais ensaiaram supostos contraditórios. Suficientes para relevar diferenças. Insuficientes para constituírem opção conclusiva.

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Estudos, percecionando os factos nucleares disponíveis e conhecidos enquanto meros dados de pesquisa, contam-se pelos dedos de uma mão. E… ainda sobram dedos!

Mesmo assim constituíram uma singularidade mais ou menos insólita.

Dir-se-á portanto que, também por isto, alguns factos se vão tornando menos interditos. Algumas análises, menos constrangidas. Algumas conclusões, menos estigmatizadas.

Sintetizemos então, à guisa de reflexão, os traços básicos de uma fatimologia atual que, apesar de tudo, vai adquirindo traços mais claros, enquanto dicotomia mais ou menos interativa entre o objetivo facto científico e o subjetivo dado de fé:

– Aparições como a de Fátima constituem fenómenos bem mais frequentes do que é suposto à primeira vista.

– Afinal, em alturas particularmente difíceis, as súplicas tornam-se especialmente fervorosas e as relações entre Deus e os Homens tendem a assumir um carácter direto e imediato.

– Surgem, portanto, como fenómenos em que se estabelece um atalho na relação com a esfera do Divino. E a intermediação clerical se torna dispensável.

– No caso de Fátima, a conflitualidade entre o Governo da República e a Igreja foi o principal fator que despoletou os fenómenos.

– Assente, este, em propícias condições socioculturais e na existência de potenciais videntes, possuidores de marcantes propensões alucinatórias.

– Videntes que participam, sempre, de especiais idiossincrasias. Sentem-se como “escolhidos” por Deus, seus “mensageiros na Terra”.

– São muitas vezes pessoas simples, de formação cultural baixa, emotivos e impressionáveis, levando uma existência dura e boçal, quantas vezes sofrida, sem perspectivas de melhoria.

– Para eles o mundo é palco de uma luta entre o bem e o mal. Luta perpétua, em que o mal confere, de alguma forma, sentido ao bem e um importante desígnio ao respetivo sofrimento.

– A aparição proporciona-lhes uma importante rutura com o quotidiano. Que os resgata à banalidade prosaica da sua existência e confere uma razão de ser à mesma. Tornam-se a mão direita de Deus. Representantes na Terra dos interesses do Céu.

– São quase sempre sinceros e convictos da “sua” verdade (por mais delirante que seja) e mesmo que os faça sofrer. Quando não, buscando mesmo o soteriológico sofrimento.

– A inclusão de confidências e “segredos” transforma os videntes em confidentes da divindade.

– Neste caso, só Lúcia é vidente e confidente. As aparições são dela!

– À semelhança de La Salette e Lurdes, no princípio Fátima constitui um acontecimento meramente popular e local.

– As conversas, extremamente prosaicas (próprias da idade de Lúcia), são meramente locais: a preocupação com a Guerra, as mortes e as doenças de vizinhos e conhecidos.

– Afinal, trata-se de crianças, em que o real e o simbólico de uma teologia, necessariamente prosaica, se confundem em inconsciente simbiose.

– Fátima partilha de um modelo usual à época: crianças, pastoras, local ermo, dureza de vida, acidente geofísico, construção de um templo, milagre probatório – nascente milagrosa, prodígio do sol, curas sobrenaturais.

– Entre diversos outros temas, nem o “Anjo”, nem o “Imaculado Coração de Maria”, nem as referências à Rússia, nem sequer os famosos “Três Segredos”, constam dos testemunhos primevos.

– O usual, nestes fenómenos é a rejeição por parte da Igreja. Pois os mesmos dispensam e menorizam o papel de intermediários dos sacerdotes.

– Na verdade, aceitar que Deus resolve atalhar a sua comunicação com os Homens escolhendo, para tal, uma criança ou um personagem (quantas vezes simplório), não é fácil.

– Daí, também, a desconfiança do Pároco de Fátima. E do Cardeal Mendes Belo. Percebe-se, contudo, desde o início, uma atitude de abertura/apoio de alguns clérigos (como o Cónego Formigão) de especial influência na Região.

– Entre 1917 e 1920/1 o processo mantêm-se como que em suspenso, esperando-se tempos mais favoráveis. A partir daí, tudo começa a mudar.

– A morte de dois dos videntes e a colocação, na recriada Diocese de Leiria, de um bispo especialmente devoto do marianismo, criam as condições determinantes que levarão à implementação do Santuário.

– Tal como aconteceu com Lúcia, a colocação dos videntes a recato é, nestes casos, condição necessária ao gradual reconhecimento.

– As configurações destes fenómenos são modeladas pelas particularidades etno-culturais em presença. Refletem os modelos estereotipados que imagens e gravuras iconográficas apresentam em templos ou publicações mais ou menos catecúmenas.

– Também as linguagens e preocupações demonstradas pela “Senhora” são, naturalmente, aquelas que uma criança daquele tempo, daquela idade e daquele lugar, poderia conceber.

– Podemos dizer que os testemunhos primevos, são aqui especialmente prosaicos, breves, frios e de uma confrangedora falta de assunto. Tudo se resume “à Guerra” e ao desagravo pelos “pecados do mundo”.

– As profecias sagradas são, quase sempre, contingentes, eventuais ou controladas pelo profeta. Ou, até, constituindo revelações posteriores ao acontecimento. O que não aconteceu, de todo, em Fátima, com a profecia, falhada, do “fim da guerra”.

– Os fenómenos de rotação solar são parte integrante da nossa tradição popular. Acreditando-se, por exemplo, que ocorrem ciclicamente em alturas especiais do ano; como as alvoradas do dia de São João, de Natal ou do 1º de Maio.

– São condição de especificidades atmosféricas que, pela sua singularidade (vista como prodigiosa) e pelo frenético misticismo em presença surgem, quase sempre, associadas a estes fenómenos.

– Após década e meia de completo isolamento Lúcia, em 1936, estava convencida que Fátima tinha acabado.

– Contudo, passado que foi o tempo de criação material do santuário, estavam criadas as condições para a necessária adequação e elaboração dos testemunhos a que alguns chamaram Fátima II.

– Deste modo, logo a mesma se tornará alvo de sucessivos pedidos; solicitando-lhe novas versões dos testemunhos, bem como reconversões dos respetivos contextos sociais e familiares.

– As “Memórias de Lúcia” constituirão, assim, um processo dirigido e controlado de adequação (reformulação, adição e, aqui e ali, omissão) dos testemunhos primevos. Transformando textos prosaicos e simplórios, em extensos e eruditos escritos doutrinários.

– Criar-se-ão os famosos “Segredos”, as referências ao Imaculado Coração de Maria e Sagrado Coração de Jesus e uma singular multiplicação dos fenómenos de vidência pré e, principalmente, pós 1917.

– O nacionalismo que o culto desenvolveu no santuário, há-de promover e catalisar o algo surreal “Anjo de Portugal”.

– Fátima tornar-se-á, entretanto, um santuário institucional controlado, em que o lúdico/subversivo popular (tão comum às romarias portuguesas) foi combatido desde muito cedo.

– Transformar-se-á gradualmente no hoje tão badalado grande “altar do mundo”. Dando corpo à consagração do domínio do marianismo na Igreja.

– Tornando-se importante fenómeno global – tanto social, como económico e turístico.

– Afinal os santos, tal como os deuses, precisam tanto de nós como nós deles. A sua importância é resultado, direto e proporcional, das respetivas devoções.

– Ao contrário de João Paulo II, a canonização dos assim chamados “pastorinhos” (que vinha esbarrando na sua escassa capacidade de intercessão) foi, como era previsível, resolvida.

– Naturalmente o processo de canonização de Lúcia irá ser desenvolvido em tempo recorde.

– Fátima é, assim, o aproveitamento (em condições propícias) de um fenómeno hierofânico várias vezes verificado e repetido em diversos tempos, com diversas configurações e em diversificados cenários estruturais e conjunturais.

Esclareça-se finalmente que, ao contrário do que alguns sustentam, não são conhecidos aí, dados minimamente sustentáveis que indiciem a existência de uma potencial fraude: entenda-se algo construído, desde o início, com o propósito prévio e consciente de enganar.

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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